Boletim da Rede de Pesquisadores sobre Narconegócio e Campesinato
Produzido pelo Projeto Cultura e Desenvolvimento -- KOINONIA
Número 1

 



Entrevista com Dom Adriano Vasino, Bispo de Floresta/PE
por Paulo Cesar Pontes Fraga


Bispo de uma diocese que vive as próprias preocupações em meio a miséria econômica, social e também moral. Este bate-papo está cheio de cuidados de um cura d’almas que precisa amar vitímas, os explorados, os excluídos e ainda os que se alimentam e fortalecem nos descaminhos ilícito. Ele, o bispo, tem por dever amá-los porque uns e outros estão entre o fogo cruzado do traficante, do aliciado, do repressor, de ‘trabalhadores’, de ‘políticas’, de ‘policiais’. É palavra de denúncia, de compaixão, de sonho.



TEMPO E PRESENÇA: Na Região de Floresta, qual foi o impacto da Operação Mandacaru? Chegou a reduzir a violência?
D. ADRIANO VASINO: A Operação Mandacaru, pareceu-nos centrada em Floresta, mas descobrimos que o ponto central mesmo era o município de Salgueiro e arredores. A Operação, aqui foi apenas de raspão, menos que noutros municípios mais próximos a Salgueiro. Houve por aqui certa diminuição da violência, a prisão de muitas pessoas, mas pelo que se constatou, a grande maioria – não a totalidade – são o que chamamos de “peixes pequenos”. A cadeia daqui, construída para 35 presos, chegou a receber 104 de uma vez só na época da Operação. Desses a grande maioria ligada ao narcotráfico, mas nenhum deles de porte mesmo. Eram plantadores de maconha, pequenos distribuidores. É importante a diminuição da criminalidade. A diminuição dos assaltos aconteceu foi mesmo com o acordo de paz entre os Benvindos e os Gonçalves, em outubro do ano passado. Houve uma estancada grande na violência, especialmente nas regiões Cabrobó, Belém, e outras e diminuiu praticamente o número dos assaltos. Acontecem ainda hoje, mas não são mais tão numerosos quanto antes.

TEMPO E PRESENÇA: Na sua perspectiva, como são aliciados os plantadores ou como eram aliciados?
D. ADRIANO: O sertão do Baixo Pajeú é o pior sertão de Pernambuco. Pior no sentido de que não tem terra para a cultivar, só tem os rios Pajeú e Riacho do Navio, mas que também são temporários e a caatinga aqui é bem mais rasteira do que a do Alto do Pajeú, Arari. Nesta região inóspita, com a crise na agricultura, descobrimos uma situação de pobreza e de desespero, em que é fácil encontrar mão-de-obra. O motivo é a crise do sistema de sobrevivência que o povo tinha. Outro motivo é que a juventude, graças também à baixa escolaridade e aos meios de comunicação – televisão principalmente – desperta para um mundo que não é o deles. Esses jovens se encontrando, conversando, acabam percebendo claramente que são excluídos do mundo que lhes é proposto. Muitos dizem: “Se o mundo é isso, a vida é essa, eu quero tê-la ou por bem ou por mal”. Aqui, de fato, eles estão excluídos de qualquer perspectiva de futuro. Entram no narcotráfico, mesmo com uma vida arriscada, e acabam tendo dinheiro à vontade, para experimentar gozar, do ponto de vista consumista, daquilo que é a vida que a mídia propõe.

TEMPO E PRESENÇA: Os agricultores, geralmente são cooptados no sentido de trabalharem como assalariados ou ficarem na sua própria terra... Como é aqui em Floresta?
D. ADRIANO: Tem várias formas... Às vezes as famílias são quase que coagidas. Os que estão envolvidos dizem: “Nós vamos plantar na sua terra”. As pessoas, ou se calam e aceitam para evitar por retaliações, arriscam-se a ser presos ou se expõem às retaliações dos traficantes, ou abandonam a terra Às vezes é como uma imposição. Outras vezes são os que se dispõem a aceitar para tentar melhorar um pouco o ganho. Muitas vezes são procuradas terras que são as mais ‘frias’ possíveis, não têm um dono definido, podem pertencer ao governo e não têm documentação.

