| |
Entrevista com o deputado federal Fernando Ferro (PT/PE)
por Paulo Cesar Pontes Fraga
TEMPO E PRESENÇA: Qual a sua ligação com o pessoal do Pólo Sindical,
na área do Submédio São Francisco?
FERNANDO FERRO: Fui dirigente do movimento sindical, um dos fundadores
da CUT no Estado, e acompanhei o conflito das áreas inundadas que
resultou no deslocamento de 15.200 famílias da área do Submédio
São Francisco. Esse processo mobilizou a Federação dos Trabalhadores
da Agricultura, entidades de direitos humanos, a Igreja Católica,
uma intensa luta social para garantir o direito dos assentados.
Foi conhecendo essa realidade que comecei a me envolver, a participar
e a me engajar nesse projeto. Foi o setor que avançou mais politicamente
nos debates, no final da década de 1970 e início dos anos 1980.
Eles compreenderam bem essa transformação que estava havendo no
movimento sindical e na política brasileira, final da ditadura.
Esse quadro da experiência do movimento sindical com uma forte presença
da igreja, com a própria consolidação de um pólo mais avançado,
mais combativo, de sindicatos rurais, é que constituiu o Pólo sindical
do Submédio São Francisco (Bahia e Pernambuco). A partir daí, nós
tivemos vários momentos de mobilização para garantir o reassentamento
das famílias. Nesse processo tivemos o contato com a realidade do
Submédio São Francisco e do sertão semi-árido, toda essa região
que foi impactada por aquele projeto.
TEMPO E PRESENÇA: Houve um momento da construção das barragens de
reassentar as famílias, mas hoje há outros problemas. Acompanhando
todo esse movimento, o que o senhor acha, além do que já foi citado,
ser o grande problema daquela região (área coberta pelo Pólo) hoje?
FERNANDO FERRO: A luta de implantação dos projetos de assentamento
agora se defronta com uma realidade que é a consolidação do esquema
de produção nas áreas e a finalização do Projeto de assentamento,
ainda não concluído. O governo federal acelera o processo de assentamento
que tem as sedes com responsabilidade pelas populações atingidas
pela barragem de Itaparica; por outro lado, desenvolveu uma forma
de indenização das áreas, resolvendo questões de assentamentos e
criou o problema de uma parcela da população desassistida, à margem
do processo de produção do que estava previsto e acordado com as
entidades e com as famílias no processo de negociação.
Trata-se de um espaço marcado pelos conflitos entre famílias, vista
ser uma área muito disputada em face da disponibilidade de água
numa região com problemas de abastecimento de água. Há populações
indígenas também nesse conflito. É uma disputa por um espaço de
terra, que de certa maneira, acirrou o processo, principalmente
quando muitas famílias que produziam agriculturas tradicionais,
com essa remoção foram privadas desse direito, e ficaram um bom
tempo sustentadas por uma verba paga pela Chesf, antes da conclusão
do projeto, e essa verba acabou substituindo o cultivo. Uma parcela
desses trabalhadores rurais não ficou nem na condição de trabalhadores
rurais, nem de trabalhadores urbanos. Ficaram sustentados por essa
verba. Tudo isso acabou criando problemas sociais de convivência
e a de articulação de grupos na região. Esta se tornou um centro
produtor de maconha, o que envolveu filhos de trabalhadores. Daí
um momento de violência na região. A juventude não é a principal
fonte da violência, mas há uma pressão expressiva para esses delinqüentes,
jovens, atuarem nas áreas de assentamentos com o tráfico de drogas.
TEMPO E PRESENÇA: Aquela região é uma região que já convive com
a violência, briga de famílias, etc. O senhor acha que esse novo
elemento, o plantio de maconha, acirrou essa violência, que já existe
mesmo na forma de brigas familiares?
FERNANDO FERRO: Uma parcela da população encontrou aí uma saída
para substituir os cultivos tradicionais, dada a rentabilidade do
negócio. Isso de certa maneira gerou uma atividade econômica numa
região inóspita, que não é restrita a grupos, envolve toda a região.
