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_Monitoramento_ _Contextos
Locais
Comunidade
da Ilha da Marambaia (RJ)
Dos Senhores
da Terra aos Senhores da Guerra
Por José Maurício
Arruti
A Ilha da Marambaia fica localizada
no litoral de Mangaratiba (RJ), em uma área considerada
de segurança nacional e controlada por militares.
Só se chega a ela por meio de barco da Marinha,
com autorização prévia. No porto
de desembarque situado na "praia do Cadim"
(Centro de Adestramento da Marinha) estão localizadas
as casas de alvenaria, nas quais, desde 1971, residem
os militares. A leste, em direção à
restinga, e a oeste, em direção à
ponta da Marambaia, situam-se as antigas casas de alvenaria
e estuque que abrigam uma população de
cerca de noventa famílias descendentes, direta
ou indiretamente (por meio dos casamentos), de escravos.
Era na Ilha da Marambaia que o "Breves" -
maior senhor do café e do tráfico de escravos
no Rio de Janeiro do século XIX - mantinha seus
escravos para "engorda" antes de serem vendidos
para outras fazendas.
Os atuais moradores contam que,
pouco antes de morrer, o "Breves" teria deixado
toda ilha para os ex-escravos que ainda permaneciam
nela. A cada família ele teria atribuído
uma praia, mas essa doação foi "só
de boca", como contam, e a família Breves
não cumpriu o compromisso assumido pelo antigo
proprietário. Apesar disso, as famílias
negras permaneceram ali em posse pacífica até
1939. Nesse ano, a Escola de Pesca Darci Vargas instalou-se
na ilha, inaugurando um período de grande prosperidade:
"aqui no tempo da Escola tinha de tudo, tinha fábrica
de gelo, fábrica para sardinha, a gente tinha
escola que profissionalizava a gente", conta um
senhor de 80 anos.
A
comunidade viveu, porém, uma grande mudança
a partir de 1971, quando, depois de fechada a escola,
a ilha é entregue ao Ministério da Marinha.
A partir de então, os moradores da Marambaia
começam a viver sob o impacto de uma nova dinâmica
social, repleta de restrições que os proíbem
de manter roças, construir casas para os filhos
recém-casados ou mesmo reformar ou ampliar as
já existentes. Isso em um contexto em que a grande
maioria das casas é feita de pau-a-pique, material
que precisa ser constantemente reformado ou reconstruído.
Finalmente, a partir de 1998, a Marinha iniciou diversas
ações judiciais de Reintegração
de Posse, alegando que os pescadores são invasores
de suas terras. Sem apoio jurídico e na sua maior
parte não-alfabetizados, aqueles que iam sendo
condenados nesses processos eram progressivamente expulsos.
Essa foi uma estratégia criada pelo Cadim para
que o seu objetivo fosse alcançado sem os custos
judiciais e políticos de ter que expulsar toda
a comunidade de uma só vez.
Desrespeito
do direito à Moradia
A população total da Marambaia é
de aproximadamente 340 pessoas, predominantemente jovens.
Mais da metade de seus habitantes conta com até
34 anos, sendo que a maior concentração
se dá na faixa dos 5 aos 14. Não há
diferenças significativas entre os sexos segundo
as faixas de idade.
Essas 340 pessoas distribuem-se
por 79 casas, apontando uma média de pouco mais
de quatro (4,3) pessoas por casa, número bastante
elevado se considerarmos a média do número
de moradores por domicílio para o Município
do Rio de Janeiro é de 1,95. Esse alto índice
deve-se ao fato de ser muito comum que em uma mesma
casa coabitem mais de uma família. Pouco menos
de um quarto das casas pesquisadas (14 sobre o total
de 62) abrigam mais de uma família: dez delas
abrigam duas (2) famílias, duas abrigam três
(3) famílias e outras duas abrigam quatro (4)
famílias. Assim, se o universo total da pesquisa
consiste cerca de 80 casas, isso corresponde a aproximadamente
100 famílias.
Isso decorre das proibições
da Marinha, que impedem os jovens casais construírem
casas para suas novas famílias e obriga os mais
velhos (cujas casas tornam-se inabitáveis por
falta de reformas) ao constrangimento de morarem com
parentes próximos. Das 83 famílias entrevistadas
em nossa pesquisa, 70 haviam pedido autorização
à administração militar da Ilha
para fazer reformas em suas casas, 67 para realizarem
ampliações das suas casas e 68 para construírem
novas casas. As mesmas famílias fizeram diferentes
tipos de pedidos, sucessivamente negados, em busca de
alternativas para seu problema de moradia, raramente
com sucesso.
