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O sistema das drogas: estrutura produtiva e
usos e costumes
Jorge Atílio Silva Iulianelli
A sociedade brasileira está inserida no capitalismo mundializado.
Nessa nova fase do Imperialismo a inserção brasileira é a do capitalismo
periférico. As ações econômicas fazem o Brasil ser uma nação explorada
pelos conglomerados, cartéis e grupos internacionais, tendo uma
elite capitalista nacional parasitária e quase improdutiva, muito
embora bastante diversificada do ponto de vista da capacidade produtiva.
O resultado dessa macro-estrutura, também, se reflete na produção
agrícola. As atividades agrícolas têm se organizado, sobretudo,
na forma do agronegócio exportador, deixando milhões de brasileiros
camponeses reféns, de um lado, das forças retrógradas do latifúndio;
de outro, das forças superexploratórias formadoras de amplo exército
de reserva camponês, do agronegócio de alta tecnologia.
Do ponto de vista da superestrutura jurídico?política a sociedade
brasileira alcançou, sobretudo com as mobilizações que conduziram
à Constituição de 1988, a formulação de um Estado de Direito. Por
um lado, houve a formalização e a garantia de diversos direitos
sociais – muito embora, desprezados e destruídos de Collor a FHC.
Por outro lado, houve um deslocamento para as estruturas do poder
local com a municipalização. Ambos movimentos consagram a sociedade
brasileira como uma sociedade em busca da conquista e garantia de
direitos sociais pelas vias formais do Estado.
Das duas observações anteriores procede que a sociedade brasileira
convive com altos graus de acumulação de riqueza e de desigualdades
sociais. Isto implica, entre outras coisas, num incremento bastante
forte para as anomias sociais: crime, desvios de conduta, degradação
do tecido social, ausência de políticas públicas sociais que tratem
das mazelas da saúde pública, etc. Lembro aqui artigo de Weffort
(A América errada), dos anos de 1990, no qual ele utiliza a categoria
anomia social generalizada. Não obstante as críticas teóricas ao
conceito de anomia, ele é bastante útil para compreender que o alto
grau de desenvolvimento econômico da sociedade brasileira, e a formalidade
do Estado de Direito, sem as conseqüentes vias de implementação
do mesmo, significam uma alta deterioração da já tão abalada sociedade
brasileira.
Desigualdade e ausência de implementação do Estado de Direito implicam
em reforço de estruturas ilegais para o aumento da concentração
de riqueza de determinados setores que não conseguem ou não têm
interesse em se utilizar as estruturas da economia formal. Na própria
estrutura formal há uma série de intervenientes que permitem a concentração
de riqueza. Tais são expedientes como sonegação e remessa ilegal
de capitais para o estrangeiro, as famosas contas CC5. Isso tudo
fica consagrado pelo corolário da impunidade fiscal – segundo o
Unafisco (Sindicato dos Funcionários da Receita) houve, no governo
FHC, um relaxamento em relação às atividades de sonegação, muito
embora, conforme o mesmo órgão, as estruturas formais de controle
do governo brasileiro ainda são das melhores da América Latina.
Porém, muito embora essa forma de atividade ilegal, altamente praticada
pelos capitalistas nacionais e internacionais, seja corrente, ela
não tem o mesmo perfil de atividades que são prescritas pelos Códices
penais como criminosas – apenas para recordar, crime civil não é
equivalente a crime penal, no caso dos primeiros eles podem estar
na órbita do direito administrativo e tributário. Num e noutro caso,
há uma colaboração de estruturas e de servidores do Estado. Não
podem existir crimes que tenham interferência direta na ordem econômica
sem a participação de setores do Estado – do aparelho de repressão
até as altas esferas da administração pública.
A ausência no Brasil não é tanto de Estado de Direito que de ação
construtora de condições de bem-estar social. No Brasil, há ausência
de um Estado de Bem-Estar Social que faça o Estado cumprir os direitos
assegurados na Carta Magna e que leve às pessoas terem respeitado
esses direitos. Então, a carência é de um Estado providência – para
usar a bela expressão de Antonio Cândido.