Depois de um período de repressão por parte da polícia federal na
região, pessoas da área reconhecem que houve uma decadência da atividade
econômica regular na região; há uma menor circulação de dinheiro
e retração no comércio local, impressionante que afeta a vida da
região. Reconhecem que isso tem a ver com a saída do dinheiro ligado
ao tráfico de drogas. É um elemento de preocupação. Significa que
o negócio das drogas não envolve só marginais, mas está ligado à
realidade econômica da região.
TEMPO E PRESENÇA: Algumas cidades da região hoje vivem da dependência
econômica...
FERNANDO FERRO: Não diria que vivem, mas o dinheiro do tráfico de
drogas é um componente expressivo na economia. Há uma atividade
econômica visível. A polícia sabe, as autoridades sabem, até alguns
políticos fazem vista grossa a essa realidade numa conivência silenciosa.
Compreendem que isso faz parte do cotidiano das cidades. E esse
é outro assunto.
TEMPO E PRESENÇA: O senhor acredita que a repressão nessa área resultou
na queda da atividade econômica na região... mas esse tipo de operação
é suficiente para acabar com o plantio? E que impacto tem na atividade
econômica?
FERNANDO FERRO: A ação repressiva teve impacto no cultivo e na produção
local e influenciou também no preço da maconha. O quilo da maconha
está hoje a R$ 400,00. No passado era quase dez vezes menor. Houve
supervalorização. A região não é apenas uma área de cultivo, tráfico
e comercialização da maconha, é também uma rota de distribuição
de cocaína. Já existe um mercado local e uma rota de abastecimento.
nessa Salgueiro, é uma área de entroncamento de capitais. Tem estradas
que dão acesso a cidades mais do litoral, como Natal, Maceió; ao
norte, Fortaleza, Belém; e ao sul vai para Salvador.
TEMPO E PRESENÇA: Há vários tipos de atividades: plantio, distribuição
e até outras drogas que apareceram na região. O senhor consegue
identificar o papel de cada cidade nessa rede, cidade de consumo,
outra de plantio?
FERNANDO FERRO: O consumo na região não é muito grande, é mais a
produção e a comercialização. Salgueiro, por ser uma cidade maior
e com infra-estrutura, provavelmente é a mais visada pelas articulações
de criminosos de outras áreas da região e lá se instalam para fazer
seus negócios. Mas o chamado Polígono da Maconha, está em expansão.
Não é mais restrito às cidades do Submédio, da beira do Rio. Hoje
já está na região agreste. Por causa da repressão naquela área,
alguns grupos se afastaram e foram atuar em outras áreas, não só
em Pernambuco como no Piauí, no Maranhão, na Bahia... migraram para
outros Estados. O Polígono é mais o núcleo historicamente reprimido.
A questão diz respeito ao Nordeste. Há uma tendência de expansão
da atividade, o que demonstra o poder de sobrevivência mesmo sob
repressão.
TEMPO E PRESENÇA: Essa expansão do Polígono tem a ver com a migração
para outras áreas, devido à repressão?
FERNANDO FERRO: Também. Há uma articulação regional. Há grupos criminosos
que não atuam só em Pernambuco, atuam em diversos tipos de atividades
no Estado e as estendem a outras áreas. Há uma diversificação de
ação desses grupos. Agora que estão sofrendo uma repressão na área
do tráfico de drogas, eles ampliam a ação para seqüestros, assaltos
em estradas. É o crime organizado consolidando uma prática que se
espalha na região.
TEMPO E PRESENÇA: Alguns especialistas trabalham a questão das drogas,
ligada ao plantio, afirmam que a Bolívia é a maior produtora de
folha de coca, maior do que a Colômbia. Entretanto a violência na
Bolívia não é tão grande quanto na Colômbia. A questão é que na
Bolívia, apesar de a droga ser uma atividade ilícita, o caráter
é mais distribuidor, enquanto que na Colômbia, há grandes cartéis,
grandes latifúndios. Sem querer criar qualquer paralelo entre os
países, o senhor acredita que, pelo menos nesta região, a tendência
é reproduzir a estrutura agrária brasileira: maior concentradora
de venda, no caso, ou as pessoas acabam se inserindo no “negócio”
das drogas?
