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CADERNO DE CAMPO –Debate sobre museu e Escravidão na Baixada Fluminense


Daniela Yabeta
 
11/04/2017

Entre os dias 07 e 08 de abril aconteceu no município de Duque de Caxias (RJ) a I Jornada de Museologia Social do Rio de Janeiro: Questões Contemporâneas, com a temática “Museu e Escravidão: Patrimônio, Memória e Museologia Social”.

No dia 07 a Jornada ocorreu na Câmara Municipal, com a conferência de abertura, “Malungo, Macota, Cabula, Ubanda: solidariedade centro-africanas contra a escravidão”, proferida pelo professor Robert Slenes (UNICAMP). No dia seguinte o evento ocorreu na sede do Museu Vivo do São Bento e contou com a participação de Nielson Bezerra (MVSB/FEBF – UERJ/FABEL), Cristina Lodi (Coordenadora do desenvolvimento do Museu da Escravidão e da Liberdade), Humberto Adami (Comissão da Verdade da Escravidão/OAB), Mário Chagas (UNIRIO – Rede de Museologia Social – RJ), Mariza de Carvalho (UFF- Museu Nacional), Luciana Barreto (TV Brasil/EBC), Cláudio Honorato (IPN), Hebe Mattos (UFF), Clarissa Lima (Comissão da Verdade da Escravidão/ RJ) e Elisa Larkin(Ipeafro). 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para quem não conhece, o Museu Vivo do São Bento é um Ecomuseu de Percurso que foi criado através da Lei nº 2224 de 2008 a partir das reivindicações dos profissionais da Educação e dos militantes culturais de Duque de Caxias. Entre as localidades visitadas nos percursos sugeridos, destacamos a Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens de Cor (século XVII), Esporte Clube São Bento (1948) e o Sítio Arqueológico Sambaqui do São Bento.

Infelizmente não pude assistir a conferência de abertura, mas no dia 08 eu estive por lá e posso garantir que o encontro foi ótimo! Sendo assim, apresentarei um pequeno relato do que pude assistir.

Sobre a Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, criada em 2014 pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Humberto Adami destacou que um dos objetivos principais da iniciativa é fomentar ainda mais o debate sobre reparação. Nesse sentido, o diálogo com a História torna-se imprescindível, pois a temática da escravidão é um campo de pesquisa muito rico no nosso país que conta com uma vasta bibliografia e uma grande quantidade de “pistas e provas”. O grande desafio seria tornar essa produção acessível ao grande público – uma questão que já é discutida no campo da História há bastante tempo! Adami também falou da importância da constituição de comissões estaduais e contou que foi graças a essa experiência que tomou conhecimento do Quilombo do Campo Grande em Minas Gerais, através do trabalho de Tarcísio José Martins. Além das comissões estaduais e municipais, Adami informou que estão previstas a implementação de comissões nos bairros de Madureira, Méier e Campo Grande, o que achei genial!

Mário Chagas (UNIRIO) falou sobre a importância do reconhecimento do debate Museu/Escravidão. Destacou que o trabalho dentro do museu, além do potencial poético, conta também com um forte potencial político. E por conta disso, é preciso criar mecanismos para nos libertarmos das amarras e produzirmos novos agenciamentos e novas possibilidades de pensamento dentro desses espaços. Sobre a realização da Jornada em Duque de Caxias, município que faz parte da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, Chagas lembrou do trabalho de Flávio Gomes (UFRJ – A Hidra e os Pântanos: quilombos e mocambos no Brasil: século XVII-XIX) sobre a constituição de quilombos na região, a chamada Hidra. Na mitologia grega, a Hidra de Lerna era um monstro que habitava o pântano, tinha corpo de dragão e 3 cabeças de serpente, quando uma delas era cortada, cresciam duas no lugar. Assim era a constituição de quilombos na região, quanto mais tentavam conter, mais apareciam.

