Boletim da Rede de Pesquisadores sobre Narconegócio e Campesinato
Produzido pelo Projeto Cultura e Desenvolvimento -- KOINONIA
Número 3

 

O sistema das drogas: estrutura produtiva e usos e costumes
Jorge Atílio Silva Iulianelli


A sociedade brasileira está inserida no capitalismo mundializado. Nessa nova fase do Imperialismo a inserção brasileira é a do capitalismo periférico. As ações econômicas fazem o Brasil ser uma nação explorada pelos conglomerados, cartéis e grupos internacionais, tendo uma elite capitalista nacional parasitária e quase improdutiva, muito embora bastante diversificada do ponto de vista da capacidade produtiva. O resultado dessa macro-estrutura, também, se reflete na produção agrícola. As atividades agrícolas têm se organizado, sobretudo, na forma do agronegócio exportador, deixando milhões de brasileiros camponeses reféns, de um lado, das forças retrógradas do latifúndio; de outro, das forças superexploratórias formadoras de amplo exército de reserva camponês, do agronegócio de alta tecnologia.

Do ponto de vista da superestrutura jurídico?política a sociedade brasileira alcançou, sobretudo com as mobilizações que conduziram à Constituição de 1988, a formulação de um Estado de Direito. Por um lado, houve a formalização e a garantia de diversos direitos sociais – muito embora, desprezados e destruídos de Collor a FHC. Por outro lado, houve um deslocamento para as estruturas do poder local com a municipalização. Ambos movimentos consagram a sociedade brasileira como uma sociedade em busca da conquista e garantia de direitos sociais pelas vias formais do Estado.

Das duas observações anteriores procede que a sociedade brasileira convive com altos graus de acumulação de riqueza e de desigualdades sociais. Isto implica, entre outras coisas, num incremento bastante forte para as anomias sociais: crime, desvios de conduta, degradação do tecido social, ausência de políticas públicas sociais que tratem das mazelas da saúde pública, etc. Lembro aqui artigo de Weffort (A América errada), dos anos de 1990, no qual ele utiliza a categoria anomia social generalizada. Não obstante as críticas teóricas ao conceito de anomia, ele é bastante útil para compreender que o alto grau de desenvolvimento econômico da sociedade brasileira, e a formalidade do Estado de Direito, sem as conseqüentes vias de implementação do mesmo, significam uma alta deterioração da já tão abalada sociedade brasileira.

Desigualdade e ausência de implementação do Estado de Direito implicam em reforço de estruturas ilegais para o aumento da concentração de riqueza de determinados setores que não conseguem ou não têm interesse em se utilizar as estruturas da economia formal. Na própria estrutura formal há uma série de intervenientes que permitem a concentração de riqueza. Tais são expedientes como sonegação e remessa ilegal de capitais para o estrangeiro, as famosas contas CC5. Isso tudo fica consagrado pelo corolário da impunidade fiscal – segundo o Unafisco (Sindicato dos Funcionários da Receita) houve, no governo FHC, um relaxamento em relação às atividades de sonegação, muito embora, conforme o mesmo órgão, as estruturas formais de controle do governo brasileiro ainda são das melhores da América Latina. Porém, muito embora essa forma de atividade ilegal, altamente praticada pelos capitalistas nacionais e internacionais, seja corrente, ela não tem o mesmo perfil de atividades que são prescritas pelos Códices penais como criminosas – apenas para recordar, crime civil não é equivalente a crime penal, no caso dos primeiros eles podem estar na órbita do direito administrativo e tributário. Num e noutro caso, há uma colaboração de estruturas e de servidores do Estado. Não podem existir crimes que tenham interferência direta na ordem econômica sem a participação de setores do Estado – do aparelho de repressão até as altas esferas da administração pública.

A ausência no Brasil não é tanto de Estado de Direito que de ação construtora de condições de bem-estar social. No Brasil, há ausência de um Estado de Bem-Estar Social que faça o Estado cumprir os direitos assegurados na Carta Magna e que leve às pessoas terem respeitado esses direitos. Então, a carência é de um Estado providência – para usar a bela expressão de Antonio Cândido.