Voltemos, agora, o nosso olhar para a estrutura produtiva das drogas
ilícitas. Em primeiro lugar, devemos observar o que tem sido chamado
de sistema das drogas. O sistema das drogas é filho legítimo do
Capitalismo, assim como a estrutura do Capitalismo sempre contou
com o crime – no caso das drogas, a disputa da guerra do ópio demonstra
como o Capitalismo precisou criminalizar o uso das drogas, mostrando
os interesses colonialistas por trás da criminalização. Mutatus
mutandis, a situação da criminalização das drogas é um espelho da
divisão internacional do trabalho. Causa espécie que uma atividade
tão lucrativa não esteja sendo realizada às expensas dos capitalistas
do Primeiro Mundo, mas de alguns capitalistas do Terceiro Mundo
– o problema, para o Primeiro Mundo, sobretudo, está na estrutura
da distribuição do produto. O que temos? Segundo as informações
da UNDCP o sistema das drogas, exclusivamente, faz circular 411
bilhões de dólares por ano, apenas a maconha faria circular 41,5
bilhões de dólares por ano. Isto significa 40% do dinheiro que se
atribui à economia do crime (organizado?). O Capitalismo do crime
é um fato? O fato é que na medida em que existe um setor ilícito
do Capitalismo ele implica numa estrutura bélica que não é da guerra,
mas é efetivamente letal e, (1) associa os setores populares como
mão?de?obra; (2) associa os setores populares como soldados (seguranças,
pessoas armadas); (3) vitimiza especialmente os setores populares
– na América Latina o aumento da violência entre os setores populares
é um fato alarmante, México, Colômbia e Brasil são, respectivamente,
os países com os maiores índices de mortes por causa externa (segundo
a FLACSO, considerando a década de 1990).
No Brasil, ao que parece, a atividade das drogas ilícitas é, sobretudo
de tráfico, acima de tudo no que se refere à cocaína. A cocaína
traficada, no Brasil, é de procedência colombiana. Porém, as indicações
da Polícia Federal mostram que a cocaína boliviana e peruana também
circulam nas rotas nacionais e abastecem o mercado interno.
O Brasil é, sobretudo, consumidor da maconha que produz. A única
pesquisa nacional (realizada pela SENAD) sobre consumo de drogas
indica que 8% da população brasileira consomem maconha. É uma cifra
muito alta. Essa cifra corresponde à hipótese de uma área agricultável
de 118 mil ha. na BA e PE para a produção da maconha, e uma mão?de?obra
de 40 mil trabalhadores rurais, dentre os quais 10 mil crianças
e adolescentes. Sabe-se que a principal área de produção é identificada
como sendo o Polígono da maconha, que corresponderia segundo a Polícia
Federal e a SENAD, a um conjunto de municípios de Pernambuco. Porém,
já se identificou que, praticamente, todos os estados do NE são
produtores de maconha – sobretudo BA e PE. E, conforme o Instituto
Giovane Falcone, do Juiz Maierovitch, há uma expansão da produção
para os estados do Sul e Sudeste. Como há uma enorme entrada de
maconha do Paraguai – que conforme suspeitas são traslados de produção
nacional que migram e retornam, é, também, possível considerar uma
zona de produção no Centro Oeste. Portanto, a produção da maconha
é um fenômeno agrário nacional.
A maconha é produzida numa forma consorciada entre um capitalismo
agrário, com uma estrutura de agronegócio e a pequena produção familiar.