TEMPO E PRESENÇA: Então, são várias as formas de acordo com maior ou menor resistência.
D. ADRIANO: Em muitos casos são oferecidas ao plantador sementes e uma soma em dinheiro para tratarem a roça. Se estabelecem laços que depois são difíceis de desfazer. É a sensação do dinheiro fácil.

TEMPO E PRESENÇA: Na sua opinião, quais são os principais agentes dessa rede que se forma?
D. ADRIANO: O ponto de partida é com certeza o fato de que há consumidores. Se não houvesse uma busca tão grande pelo alucinógeno... Por ser um mercado em expansão e expansão, dada a crise de perspectiva de valores, as pessoas ficam fragilizadas e, principalmente os jovens, buscam não somente o álcool como um caminho de fuga, mas também a droga. Claro está que temos aí toda uma faixa de pessoas inescrupulosas, com certeza têm até muitos recursos e uma certa influência do ponto de vista econômico como político o que lhes permite organizar, manter e acobertar toda uma rede que possibilita o plantio. Nesta faixa estão, com certeza, os chefões, depois os responsáveis por áreas menores. Há todo um contraste entre grupos rivais que chegam até aos ajustes de contas. Temos ainda os pequenos, que, na grande maioria, são agricultores pobres e jovens, excluídos da sociedade e se deixam envolver. Esses talvez sejam o elo menos culpado. São mais vítimas do que culpados.

TEMPO E PRESENÇA: O senhor acha que existe uma diferenciação, nos municípios nessa rede – um é mais de distribuição outro é mais de plantio?
D. ADRIANO: Fica difícil dizer, mas tradicionalmente os municípios de Belém, Cabrobó, Floresta, Carnaubeira, são mais municípios de plantio. Salgueiro, Petrolina e Petrolândia eram mais centros de distribuição. Eram. Dizer que isso se conserva mesmo, não garanto.

TEMPO E PRESENÇA: O movimento dos jovens também se dá desta forma: alguns estão no plantio, outros na distribuição? Ou existe alguma atividade em que o jovem é mais presente?
D. ADRIANO: Não sei dizer. De fato a grande maioria dos que estão presos, são jovens. Também, a grande maioria dos que se envolvem em atos de crime, são jovens. Por isso é difícil dizer. Quem aparece mais, com certeza é a juventude. São a “bucha de canhão”. Os que têm mais idade, têm mais experiência e em vez de se exporem, sabem como não se expor, colocam outras pessoas para fazer o trabalho mais arriscado. Os jovens, por falta de experiência e pela “imprudência” da juventude, acabam sendo usados.

TEMPO E PRESENÇA: Como é que os funcionários, das áreas de saúde, educação, de segurança pública trabalham a questão com os jovens? Existe um trabalho preventivo?
D. ADRIANO: Depende muito de época, dos comandantes, do lugar onde atuam. Há muitas variantes. O que se percebe é que eles atuam mais na “prendeção” do que na prevenção. A tarefa da polícia deveria ser esta também. A prevenção serve na medida em que há uma presença ostensiva de policiais fazendo revista e ronda, isso serve também como prevenção, mas quanto ao trabalho de educação, houve e há algumas pessoas da polícia civil e também da polícia militar que se preocupam com isso. Eles porém, não têm nem tempo, nem força, nem recursos humanos para tanto. No entanto há sempre alguma pessoa de boa vontade que se dispõe a trabalhar nesse sentido. Quanto à ação oficial, depende muito dos lugares e de quem comanda no momento a área em que a população é potencialmente considerada toda como envolvida na maconha. Muitas vezes agem com brutalidade. Nós temos notícia de intervenções da brutalidade policial. Algumas não foram ainda comprovadas. Tem áreas em que o pessoal tem medo, desconfia da polícia tanto quanto dos maconheiros. Infelizmente. São as áreas consideradas de maior presença do tráfico, em que não se pode tratar todo mundo como maconheiro. Muitos não falam para preservar a própria segurança antes que por má vontade ou porque têm lucro no negócio. Não tendo um amparo suficiente, a maioria das pessoas prefere calar-se e não se expor. Isso depende muito dos comandantes também. Há comandantes que são mais humanos e podem ter atitudes mais respeitosas. Entra aí o problema da formação e da remuneração da polícia. O policial vem para esta área é considerada de risco, percebendo um salário é um tanto baixo, sem o instrumental necessário, faz o quê? Vai recorrer a métodos mais “eficazes” ou mais rápidos para... Disso resulta mais ódio e mais revolta.