Voltemos, agora, o nosso olhar para a estrutura produtiva das drogas ilícitas. Em primeiro lugar, devemos observar o que tem sido chamado de sistema das drogas. O sistema das drogas é filho legítimo do Capitalismo, assim como a estrutura do Capitalismo sempre contou com o crime – no caso das drogas, a disputa da guerra do ópio demonstra como o Capitalismo precisou criminalizar o uso das drogas, mostrando os interesses colonialistas por trás da criminalização. Mutatus mutandis, a situação da criminalização das drogas é um espelho da divisão internacional do trabalho. Causa espécie que uma atividade tão lucrativa não esteja sendo realizada às expensas dos capitalistas do Primeiro Mundo, mas de alguns capitalistas do Terceiro Mundo – o problema, para o Primeiro Mundo, sobretudo, está na estrutura da distribuição do produto. O que temos? Segundo as informações da UNDCP o sistema das drogas, exclusivamente, faz circular 411 bilhões de dólares por ano, apenas a maconha faria circular 41,5 bilhões de dólares por ano. Isto significa 40% do dinheiro que se atribui à economia do crime (organizado?). O Capitalismo do crime é um fato? O fato é que na medida em que existe um setor ilícito do Capitalismo ele implica numa estrutura bélica que não é da guerra, mas é efetivamente letal e, (1) associa os setores populares como mão?de?obra; (2) associa os setores populares como soldados (seguranças, pessoas armadas); (3) vitimiza especialmente os setores populares – na América Latina o aumento da violência entre os setores populares é um fato alarmante, México, Colômbia e Brasil são, respectivamente, os países com os maiores índices de mortes por causa externa (segundo a FLACSO, considerando a década de 1990).

No Brasil, ao que parece, a atividade das drogas ilícitas é, sobretudo de tráfico, acima de tudo no que se refere à cocaína. A cocaína traficada, no Brasil, é de procedência colombiana. Porém, as indicações da Polícia Federal mostram que a cocaína boliviana e peruana também circulam nas rotas nacionais e abastecem o mercado interno.

O Brasil é, sobretudo, consumidor da maconha que produz. A única pesquisa nacional (realizada pela SENAD) sobre consumo de drogas indica que 8% da população brasileira consomem maconha. É uma cifra muito alta. Essa cifra corresponde à hipótese de uma área agricultável de 118 mil ha. na BA e PE para a produção da maconha, e uma mão?de?obra de 40 mil trabalhadores rurais, dentre os quais 10 mil crianças e adolescentes. Sabe-se que a principal área de produção é identificada como sendo o Polígono da maconha, que corresponderia segundo a Polícia Federal e a SENAD, a um conjunto de municípios de Pernambuco. Porém, já se identificou que, praticamente, todos os estados do NE são produtores de maconha – sobretudo BA e PE. E, conforme o Instituto Giovane Falcone, do Juiz Maierovitch, há uma expansão da produção para os estados do Sul e Sudeste. Como há uma enorme entrada de maconha do Paraguai – que conforme suspeitas são traslados de produção nacional que migram e retornam, é, também, possível considerar uma zona de produção no Centro Oeste. Portanto, a produção da maconha é um fenômeno agrário nacional.

A maconha é produzida numa forma consorciada entre um capitalismo agrário, com uma estrutura de agronegócio e a pequena produção familiar. Pequenas propriedades, com uma organização familiar da produção, empregadas por agentes financiadores da produção de drogas ilícitas, que fornecem sementes, asseguram o pagamento da produção, promovem segurança para as áreas de plantio e transporte para o escoamento da produção. O papel do pequeno produtor, por conseguinte, é bastante específico: ele é um agente produtivo, que semeia, cuida da cultura e agiliza a colheita e uma espécie de pré-beneficiamento, que é a prensagem. Como no agronegócio, em geral, a distribuição dos lucros para o pequeno produtor é exígua em relação aos preços do transportador aos centros de distribuição e destes aos consumidores.

O que ocorre com os pequenos produtores no Brasil é reproduzido com os pequenos produtores das drogas ilícitas. Os direitos trabalhistas, os direitos humanos, os direitos fundamentais são absolutamente desrespeitados.

Então, há um problema que é a efetivação dos direitos para os trabalhadores rurais. Direitos de atingidos por barragens, seringueiros, quebradeiras de côco de babaçu, assentados do MST, agro?operários das fruticulturas irrigadas, pequenos produtores de cultura de subsistência e de pequenos produtores de maconha. Efetivar direitos e lutar por novos direitos apenas é possível porque existe uma estrutura jurídico?política que reconhece a proeminência do Estado de direito, como garante da ordem social e econômica. Temos dois outros problemas aqui. Um em relação à sociedade, outro em relação ao Estado.