Pequenas propriedades, com uma organização familiar da produção,
empregadas por agentes financiadores da produção de drogas ilícitas,
que fornecem sementes, asseguram o pagamento da produção, promovem
segurança para as áreas de plantio e transporte para o escoamento
da produção. O papel do pequeno produtor, por conseguinte, é bastante
específico: ele é um agente produtivo, que semeia, cuida da cultura
e agiliza a colheita e uma espécie de pré-beneficiamento, que é
a prensagem. Como no agronegócio, em geral, a distribuição dos lucros
para o pequeno produtor é exígua em relação aos preços do transportador
aos centros de distribuição e destes aos consumidores.
O que ocorre com os pequenos produtores no Brasil é reproduzido
com os pequenos produtores das drogas ilícitas. Os direitos trabalhistas,
os direitos humanos, os direitos fundamentais são absolutamente
desrespeitados.
Então, há um problema que é a efetivação dos direitos para os trabalhadores
rurais. Direitos de atingidos por barragens, seringueiros, quebradeiras
de côco de babaçu, assentados do MST, agro?operários das fruticulturas
irrigadas, pequenos produtores de cultura de subsistência e de pequenos
produtores de maconha. Efetivar direitos e lutar por novos direitos
apenas é possível porque existe uma estrutura jurídico?política
que reconhece a proeminência do Estado de direito, como garante
da ordem social e econômica. Temos dois outros problemas aqui. Um
em relação à sociedade, outro em relação ao Estado.
Em relação à sociedade temos que a existência da formalidade legal
não corresponde a efetividade. A situação sócio?econômica, como
reiteradamente comprova o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
brasileiro, e os IDHs regionais e étnicos, é de extrema desigualdade.
Retomo a afirmação anterior (# 3), há Estado de Direito e inexiste
Estado de Bem-Estar Social. Assim, diante do impacto da violência,
fruto da ilegalidade de determinadas práticas ilícitas do Capitalismo,
a sociedade se refugia imputando responsabilidade aos aparentes
agentes imediatos. É muito difícil convencer?se de uma responsabilidade
estrutural e da necessidade de garantir direitos a quem, diante
da lei, realiza uma prática criminosa. Em relação ao Estado, é muito
difícil manter uma postura de reconhecer direitos a usuários, sem
reconhecer direitos a produtores. O entremeio do caminho do ilícito
e da violência é muito tênue. Não é fácil identificar a linha que
separa a justiça, da legalidade, nesse caso. Todavia, cumular de
malefícios aqueles que já estão sendo vilipendiados historicamente...
Do meu ponto de vista, portanto, numa discussão sobre redes de poder,
associação criminosa, estrutura produtiva e estrutura de segurança
no sistema das drogas não se pode desprezar o importante papel de
um capitalismo criminoso – e nem todo o é, torno a repetir – e de
setores do Estado comprometidos com ele. Assim como não se podem
desprezar elementos do imaginário como compulsão ao consumo, moralidade
camponesa, etc. Essa produção se beneficia da enorme desigualdade
da sociedade brasileira. É nessa realidade desigual que se estriba
toda uma atitude exploradora e violenta, como no demais explorador
e violento é o capitalismo. Porém, não é a mesma a exploração e
violência lícita e a ilícita, a última pode ser mais letal, mas
não é a primeira melhor por isso. Exatamente porque o Capitalismo
é violento é que a sociedade ergue, como eclusa, o Direito, para
assegurar uma vida menos malograda.
Com essas reflexões não pretendo encerrar nada. Apenas continuar
aprofundando nossa compreensão da produção de drogas ilícitas e
seus efeitos para a vida camponesa, em particular, e para a conquista
de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, em geral
II - Agradeço a Gilberta Acselrad a noção de usos e costumes
Nas investigações que temos realizado no Submédio São Francisco
sobre os efeitos da produção agroindustrial de droga de cultivo
ilícito sobre a vida camponesa nunca pensamos na questão dos processos
culturais de usos e costumes locais em relação às drogas. Não era
apenas um esquecimento. Tratava-se de enfatizar outros processos.