FERNANDO FERRO: Talvez porque, mesmo nos projetos de pequenas agrovilas,
tem havido contaminação. No caso da Colômbia é região de conflito
militar, de disputa de hegemonia política, que favorece a operação
de refino e a grande comercialização. Na Bolívia existe uma certa
presença do Estado, com seus equipamentos repressivos. Na Colômbia,
há ainda a dubiedade de poder de quem manda no país. A região do
Polígono é uma região sem lei, onde impera outro sistema de forças.
A violência da região é muita, mesmo com a repressão, o tráfico
consegue garantir algum controle das estradas. Há muito medo na
população. Os grupos lá instalados sobrevivem mesmo com a repressão
com a diversificação, criam outros focos. Além disso existem sinais
de articulação de grupos daquela região com os de outras áreas.
O crime não é isolado, restrito ao Polígono da Maconha. Há sinais
de articulação mais orgânica do crime; não é uma coisa simples,
mas é resultado de um processo político social dessa região.
TEMPO E PRESENÇA: Por que naquela área e não noutras áreas do Brasil?
FERNANDO FERRO: Aquela região foi uma grande produtora de cebola,
arroz, milho e plantios tradicionais. Mas, a partir de meados da
década de 1980, houve o chamado escândalo da mandioca, com a denúncia
no Ministério Público de desvio de dinheiro do Banco do Brasil que
praticamente cancelou suas operações de incentivo na região. Caíram
os créditos e houve um impacto muito sério entre os produtores e
a redução da produção agrícola. Nesse vácuo do crédito oficial,
surgiram as propostas de traficantes. O comércio de drogas começou
a financiar a agricultura, com mais rentabilidade e menos burocracia;
com segurança e com retorno. Era um negócio, econômica e financeiramente
muito mais vantajoso. Além disso, sendo região tradicionalmente
violenta, onde imperavam famílias, oligarquias, grupos controladores
da política e da economia, algumas dessas famílias se envolveram
em atividades ligadas ao tráfico de drogas. Além disso é uma região
que tem terra apropriada, toda uma geografia e toda uma característica
da caatinga, beira do rio e o cultivo já existia, feito pelos índios,
embora com um aspecto cultural que veio a ser incorporado, pela
delinqüência.
TEMPO E PRESENÇA: O senhor consegue identificar que espécie de violência
é que está mais ligada ao plantio?
FERNANDO FERRO: Há uma violência que decorre da repressão. Os grupos
que tradicionalmente vivem do cultivo, quando reprimidos nos negócios
com as drogas, partem para seqüestros, assaltos a bancos, a cargas,
para sustentar os que perderam o negócio. O crime torna-se meio
de sobrevivência. A outra violencia decorre do envolvimento de trabalhadores
principalmente jovens e pobres, recrutados para o cultivo e para
o negócio das drogas. A eles são oferecidas oportunidades de ascensão
social. Querem uma moto, um salário, uma roupa, um porte de arma,
segurança... É muito parecido com o que acontece nos morros. Quando
algum deles descumpre alguma regra, são assassinados e facilmente
substituídos.
TEMPO E PRESENÇA: O senhor acredita que os jovens hoje são os mais
atingidos?
FERNANDO FERRO: Eu diria que são os mais vulneráveis. Não têm oportunidade
de emprego. Fora ações localizadas de ONGs, Sindicatos, Igreja,
não existe atividade permanente de trabalhar com população em situação
de risco. São jovens expostos a essa possibilidade e às oportunidades
que o crime organizado oferece. Mesmo para contatos fora da região,
muitos são usados como “mulas”. Um programa de reforço nos reassentamentos,
uma ação do Estado consolidando, com as cooperativas, a produção,
poderia produzir algum resultado. É uma ironia que o próprio governo
ao criar programas para os reassentados, dificulte a titulação das
terras, a assistência técnica e crie outros de empecilhos. Com a
política federal de privatizar o setor elétrico, a Chesf entra como
solução final para regularizar a área dos assentados. Ou seja, desincumbir
essa empresa da responsabilidade social com os atingidos pela barragem
de Itaparica, para “limpar” a área e facilitar a privatização.