Em relação à sociedade temos que a existência da formalidade legal não corresponde a efetividade. A situação sócio?econômica, como reiteradamente comprova o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) brasileiro, e os IDHs regionais e étnicos, é de extrema desigualdade. Retomo a afirmação anterior (# 3), há Estado de Direito e inexiste Estado de Bem-Estar Social. Assim, diante do impacto da violência, fruto da ilegalidade de determinadas práticas ilícitas do Capitalismo, a sociedade se refugia imputando responsabilidade aos aparentes agentes imediatos. É muito difícil convencer?se de uma responsabilidade estrutural e da necessidade de garantir direitos a quem, diante da lei, realiza uma prática criminosa. Em relação ao Estado, é muito difícil manter uma postura de reconhecer direitos a usuários, sem reconhecer direitos a produtores. O entremeio do caminho do ilícito e da violência é muito tênue. Não é fácil identificar a linha que separa a justiça, da legalidade, nesse caso. Todavia, cumular de malefícios aqueles que já estão sendo vilipendiados historicamente...

Do meu ponto de vista, portanto, numa discussão sobre redes de poder, associação criminosa, estrutura produtiva e estrutura de segurança no sistema das drogas não se pode desprezar o importante papel de um capitalismo criminoso – e nem todo o é, torno a repetir – e de setores do Estado comprometidos com ele. Assim como não se podem desprezar elementos do imaginário como compulsão ao consumo, moralidade camponesa, etc. Essa produção se beneficia da enorme desigualdade da sociedade brasileira. É nessa realidade desigual que se estriba toda uma atitude exploradora e violenta, como no demais explorador e violento é o capitalismo. Porém, não é a mesma a exploração e violência lícita e a ilícita, a última pode ser mais letal, mas não é a primeira melhor por isso. Exatamente porque o Capitalismo é violento é que a sociedade ergue, como eclusa, o Direito, para assegurar uma vida menos malograda.

Com essas reflexões não pretendo encerrar nada. Apenas continuar aprofundando nossa compreensão da produção de drogas ilícitas e seus efeitos para a vida camponesa, em particular, e para a conquista de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, em geral

II - Agradeço a Gilberta Acselrad a noção de usos e costumes

Nas investigações que temos realizado no Submédio São Francisco sobre os efeitos da produção agroindustrial de droga de cultivo ilícito sobre a vida camponesa nunca pensamos na questão dos processos culturais de usos e costumes locais em relação às drogas. Não era apenas um esquecimento. Tratava-se de enfatizar outros processos. Nas nossas investigações, o centro das atenções era o processo produtivo, as formas de aliciamento de mão-de-obra, os efeitos na economia local dessa absorção de mão?de?obra, as circunstâncias de segurança do processo, a violência histórica existente como base para os esquemas de segurança, o processo repressivo da erradicação de áreas de plantio como instigador de um ciclo de violência – que conta com a migração do crime como um ingrediente, e a eliminação da juventude como uma conseqüência de tudo isso.

Então, a questão dos usos e costumes não entrava naquele menu. Na verdade, nossa investigação se perguntava (e se pergunta) sobre a rede do poder local, sobre os efeitos que a o sistema de produção agroindustrial de drogas ilícitas têm nas disputas de poder nas comunidades, regiões e municípios. Temos uma preocupação em identificar as territorialidades construídas, os lugares que “nem a polícia pode entrar” e os “lugares de todo mundo” e os “lugares – com horários – perigosos”, os “lugares das anti-regras” – como Floresta e a regra de motociclista andar sem capacete para ser reconhecido se for um assassino. Além disso, nossa preocupação estava (está) dirigida para os processos de aliciamento e a constituição de atividades de “trabalho” diferente de atividades de “crime”, lugares de ser “hômi” e o terror da “homilhação” que é ser preso. E, isso tudo nos fazia enfocar (e ainda faz) os processos de extermínio, de morte, do qual são vítimas, sobretudo, os jovens. E, acima de tudo, nosso olhar investigativo se dirigiu à construção de processos alternativos, que se dirigiram para a produção de uma cultura da paz, as ações vinculadas à igreja católica, e a Diocese de Floresta em particular, e aquelas que se dirigiram para constituir um movimento juvenil construtor de alternativas políticas, culturais, sociais e produtivas dos jovens, tal é, na nossa interpretação o movimento que se dá a partir do Pólo Sindical dos Trabalhadores Rurais do Submédio São Francisco.