Nas nossas investigações, o centro das atenções era o processo produtivo,
as formas de aliciamento de mão-de-obra, os efeitos na economia
local dessa absorção de mão?de?obra, as circunstâncias de segurança
do processo, a violência histórica existente como base para os esquemas
de segurança, o processo repressivo da erradicação de áreas de plantio
como instigador de um ciclo de violência – que conta com a migração
do crime como um ingrediente, e a eliminação da juventude como uma
conseqüência de tudo isso.
Então, a questão dos usos e costumes não entrava naquele menu. Na
verdade, nossa investigação se perguntava (e se pergunta) sobre
a rede do poder local, sobre os efeitos que a o sistema de produção
agroindustrial de drogas ilícitas têm nas disputas de poder nas
comunidades, regiões e municípios. Temos uma preocupação em identificar
as territorialidades construídas, os lugares que “nem a polícia
pode entrar” e os “lugares de todo mundo” e os “lugares – com horários
– perigosos”, os “lugares das anti-regras” – como Floresta e a regra
de motociclista andar sem capacete para ser reconhecido se for um
assassino. Além disso, nossa preocupação estava (está) dirigida
para os processos de aliciamento e a constituição de atividades
de “trabalho” diferente de atividades de “crime”, lugares de ser
“hômi” e o terror da “homilhação” que é ser preso. E, isso tudo
nos fazia enfocar (e ainda faz) os processos de extermínio, de morte,
do qual são vítimas, sobretudo, os jovens. E, acima de tudo, nosso
olhar investigativo se dirigiu à construção de processos alternativos,
que se dirigiram para a produção de uma cultura da paz, as ações
vinculadas à igreja católica, e a Diocese de Floresta em particular,
e aquelas que se dirigiram para constituir um movimento juvenil
construtor de alternativas políticas, culturais, sociais e produtivas
dos jovens, tal é, na nossa interpretação o movimento que se dá
a partir do Pólo Sindical dos Trabalhadores Rurais do Submédio São
Francisco.
Toda essa investigação que fizemos teve data. O marco amargo inicial
foi o assassinato de uma liderança sindical, Fulgêncio Manoel da
Silva, de Santa Maria da Boa Vista, Pernambuco, por um jovem reassentado
rural, Tiquinho, comandado pelos gerentes da produção agroindustrial
de maconha dentro da área de projetos de irrigação conquistada pelas
trabalhadoras e trabalhadores rurais do Submédio São Francisco.
Isto foi no dia 15 de outubro de 1997. Daí o olhar se fez retroativo.
Ecoou-se que, em 1997, um Relatório Parlamentar, identificava uma
região, entre os estados da Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas,
Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, que era o Polígono da Maconha,
área de atuação dos comandos caipiras que estariam ligados ao comando
vermelho. Identificou-se que, já em 1994, os STRs da região do Pólo
anotavam a presença do narcotráfico como um motivo de risco. Viu-se
que já em 1986 o governo brasileiro sabia, senão por fonte própria,
por informação da Drug Enforcement Agency que aquela região era
a de maior produção de cannabis sativa no Brasil. Identificou-se
que, já nos anos de 1950, Donald Pierson tinha notado que no Vale
do São Francisco se produzia e consumia cannabis. Soube-se que,
já no século XVIII, de acordo a registros históricos, até mesmo
relatados por Gilberto Freyre, naquela região se consumia cannabis.
A pergunta inicial foi: quando essa produção se tornou agroindústria?
Identificamos que, a partir de meados de 1980, uma série de fatores
fez com que a produção da cannabis sativa se tornasse atraente para
os camponeses e pequenos produtores da região do Submédio São Francisco.
Em primeiro lugar, nesse período, a produção algodoeira e de cebola
entraram em crise, os preços caíram muito, os produtores se desfizeram
largamente de seus produtos pelos preços baixos do mercado. Em segundo
lugar, houve o famigerado escândalo da mandioca que deixou muitos
pequenos produtores quebrados. Em terceiro lugar, o preço da maconha
importada subia e a repressão à importação de maconha crescia, surgindo
uma pressão para o atendimento à demanda de consumo interno da erva.