A professora Mariza Soares (UFF-Museu Nacional) falou sobre sua experiência na organização da exposição “Kumbukumbu: África Memória e Patrimônio na Baixada Fluminense” e destacou que não é possível pensar na história da escravidão do Rio de Janeiro sem pensar no Recôncavo da Guanabara. Para quem quiser saber mais informações sobre a exposição, a professora indicou que o livro “Conhecendo a exposição Kumbukumbu do Museu Nacional” já está disponível online.

Hebe Mattos trouxe mais uma vez a experiência do projeto “Passados Presentes: Memória da Escravidão no Brasil” do qual eu tenho o privilégio de participar. Trata-se de um projeto de Turismo de Memória que resgata a História do tráfico de africanos para o Rio de Janeiro. Ao baixar o aplicativo “Passados Presentes”, é possível encontrar quatro roteiros que conduzem a locais relacionados ao tráfico negreiro e a história da escravidão no Brasil, são eles: 1) o centro do Rio de Janeiro; 2) a cidade de Pinheiral (sede do Jongo de Pinheiral); 3) o quilombo de São José da Serra (Valença); 4) o quilombo do Bracuí (Angra dos Reis). No centro do Rio de Janeiro, o circuito parte do Cais do Valongo e nos conduz a pontos de memória do tráfico negreiro, arte e religiosidade afrodescendente. Já na cidade de Pinheiral e nos territórios quilombolas de São José e Bracuí, além do circuito, contamos também com uma exposição permanente sobre a história de cada comunidade. O projeto é uma iniciativa do LABHOI – Laboratório de História Oral e Imagem (UFF) e do Núcleo de Memória e Documentação (UNIRIO). Em 2012 o projeto foi apresentado pelo Centro de Referência de Estudos Afro-Brasileiros do Sul Fluminense e a JLM Produções Artísticas ao Edital Petrobrás Cultural de Patrimônio Imaterial. Para o desenvolvimento da pesquisa e das plataformas digitais, o projeto também contou com o apoio dos Editais FAPERJ/COLUMBIA GLOBAL CENTER e do Programa da FAPERJ de “Apoio à Difusão e Popularização da Ciência e Tecnologia no Estado do Rio de Janeiro 2014”. 

FOTO: Daniela Yabeta

No geral, duas questões foram recorrentes no encontro, a primeira delas diz respeito à constituição do Museu da Escravidão e da Liberdade (MEL) – Seria esse o nome mais apropriado? Como será constituído? A segunda questão diz respeito à atuação da Prefeitura do Rio de Janeiro com relação à crise enfrentada pelo Instituto dos Pretos Novos (IPN), maior cemitério de africanos escravizados da América Latina. De acordo com Cristina Lodi, coordenadora do futuro museu, em março desse ano foi constituído um Grupo de Trabalho destinado a elaborar um Plano de Ação para a criação do museu. Sobre o nome, trata-se de algo provisório e sujeito a mudanças. Todo conteúdo será discutido, principalmente no que se refere à dor de tratar sobre esse tema. Com relação ao IPN, ela informou que serão repassados 116 mil reais para o funcionamento de 2017.

Apesar de todo o sucesso que foi o evento, senti falta da participação de dois grupos: representantes das comunidades de terreiros, já que a região abriga um grande número de casas de candomblé e de terreiros de umbanda, e dos quilombolas de Maria Conga, única comunidade remanescente de quilombo certificada na região da “Hidra” da Baixada Fluminense. Esses dois grupos também estão ligados à herança da escravidão e discutem a constituição de memoriais em seus territórios. Como exemplo, temos o Memorial Iyá Davina no Ilê Axé Omolu Oxum - que “abriga acervo material referente à religião dos orixás e a formação das primeiras comunidades de candomblé no Rio de Janeiro” - e o Memorial Cristóvão dos Anjos construído no Asé Pantanal.

Fica aqui a dica para o próximo encontro. Gostaria muito de ouvir essas experiências nas mesas de debate. 

 

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