TEMPO E PRESENÇA: E a Igreja? Qual tem sido o papel da Igreja?
D. ADRIANO: O papel da Igreja tentar formar o jovem dentro da filosofia de vida cristã, que prevê o respeito à vida. Não pode apoiar qualquer coisa que atente contra o desenvolvimento e o crescimento da vida. E a droga é um atentado à vida. Na catequese mesmo há esse esforço. Há também um trabalho, principalmente aqui em Floresta (pretendemos espalhá-lo pela Diocese), envolvendo as escolas públicas, de educação para a paz tentando trabalhar o tema da violência, sob todas as formas. A droga entra como um tema transversal, conforme a reforma que houve na escola brasileira. É interessante, pois está produzindo alguma perspectiva, de uma esperança. No momento, com a campanha da fraternidade, muitas escolas têm recebido um apelo específico para trabalhar o assunto da droga, tentar esclarecer os efeitos, por que acontece e alertar os jovens. Não terminou com o fim da campanha, mas continua. Outra tentativa é apoiar tudo o que vem a calhar para o desenvolvimento da região que esteja sustentado, respeitando os moradores e suas necessidades. Tentamos apoiar, incentivar e ajudar um crescimento da região que seja sadio.

TEMPO E PRESENÇA: Existiu nesse período conflito entre os que plantavam e os que não plantavam?
D. ADRIANO: Eu não tenho notícia de conflitos abertos entre plantadores e não plantadores. É claro que atritos existem até nas famílias. Um filho entra na plantação da maconha e os pais se manifestam, ou conflitos de terras de famílias, isso houve e muito. Mas um conflito aberto, o posicionamento de um grupo social aberto contra ou de rejeição, não tenho informação. Agora, conflitos na base da família houve muitos.

TEMPO E PRESENÇA: Esses conflitos seriam entre jovens envolvidos e os pais que contrários? De um modo geral o plantador, os agricultores é rejeitam esse tipo de negócio.
D. ADRIANO: Sim. A grande maioria não adere, porém se cala. Mesmo sabendo, não querem ter nada a ver com o negócio, mas se sabem de alguma coisa, se calam.

TEMPO E PRESENÇA: É a “lei do silêncio”...
D. ADRIANO: É a “lei da sobrevivência”. Não tem nenhuma garantia de escapar com vida uma pessoa que se dispõe a denunciar nomes e lugares. Nosso sistema de segurança não dá essas condições.

TEMPO E PRESENÇA: E no comércio, o senhor percebe que houve um impacto negativo?
D. ADRIANO: Floresta já tem um comércio tão minguado que é difícil perceber impactos. Já houve uma retração do comércio aqui anos atrás, com a concentração na mão de poucas pessoas. Eu diria que, infelizmente, a cidade de Floresta perdeu quase que por completo a possibilidade de ser um centro aglutinador. Toda a nossa região tem essa característica curiosa, mas que cria muita dificuldade para o trabalho pastoral, pois o centro da diocese que é aqui, não é o centro de referência para os municípios. A própria Floresta que é ponto de referência para quase tudo, tem municípios que estão fora dos confins da diocese. Só para saber: Jatobá e Petrolândia são áreas sul e o ponto referência delas é Paulo Afonso, que está mais perto; Cabrobó e Belém têm Salgueiro que para Cabrobó mais perto do que Alta Floresta; Orocó, Petrolina e Carnaubeira da Penha, um município no interior, e Floresta referenciam-se a Serra Talhada; Custódia e Betânia (de Serra Talhada), Arcoverde e Ibimirim, Manari e Irajá têm ponto de referência com Arcoverde. A cidade de Floresta não agrega nada, é tudo para fora. E todas essas cidades como Arcoverde, Serra, Salgueiro e Paulo Afonso, estão fora dos limites da diocese. Acho que o que tinha que encolher já encolheu. O comércio daqui não tem mais uma expressão regional. Muitas vezes a referência é Salgueiro, Cabrobó por causa da cebola e dos projetos de irrigação de Pedra Branca. Com certeza Belém e Cabrobó estão conhecendo uma retração visível no comércio.