A região já se mostrara climática e geograficamente adequada para
a produção de um cultivo agrícola que se tornara ilícito, a partir
dos anos de 1930. Por conseguinte, esses e outros fatores, tornaram
o incremento da produção atraente. Havia uma população preparada
para atuar naquela atividade agrícola, naquela região inóspita,
em condições de produzir para o mercado – como mostraram poder fazer
com a cebola e o algodão.
Um outro elemento importante, a cultura do coronelismo. As lideranças
políticas ou armadas, ou políticas e armadas na região se mantinham
e estendiam – não vale a pena se estender numa reflexão sobre a
sobrevivência do coronelismo nos interiores, fica aqui apenas o
registro. Agrega-se a essa cultura dois fatores. Primeiro, naquela
região o Cangaço se fez vida – o Submédio é a região de Lampião.
Segundo, a cultura do Cangaço deixou o tema das vinganças por honra
da família. Isso instalara na região uma série de grupos rivais,
que disputavam (disputam) território para suas ações de “proteção”
às comunidades e “avanço de ações criminosas contra o patrimônio
para enriquecimento próprio”. Proteção é um tema que nunca trabalhamos.
Recentemente, tive um antropological blues. No início do mês de
abril, foi morto pela Polícia Militar Francisco Benvindo, de Belém
do São Francisco, que era chamado de “Lampião do Nordeste”. Numa
conversa sobre líderes e ídolos da juventude alguém falou: “a juventude
se espelha no Lampião do Nordeste”, explicou depois: “a juventude
quer defender o que é seu”. Esse “o que é seu” ficou no claroscuro
da defesa da honra, defesa da propriedade, defesa da família, no
limite defesa do direito de (sobre)viver. Ao saber da morte de Chico
Benvindo, a mesma pessoa, que ficou claramente descontrolada, afirmou:
“Morreu o defensor de Belém do São Francisco”. Perguntada sobre
isso, ela afirmou: “ele nos defendia das agressões da outra família,
agora, quem vai nos defender? Quem tem dinheiro vai sair da cidade.
Quem não tem? Que vai fazer?”.
Essa afirmação reproduz um cenário antigo como os de periferias
e favelas em cidades como o Rio de Janeiro. São situações nas quais
se dá um pacto de sobrevivência, nas quais as ações criminosas têm
um limite e uma ação de “proteção” para a garantia de território.
A proteção é defesa de um meio ambiente que não é hostil à facção
e que assegura um controle territorial que impede o avanço do grupo
contendor. Porém, as ações criminosas atendem não a uma lógica da
defesa da comunidade, mas a uma lógica da pilhagem, que é, no que
consigo compreender, a lógica sistêmica do capitalismo: business
is business, e sua finalidade é o lucro – o padeiro, nos ensinava
Adam Smith, não faz pão para alimentar o faminto, mas para ter lucro.
O assaltante não assalta para o benefício alheio – Robin Hood e
o banditismo social, como o de Lampião (o original), são exceções.
O assaltante comete o assalto para o lucro pessoal.
Bem, esse antropological blues, que minha amiga de Belém do São
Francisco permitiu ter, revelou uma face da discussão que precisava
ser mais aprofundada. De um lado, confirmava nossas informações
de haver sido essa violência local instalada o solo fértil para
a arregimentação de gerentes do plantio. Novas informações indicam
que esses gerentes do plantio são, em muitos casos, subgerentes
que fazem o serviço de segurança, enquanto a gerência fica nas mãos
de financistas que aplicam local e regionalmente o dinheiro do processo,
para ser lavado no sistema bancário e no comércio local. Porém,
fica evidente que essa configuração do poder das armas se robustece
com as novas armas leves que chegam à região por meio do comando
vermelho. As cidades de Belém do São Francisco, Orocó e Floresta,
além de Santa Maria da Boa Vista, para citar apenas algumas, têm
agentes do crime historicamente reconhecidos por seus nomes de família.