Toda essa investigação que fizemos teve data. O marco amargo inicial foi o assassinato de uma liderança sindical, Fulgêncio Manoel da Silva, de Santa Maria da Boa Vista, Pernambuco, por um jovem reassentado rural, Tiquinho, comandado pelos gerentes da produção agroindustrial de maconha dentro da área de projetos de irrigação conquistada pelas trabalhadoras e trabalhadores rurais do Submédio São Francisco. Isto foi no dia 15 de outubro de 1997. Daí o olhar se fez retroativo. Ecoou-se que, em 1997, um Relatório Parlamentar, identificava uma região, entre os estados da Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí, que era o Polígono da Maconha, área de atuação dos comandos caipiras que estariam ligados ao comando vermelho. Identificou-se que, já em 1994, os STRs da região do Pólo anotavam a presença do narcotráfico como um motivo de risco. Viu-se que já em 1986 o governo brasileiro sabia, senão por fonte própria, por informação da Drug Enforcement Agency que aquela região era a de maior produção de cannabis sativa no Brasil. Identificou-se que, já nos anos de 1950, Donald Pierson tinha notado que no Vale do São Francisco se produzia e consumia cannabis. Soube-se que, já no século XVIII, de acordo a registros históricos, até mesmo relatados por Gilberto Freyre, naquela região se consumia cannabis.

A pergunta inicial foi: quando essa produção se tornou agroindústria? Identificamos que, a partir de meados de 1980, uma série de fatores fez com que a produção da cannabis sativa se tornasse atraente para os camponeses e pequenos produtores da região do Submédio São Francisco. Em primeiro lugar, nesse período, a produção algodoeira e de cebola entraram em crise, os preços caíram muito, os produtores se desfizeram largamente de seus produtos pelos preços baixos do mercado. Em segundo lugar, houve o famigerado escândalo da mandioca que deixou muitos pequenos produtores quebrados. Em terceiro lugar, o preço da maconha importada subia e a repressão à importação de maconha crescia, surgindo uma pressão para o atendimento à demanda de consumo interno da erva. A região já se mostrara climática e geograficamente adequada para a produção de um cultivo agrícola que se tornara ilícito, a partir dos anos de 1930. Por conseguinte, esses e outros fatores, tornaram o incremento da produção atraente. Havia uma população preparada para atuar naquela atividade agrícola, naquela região inóspita, em condições de produzir para o mercado – como mostraram poder fazer com a cebola e o algodão.

Um outro elemento importante, a cultura do coronelismo. As lideranças políticas ou armadas, ou políticas e armadas na região se mantinham e estendiam – não vale a pena se estender numa reflexão sobre a sobrevivência do coronelismo nos interiores, fica aqui apenas o registro. Agrega-se a essa cultura dois fatores. Primeiro, naquela região o Cangaço se fez vida – o Submédio é a região de Lampião. Segundo, a cultura do Cangaço deixou o tema das vinganças por honra da família. Isso instalara na região uma série de grupos rivais, que disputavam (disputam) território para suas ações de “proteção” às comunidades e “avanço de ações criminosas contra o patrimônio para enriquecimento próprio”. Proteção é um tema que nunca trabalhamos. Recentemente, tive um antropological blues. No início do mês de abril, foi morto pela Polícia Militar Francisco Benvindo, de Belém do São Francisco, que era chamado de “Lampião do Nordeste”. Numa conversa sobre líderes e ídolos da juventude alguém falou: “a juventude se espelha no Lampião do Nordeste”, explicou depois: “a juventude quer defender o que é seu”. Esse “o que é seu” ficou no claroscuro da defesa da honra, defesa da propriedade, defesa da família, no limite defesa do direito de (sobre)viver. Ao saber da morte de Chico Benvindo, a mesma pessoa, que ficou claramente descontrolada, afirmou: “Morreu o defensor de Belém do São Francisco”. Perguntada sobre isso, ela afirmou: “ele nos defendia das agressões da outra família, agora, quem vai nos defender? Quem tem dinheiro vai sair da cidade. Quem não tem? Que vai fazer?”.