A Chesf está na fase de fazer a limpeza da área no sentido mais
nazista da palavra: afastar essa população, se desincumbir da responsabilidade
com eles, a fim de deixar o Estado livre para vender as hidrelétricas
e privatizar o setor, sem encargos sociais, trabalhistas ou políticos
na região. Foi um grupo colocado com essa missão. Não observou que
havia potencioso social na área e que agravou o potencioso social
ao atuar de forma burocrática e meramente policial no tratamento
das questões dos assentados.
TEMPO E PRESENÇA: Como o senhor vê os jovens nesse processo? Qual
seria o principal papel deles? Como são aliciados para o plantio?
FERNANDO FERRO: Os agricultores em geral são chamados para o cultivo,
preparo e para tomar conta das roças de maconha. Posteriormente
vem o pessoal que faz a contagem disso. Para o processo de distribuição
é que há uma parcela da juventude, embora alguns se envolvam no
cultivo, com os pais ou com outras pessoas que são agricultores
e que sabem trabalhar a terra. Na distribuição é surgem os responsáveis
pelo tráfico e pelo deslocamento para outras áreas. Nesse curso
eles se envolvem com o próprio consumo.
TEMPO E PRESENÇA: Os jovens também fazem a segurança? Parece que
esse tipo de plantação precisa de segurança...
FERNANDO FERRO: Precisa de toda uma infra-estrutura. Plantar nos
lugares de difícil acesso. Ter o conhecimento da região. Há necessidade
de pessoas que conheçam a área, que é imensa. Além disso há os olheiros
que avisam, dão o alerta, conhecem quem circula na área. Participam
de todas as etapas. Vem depois aquela fronteira entre o produtor
e o comercializador; é a fase mais violenta. Nas cadeias da região
estão presos muitos trabalhadores; são eles, cultivadores e agricultores,
que são presos pela polícia nas roças. São trabalhadores que estão
cultivando maconha como quem cultiva outra cultura. Há muita vista
grossa sobre o plantio. Hoje temos agrovilas controladas pelo tráfico.
Lá moram pessoas responsáveis pela produção e comercialização e
que são filhos de reassentados. Alguns parentes desses reassentados
vieram também e criaram núcleos que são conhecidos pela própria
polícia como núcleos participantes dessas atividades. Uma parcela
da população foi envolvida em tudo isso. E há enraizamentos na região,
de vereadores, prefeitos, políticos, empresários, envolvidos com
essas atividades. Não é mais uma coisa isolada.
TEMPO E PRESENÇA: Há alguma preocupação das prefeituras locais,
de governo estadual, de fomentar políticas saltadas para os jovens,
na área de saúde, de alternativas de renda?...
FERNANDO FERRO: O que está acontecendo em algumas prefeituras, leva
a dois caminhos: ou os agentes políticos atuam para enfrentar essa
situação; ou acabam cooptados para conviver com o crime na região.
Há disputas políticas em algumas prefeituras que querem agir. Quando
criamos a primeira comissão para falar sobre o assunto, vimos vários
prefeitos interessados em debater o assunto e tivemos uma suscetibilidade
muito grande para debater o tema. Estranhei à época que certas lideranças
políticas não tocavam nesse assunto, como Inocêncio Oliveira, e
deputados que próximos a área também. Tenta-se omiti-lo, o que deixa
sérias dúvidas. Parece que há um interesse em manter essa situação,
essa violência e desordem asseguram a manutenção do “status quo”.
Se é tão ruim e tão violento e se mata tanta gente, por que não
se faz nada? Depois eu fui vendo que além da violência própria da
região, se pratica o silêncio, porque o crime organizado promove
alguma estabilidade econômica para a região.Isso inclui o financiamento
de campanhas e de outras coisas envolvidas que não se quer enfrentadar.
Nós alertamos que a região é uma região explosiva a médio prazo.
Não se compara a uma Colômbia, mas é uma situação de instabilidade
social muito grande, de violência que se consolida. Isso termina
por afetar totalmente as atividades da região, uma área de potencial
turístico. Coisa semelhante eu vi na Itália, em Palermo com a máfia.
Chegaram à conclusão de que combater o crime e restabelecer a ordem
era uma maneira de você ganhar dinheiro e tirar o poder da máfia,
o controle do lazer. Foi o quie fizeram. Reconhecem que investir
na educação, na informação, na ordem e na lei, é a maneira de investir
na população. É o que de fato está acontecendo na Itália hoje, na
região da Sicília.