Porém, como há essa aura protetora, as pessoas não são arregimentadas
em cidades como Belém por uma coação violenta. Tivemos informações
que o plantio se dá em áreas de até oito hectares, onde trabalham
mais que cem pessoas, pessoas de várias famílias, homens, mulheres
e crianças – a partir de doze anos. E, dependendo da situação da
repressão (maior ou menor), elas chegam a receber entre R$ 50, 00
e R$ 100,00 por dia de trabalho – uma diária 5 a 10 vezes superior
que a diária no plantio/colheita de cebola. No período da colheita,
e as pessoas sabem que o ciclo do cultivo dura 90 dias, normalmente
– embora já existam sementes transgênicas na região com o ciclo
de 45 dias, as pessoas vão procurar esses subgerentes e seus subordinados
para serem contratadas. Também tivemos informações de pessoas que
foram seqüestradas para trabalhar nas roças de maconha, em Orocó.
Ainda tivemos informações que mais ao norte, entre Santa Maria da
Boa Vista e Petrolina, as diárias chegam a ser de R$ 12,00 e que
há pessoas que são proibidas de sair da área de plantio até a colheita
– havendo ainda consórcio com a prostituição infantil nessas áreas.
Toda essa informação sobre o sistema produtivo da cannabis revela
muito. Não vou me estender aqui sobre a questão das relações de
poder. Devemos ao menos mencionar que há uma clara articulação entre
poderes constituídos, mercado legal e poderes vinculados ao processo
de produção agroindustrial das drogas de cultivo ilícito. Isso é
um lado da questão desse sistema produtivo. Um outro lado, que também
apenas mencionaremos aqui, é o das relações entre os pequenos produtores
que não querem plantar a cannabis e os que aceitam ou se subordinam
a ser integrados no processo desse plantio, é no cerne dessa última
relação que emerge a questão sobre os direitos dos trabalhadores
rurais envolvidos no plantio de drogas de cultivo ilícito. Há ainda
um outro elemento a ser destacado na questão do sistema produtivo,
aquele dos seus efeitos na (des)estruturação das culturas locais,
seus impactos sobre as novas gerações – sobre a juventude, e seu
impacto na economia local. Para além disso, há que se associar o
tema da repressão ao sistema produtivo como um fenômeno retrogerador
da dizimação de jovens.
Tudo isso mencionado, vamos, pois, há outros antropological blues
sobre usos e costumes. Conversando sobre o assunto com pessoas de
Petrolândia recebi a informação da presença da cannabis como produto
comercializável, de alto lucro para comerciantes locais, já em 1975
– isso não era uma novidade, como vimos no início dos olhares retrospectivos
mencionados anteriormente. Agregou a essa informação uma outra sobre
o aumento atual do consumo entre os jovens naquela cidade – e isso
era uma novidade. Naqueles dias, após essa conversa, num encontro
de jovens, de várias cidades, recebi a informação que o Projeto
Xingó está produzindo uma série de conversas sobre prevenção ao
consumo de drogas. Os jovens, então, falaram que, conforme a impressão
que tinham, estava acontecendo um grande aumento do consumo de drogas,
sobretudo maconha, nas cidades deles – eram cidades pernambucanas
como Itacuruba, que tem menos que 30 mil habitantes, mas um índice
de morte de jovens de 15-24 anos superior ao de Floresta; Glória,
na Bahia, entre outras. Esse aumento do consumo foi falado com uma
preocupação: “eles vão virar bandidos”; “temos que trazê?los para
o nosso lado”. O nosso lado, de gente de bem, que pode salvar aqueles
perdidos. Porém, há um grau de verdade nesse discurso: em relação
às drogas de cultivo ilícito plantio-consumo-hordas criminosas não
é uma trilogia inverídica naquela região. Então, essa coragem de
oferecer uma alternativa para aqueles jovens não estava sendo cotada
como um ato de benevolência com as vítimas, mas como uma solidariedade
efetiva com aqueles que parecem estar se ligando com “a morte”,
“o mal”.