Essa afirmação reproduz um cenário antigo como os de periferias e favelas em cidades como o Rio de Janeiro. São situações nas quais se dá um pacto de sobrevivência, nas quais as ações criminosas têm um limite e uma ação de “proteção” para a garantia de território. A proteção é defesa de um meio ambiente que não é hostil à facção e que assegura um controle territorial que impede o avanço do grupo contendor. Porém, as ações criminosas atendem não a uma lógica da defesa da comunidade, mas a uma lógica da pilhagem, que é, no que consigo compreender, a lógica sistêmica do capitalismo: business is business, e sua finalidade é o lucro – o padeiro, nos ensinava Adam Smith, não faz pão para alimentar o faminto, mas para ter lucro. O assaltante não assalta para o benefício alheio – Robin Hood e o banditismo social, como o de Lampião (o original), são exceções. O assaltante comete o assalto para o lucro pessoal.

Bem, esse antropological blues, que minha amiga de Belém do São Francisco permitiu ter, revelou uma face da discussão que precisava ser mais aprofundada. De um lado, confirmava nossas informações de haver sido essa violência local instalada o solo fértil para a arregimentação de gerentes do plantio. Novas informações indicam que esses gerentes do plantio são, em muitos casos, subgerentes que fazem o serviço de segurança, enquanto a gerência fica nas mãos de financistas que aplicam local e regionalmente o dinheiro do processo, para ser lavado no sistema bancário e no comércio local. Porém, fica evidente que essa configuração do poder das armas se robustece com as novas armas leves que chegam à região por meio do comando vermelho. As cidades de Belém do São Francisco, Orocó e Floresta, além de Santa Maria da Boa Vista, para citar apenas algumas, têm agentes do crime historicamente reconhecidos por seus nomes de família.

Porém, como há essa aura protetora, as pessoas não são arregimentadas em cidades como Belém por uma coação violenta. Tivemos informações que o plantio se dá em áreas de até oito hectares, onde trabalham mais que cem pessoas, pessoas de várias famílias, homens, mulheres e crianças – a partir de doze anos. E, dependendo da situação da repressão (maior ou menor), elas chegam a receber entre R$ 50, 00 e R$ 100,00 por dia de trabalho – uma diária 5 a 10 vezes superior que a diária no plantio/colheita de cebola. No período da colheita, e as pessoas sabem que o ciclo do cultivo dura 90 dias, normalmente – embora já existam sementes transgênicas na região com o ciclo de 45 dias, as pessoas vão procurar esses subgerentes e seus subordinados para serem contratadas. Também tivemos informações de pessoas que foram seqüestradas para trabalhar nas roças de maconha, em Orocó. Ainda tivemos informações que mais ao norte, entre Santa Maria da Boa Vista e Petrolina, as diárias chegam a ser de R$ 12,00 e que há pessoas que são proibidas de sair da área de plantio até a colheita – havendo ainda consórcio com a prostituição infantil nessas áreas.

Toda essa informação sobre o sistema produtivo da cannabis revela muito. Não vou me estender aqui sobre a questão das relações de poder. Devemos ao menos mencionar que há uma clara articulação entre poderes constituídos, mercado legal e poderes vinculados ao processo de produção agroindustrial das drogas de cultivo ilícito. Isso é um lado da questão desse sistema produtivo. Um outro lado, que também apenas mencionaremos aqui, é o das relações entre os pequenos produtores que não querem plantar a cannabis e os que aceitam ou se subordinam a ser integrados no processo desse plantio, é no cerne dessa última relação que emerge a questão sobre os direitos dos trabalhadores rurais envolvidos no plantio de drogas de cultivo ilícito. Há ainda um outro elemento a ser destacado na questão do sistema produtivo, aquele dos seus efeitos na (des)estruturação das culturas locais, seus impactos sobre as novas gerações – sobre a juventude, e seu impacto na economia local. Para além disso, há que se associar o tema da repressão ao sistema produtivo como um fenômeno retrogerador da dizimação de jovens.