TEMPO E PRESENÇA: E o papel da Prefeitura, os programas para jovens, não só na área do Polígono, mas em outras também; o poder público em geral...
D. ADRIANO: O poder público aqui se vê às voltas com a gestão de um território amplo, questão agravada ainda mais pelos problemas da seca e a distribuição de água. A rede escolar, apenas na área rural, tem 74 grupos escolares, só no município de Floresta. Tem ainda os problemas de uma população, na sua maioria pobre ou miserável, que vive tentando qualquer recurso. Pensar que uma prefeitura acossada desse jeito possa ter planos, só se houver uma mudança radical, não da gestão, mas também da mentalidade do povo, que fosse mais participativo e que tivesse mais condições também de participar, planejar e executar. É um conjunto de coisas que não ajuda a prefeitura e as prefeituras a desenvolverem o seu papel. Algumas fazem o que podem, se esforçam; outras, infelizmente continuam com uma estrutura bastante tradicional, de um poder controlado por poucos na tentativa de tirar o máximo proveito de alguns municípios. Não percebo, planos bem claros e definidos de ação. O único município que teve uma atividade nesse sentido, o que chegou ao meu conhecimento, foi Cabrobó, que realizou um Fórum contra a Violência promovido pela prefeitura. Os jovens participaram de uma forma efetiva e a prefeitura está envolvida nesse projeto de Cultura de Paz, aqui; apóia e ajuda.

TEMPO E PRESENÇA: Então há algumas iniciativas de fato no sentido de promover atividades ou participar delas. A gente observa que geralmente a violência se surge onde já existem outras violências e desigualdades. No caso desta região, sabe-se que há toda uma violência antiga, de brigas de famílias, dos coronéis e da própria vida do povo. O poder público sempre foi descuidado no tratamento das questão da seca e da sobrevivência dos agricultores. O senhor acha que esse quadro tem sido fundamental para disseminar mais violência?
D. ADRIANO: Com certeza. Por isso encaminhamos um projeto de educação para a Cultura de Paz. Trata-se de mudar mesmo a postura intelectual, emocional das pessoas. Há em nossa região uma cultura da violência e, como você assinalou, a região (norte da Bahia e a região de Pernambuco) já foi palco no fim do século passado, da presença de coronéis. Depois, essa região de sertão mais pobre e menos habitada também, foi o lugar mais fácil para os fora-da-lei se esconderem. A falta de uma lei que de fato punisse os desmandos, os crimes, em vista da presença muito pequena de homens da lei; uma independência das elites locais que usavam as forças da polícia de forma incorreta; fizeram com que surgisse aqui o “cangaceirismo”. Lampião é daqui de Floresta. O que se conta é que Lampião entrou no cangaço porque a família dele sofreu uma injustiça que não foi reparada pela lei. Vendo-se injustiçado foi buscar outra maneira de fazer justiça. Desse fato da ausência de uma organização legal, de uma sociedade dentro da lei, que respeitasse os direitos das pessoas, nasce a tentativa de buscar resolver as pendências com as próprias mãos. Isso não é de agora. Havendo tal predisposição, toda essa história, claro é mais fácil que as pessoas vão reproduzindo desse jeito, de não levar desaforo para casa. Quando alguém se sente agredido ou diminuído na sua honra, pensa logo no revide violento. Faz parte mesmo dessa cultura. Há lugares que são paupérrimos, mas não são violentos. Aqui há a pobreza e, ao mesmo tempo, toda essa violência.