Escassez
de recursos
Em função destas proibições
os moradores foram impedidos também a partir
dos anos 70 a continuarem suas roças de subsistência.
Mesmo aqueles que insistem nelas, não sabem se
colherão o que plantaram, já que os militares
lhes expropriam os frutos, seja nos momentos de lazer
(como se toda a ilha fosse o seu quintal), seja durantes
seus treinos de guerra, quando então os pelotões
atravessam as roças e os quintais das casas,
destruindo tudo.
Assim, hoje os moradores dedicam-se
predominantemente à pesca, estando submetidos
ao contexto de escassez da baía de Sepetiba.
São dois os fatores apontados pelos pescadores
para essa escassez: a introdução da pesca
industrial e predatória na baia de Sepetiba e
as novas regras estabelecidas pela legislação
de proteção dos recursos naturais (o defeso).
Com relação ao
defeso, os ilhéus apontam dois erros de implantação.
De um lado, o "defeso" estabeleceu uma regra
baseada apenas na dimensão temporal, desconhecendo
aspectos espaciais e, portanto, muito particulares a
cada território de pesca. Revela-se aí
uma das dimensões de seu conhecimento tradicional,
desenvolvido por longos períodos sobre um mesmo
espaço, no qual tal população estabeleceu
suas próprias formas de conservação
dos habitats e de seus recursos. Uma dessas formas era
a restrição de pesca em certos trechos
da baía, considerados importantes para o amadurecimento
do camarão ou para o seu trânsito, que
agora estão liberados para a pesca fora do período
do defeso.
De outro lado, o calendário
estabelecido para o defeso incide justamente no período
em que o camarão encontra-se, na baia de Sepetiba,
em tamanho ideal para a pesca. A sua técnica
tradicional, realizada por meio da "rede de espera",
de trançado bastante largo, selecionava apenas
os camarões em torno dos 10 centímetros.
Hoje o defeso obriga a pescarem o camarão em
um estágio muito prematuro, exigindo a adoção
de redes de malha estreita e técnicas de abordagem
mais agressivas, às quais eles não se
adaptam tão bem quanto os pescadores do continente,
dotados de maior capital.
Finalmente há a poluição
e degradação da baía, decorrentes
da instalação do porto de Sepetiba, do
despejo de esgoto in natura, do despejo de lixo químico
e das grandes obras voltadas para o turismo. A esses
fatores somam-se os treinos de guerra no interior mesmo
da baia da Marambaia, espécie de berçário
dos peixes e camarões, durante os quais os militares
explodem bombas submarinas.
Limitação
de acesso aos serviços públicos
Na Marambaia os serviços básicos como
saúde e educação ficam localizados
na praia do CADIM, servindo prioritariamente aos funcionários
da Marinha. A escola, administrada pela prefeitura de
Mangaratiba, vai apenas até a 4.ª série
e vive sob constantes dificuldades devido ao transporte
dos professores [ver Reportagem especial].
Em relação à
assistência médica há apenas um
posto de saúde. Em situações emergenciais
é preciso ir até a cidade mais próxima,
por vezes nas canoas dos pescadores, devido à
falta de transporte civil na Ilha, em uma viagem precária,
que pode chegar a durar três horas.
O único lugar onde há luz elétrica
é na praia do CADIM. No restante da Ilha os moradores
usam lampião para a iluminação
e bateria para ligar suas televisões, rádios
e outros eletrodomésticos. A iniciativa da prefeitura
passada para a instalação de placas para
a energia solar (como há na Ilha vizinha) não
foi autorizada pelos militares. Com a luz elétrica
os peixes poderiam ser armazenados por mais dias em
um freezer ou geladeira, o que facilitaria e valorizaria
a sua comercialização.
A água das casas dos pescadores
provém das nascentes dos morros. As casas dos
pescadores não possuem sistema de tratamento
de esgoto, nem de lixo. Os telefones públicos
ficam todos na praia do CADIM, da mesma forma que os
serviços de correio são intermediados
pelos militares, com grande índice de extravio
de correspondência, principalmente depois do início
da mobilização política dos moradores.
A
grande queixa recorrente dos moradores com relação
aos serviços públicos é a de não
saber a quem recorrer para solicitá-los. A administração
militar se sobrepõe, de fato, à administração
municipal e isso inspira dúvidas e insegurança
com relação aos seus direitos civis e
ao o que podem exigir do governo municipal eleito.
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