Tudo isso mencionado, vamos, pois, há outros antropological blues sobre usos e costumes. Conversando sobre o assunto com pessoas de Petrolândia recebi a informação da presença da cannabis como produto comercializável, de alto lucro para comerciantes locais, já em 1975 – isso não era uma novidade, como vimos no início dos olhares retrospectivos mencionados anteriormente. Agregou a essa informação uma outra sobre o aumento atual do consumo entre os jovens naquela cidade – e isso era uma novidade. Naqueles dias, após essa conversa, num encontro de jovens, de várias cidades, recebi a informação que o Projeto Xingó está produzindo uma série de conversas sobre prevenção ao consumo de drogas. Os jovens, então, falaram que, conforme a impressão que tinham, estava acontecendo um grande aumento do consumo de drogas, sobretudo maconha, nas cidades deles – eram cidades pernambucanas como Itacuruba, que tem menos que 30 mil habitantes, mas um índice de morte de jovens de 15-24 anos superior ao de Floresta; Glória, na Bahia, entre outras. Esse aumento do consumo foi falado com uma preocupação: “eles vão virar bandidos”; “temos que trazê?los para o nosso lado”. O nosso lado, de gente de bem, que pode salvar aqueles perdidos. Porém, há um grau de verdade nesse discurso: em relação às drogas de cultivo ilícito plantio-consumo-hordas criminosas não é uma trilogia inverídica naquela região. Então, essa coragem de oferecer uma alternativa para aqueles jovens não estava sendo cotada como um ato de benevolência com as vítimas, mas como uma solidariedade efetiva com aqueles que parecem estar se ligando com “a morte”, “o mal”.

Conversando com outra pessoa, essa de Paulo Afonso, muito mais velha que os jovens, e muito conhecedora das cidades da região, recebi mais uma nova informação. Os usos da cannabis vão, naquela região, muito além do uso como cigarro. A cannabis é usada na medicina caseira, foi assim que a pessoa se referiu, para o tratamento da asma e de outras doenças respiratórias. Como se faz? Perguntei, ao que me respondeu “se esfrega a folha na pessoa, não sei bem como é...” Perguntei: “Não é um chá? Ou uma garrafada?” Ele disse: “Não, é a própria folha”. Até há um outro uso, em Orocó, segundo a mesma pessoa, se vende cachaça temperada, na qual a raiz da maconha era embebida – “e, dizem, me disse a pessoa, era até gostosa”. Era? – perguntei – “Não sei se ainda vendem hoje”. E a medicina caseira? Perguntei. “Essa ainda se usa”. Ele me disse. Falei que havia aqueles registros de uma presença antiga da cannabis na região antes, e isso fez a pessoa me falar desses usos conhecidos – por essa pessoa e outros, não por mim, ouvinte ignorante – e que, segundo a pessoa que me relatou esses fatos, os antigos da região sabem.

Pois bem, há muito mais a se aprender com os usos e costumes, e o sistema produtivo do que aquilo que até o momento já sabemos. Porém, algumas coisas estão se tornando cada vez mais evidentes. Primeiro, o fato da existência do cultivo da cannabis nada tem que ver diretamente com os processos violentos. Segundo, a política da erradicação de áreas de plantio, que já dura desde 1940, é ineficaz tanto para erradicar o plantio de drogas de cultivo ilícito, quanto mais para criar alternativas de desenvolvimento rural para as camponesas e camponeses. Terceiro, o aumento da produção em escala agroindustrial é um fenômeno com concausas que responde a situações prévias que o permitem – entre as quais um certo hábito cultural com o cultivo da erva cannabis – e essa última questão é uma informação nova. Quarto, os processos violentos também possuíam um acento cultural, mas foram exponencialmente ampliados com os novos vínculos mercadológicos da produção agroindustrial da maconha. Quinto, o sistema produtivo da cannabis tem uma gerência financeira local/regional, mas que, assim como nas relações entre interiores e capitais, entre centro e periferia do sistema capitalista, não tem o domínio do processo – e nesse domínio do processo da lavagem de dinheiro ninguém conseguiu tocar forte e firmemente ainda. Sexto, há uma situação de ampliação do consumo local/regional que precisa ser avaliada.

Termino assim essas notas, sabendo que são anotações impressionistas e que precisam ser aprofundadas. Elas deverão ser ajuntadas a umas outras notas que têm uma leitura mais macro do processo e serão avaliadas a partir dali. Assim, por enquanto, permanecem provocantes, querendo instigar a conversa, sem chegar a nenhum rumo da prosa. Porque, ao fim e ao cabo, a prosa é mesmo para isso, para a gente ir juntando os discursos, ampliando a compreensão e afinando estratégias de ação. A avaliação do processo deverá ser se conseguimos, ou não, construir com os interessados ações de autovalorização, autonomia, autorealização, se, ao final, as pessoas encontram caminhos para serem mais felizes e viverem em circunstâncias que não ameacem à vida. Se conseguirmos isso, teremos realizado nosso intuito, se, ao menos, tivermos preparado caminho para isso, teremos realizado nosso intuito, se, de todo, não avançarmos nessa direção, malogramos e, talvez, ratificamos a injustiça e a desigualdade.