Conversando com outra pessoa, essa de Paulo Afonso, muito mais velha
que os jovens, e muito conhecedora das cidades da região, recebi
mais uma nova informação. Os usos da cannabis vão, naquela região,
muito além do uso como cigarro. A cannabis é usada na medicina caseira,
foi assim que a pessoa se referiu, para o tratamento da asma e de
outras doenças respiratórias. Como se faz? Perguntei, ao que me
respondeu “se esfrega a folha na pessoa, não sei bem como é...”
Perguntei: “Não é um chá? Ou uma garrafada?” Ele disse: “Não, é
a própria folha”. Até há um outro uso, em Orocó, segundo a mesma
pessoa, se vende cachaça temperada, na qual a raiz da maconha era
embebida – “e, dizem, me disse a pessoa, era até gostosa”. Era?
– perguntei – “Não sei se ainda vendem hoje”. E a medicina caseira?
Perguntei. “Essa ainda se usa”. Ele me disse. Falei que havia aqueles
registros de uma presença antiga da cannabis na região antes, e
isso fez a pessoa me falar desses usos conhecidos – por essa pessoa
e outros, não por mim, ouvinte ignorante – e que, segundo a pessoa
que me relatou esses fatos, os antigos da região sabem.
Pois bem, há muito mais a se aprender com os usos e costumes, e
o sistema produtivo do que aquilo que até o momento já sabemos.
Porém, algumas coisas estão se tornando cada vez mais evidentes.
Primeiro, o fato da existência do cultivo da cannabis nada tem que
ver diretamente com os processos violentos. Segundo, a política
da erradicação de áreas de plantio, que já dura desde 1940, é ineficaz
tanto para erradicar o plantio de drogas de cultivo ilícito, quanto
mais para criar alternativas de desenvolvimento rural para as camponesas
e camponeses. Terceiro, o aumento da produção em escala agroindustrial
é um fenômeno com concausas que responde a situações prévias que
o permitem – entre as quais um certo hábito cultural com o cultivo
da erva cannabis – e essa última questão é uma informação nova.
Quarto, os processos violentos também possuíam um acento cultural,
mas foram exponencialmente ampliados com os novos vínculos mercadológicos
da produção agroindustrial da maconha. Quinto, o sistema produtivo
da cannabis tem uma gerência financeira local/regional, mas que,
assim como nas relações entre interiores e capitais, entre centro
e periferia do sistema capitalista, não tem o domínio do processo
– e nesse domínio do processo da lavagem de dinheiro ninguém conseguiu
tocar forte e firmemente ainda. Sexto, há uma situação de ampliação
do consumo local/regional que precisa ser avaliada.
Termino assim essas notas, sabendo que são anotações impressionistas
e que precisam ser aprofundadas. Elas deverão ser ajuntadas a umas
outras notas que têm uma leitura mais macro do processo e serão
avaliadas a partir dali. Assim, por enquanto, permanecem provocantes,
querendo instigar a conversa, sem chegar a nenhum rumo da prosa.
Porque, ao fim e ao cabo, a prosa é mesmo para isso, para a gente
ir juntando os discursos, ampliando a compreensão e afinando estratégias
de ação. A avaliação do processo deverá ser se conseguimos, ou não,
construir com os interessados ações de autovalorização, autonomia,
autorealização, se, ao final, as pessoas encontram caminhos para
serem mais felizes e viverem em circunstâncias que não ameacem à
vida. Se conseguirmos isso, teremos realizado nosso intuito, se,
ao menos, tivermos preparado caminho para isso, teremos realizado
nosso intuito, se, de todo, não avançarmos nessa direção, malogramos
e, talvez, ratificamos a injustiça e a desigualdade.
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