TEMPO E PRESENÇA: De fato já começa a haver discussões?
FERNANDO FERRO: Em Salgueiro, estão tentando montar um consórcio
de prefeituras para discutir várias ações e acho que vão tratar
disso.
Como a questão da segurança deve partir do Estado e da Polícia Federal,
as prefeituras podem atuar no campo da educação e das questões sociais.
Aí eles podem desempenhar papel importante, associada a trabalhos
de ONGs, de KOINONIA, de Centro de Direitos Humanos, das pastorais
católicas, dos Sindicatos Rurais, do Pólo Sindical e da ação política
de alguns da região, e poderão ampliar esse debate.
Eu mesmo propus discussão sobre o tema. Achava estranha a falta
dessa discussão, mas como tinha vindo de sindicato rural e de entidades
de Direitos Humanos da região, resolvi puxar o debate para chamar
a atenção para o problema.
TEMPO E PRESENÇA: A própria postura do Governo Federal hoje tem
caminhado para dar outra solução ao problema, além da repressão?
FERNANDO FERRO: Já anunciou alguns programas de pequena repercussão
e de pequena incidência, na realidade. A gente está dizendo que
tem que ter política de crédito na região a fim de tentar livrar
uma parcela da população que hoje está vulnerável. O governo sabe
disso.
TEMPO E PRESENÇA: Como o senhor vê a questão da descriminalização
das drogas?
FERNANDO FERRO: Esse debate é inescotável. Não dá para ficar indiferente.
Não consigo entender que esses jovens dependentes sejam tratados
como se fossem traficantes. Há que estabelecer oportunidades de
recuperação de dependentes. Se nos centros urbanos não se consegue
trabalhar isso, é evidente que os centros produtores estão permanentemente
acesos. Existe um mercado e se não se atacarem as duas pontas do
problema, não tem jeito. Esse debate pode contribuir para esclarecer
o papel da droga na sociedade. Ouve-se falar em maconha, mas é apenas
um dos componentes. Há o crescimento de outras drogas. A maconha
poderá até ser colocada em segundo plano com o crescimento dessas
outras drogas, até sintéticas. A maconha não deixa de ser uma porta
de iniciação ao consumo de drogas.
TEMPO E PRESENÇA: Todo mundo sabe que a dependência de drogas é
de recuperação muito difícil. Há dados da OMS de que a eficiência
de alguns tratamentos chega a 30%. Só. Mesmo assim, em cidades como
no Rio de Janeiro, a droga faz muito mais vítimas, mesmo de morte,
na comercialização do que no consumo propriamente. As pessoas morrem
não pelo uso, mas pelo tráfico. Hoje o tráfico tem alto poderio
de armas nas mãos... A dependência de uma droga ilícita é extremamente
letal, mas a comercialização das drogas no Brasil, gera uma violência
muito forte. Essa violência não está muito presente lá nessa região,
muito mais pela comercialização, envolvimento com o processo produtivo,
do que propriamente com o uso.
FERNANDO FERRO: Lá existe a mística da violência. A população tem
receio. Os que produzem sabem os riscos do uso, da dependência e
por isso são mais precavidos. A violência realmente está vinculada
ao negócio. São interesses de poder político e econômico que envolvem
o negócio. A ilicitude da prática também cria suas regras próprias
de funcionamento.
TEMPO E PRESENÇA: Ainda com relação aos produtores, existe algum
conflito entre os produtores tradicionais e os que entraram no plantio
da maconha? Como é, há o isolamento deles?
FERNANDO FERRO: Isso é feito em lugares afastados e existe toda
uma distância. Há mesmo pessoas que sabem, há uma convivência, mas
há um pacto de silêncio. Quem sabe, se cala. Existe uma fronteira
aí. Em geral há o medo. Até falar o nome maconha para eles, há um
receio de falar. Falam “erva”, “essas coisas”, colocam outros nomes.
Eles sabem o perigo que está associado a isso.
Entrevista anterior
Dom Adriano Vasino, Bispo de Floresta/PE
|