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_Monitoramento_ _Contextos
Locais
Comunidade
do Retiro (ES)
Território,
Conflitos e Expropriações
Por Osvaldo Martins de
Oliveira
O lugar conhecido como Retiro, ocupado por "descendentes
de africanos", se localiza no município
de Santa Leopoldina, na região central do Estado
do Espírito Santo. Mangaraí, distrito
do qual Retiro faz parte, é uma referência
para se chegar a esse lugar e adquire um forte significado
na vida dos moradores, pois, além de nomear o
rio que corta a sua área ao meio, também
é o nome de uma localidade situada acima e da
vila que está abaixo (a Barra do Mangaraí).
Daí a comunidade ser conhecida também
como Retiro do Mangaraí.
O nome Retiro, segundo as interpretações
de uma das moradoras, teria surgido devido ao fato de
ser um lugar usado no passado para a "retirada"
dos ex-escravizados, onde estes teriam formado um quilombo.
Seus moradores, na atualidade, vivem sobre uma área
de terra de 160 hectares, sendo que cerca de 50% dela
está coberta por mata, conforme as estimativas
que fazem. A área - "o Retiro" - foi
adquirida em 1912 por um ex-escravizado chamado Benvindo
Pereira dos Anjos, que ali deixou seus descendentes
e herdeiros que se denominam "Os Benvindos".
Entretanto, segundo relatos dos próprios moradores
e a documentação cartorial, seus diversos
ancestrais ocupavam áreas de terras em "morros",
situados em torno de Retiro e conhecidos como Conceição,
Pelado, Pau Gigante e Morro da Pimenta. Benvindo, por
exemplo, lavrou em 1892 um documento em Cartório
referente a uma área que adquiriu no lugar denominado
Conceição. Na visita que fiz ao local,
pude verificar que a área se caracteriza por
um relevo bastante íngreme e que ali, segundo
dizem, é o Morro do Pelado. Tanto a primeira
área adquirida por Benvindo como as demais ocupadas
pelos outros ancestrais, conforme foi relatado, foram
violentamente expropriadas por fazendeiros da região,
sendo mais conhecidas as atrocidades cometidas por um
deles, farmacêutico e comerciante na cidade de
Santa Leopoldina, que contava com o auxílio da
polícia.
egundo
afirmam os moradores, ele estimulava o endividamento
dos quilombolas para depois justificar a expropriação.
Assim, os moradores de Retiro foram expropriados das
seguintes áreas: a de João de Deus Ferreira
e de sua esposa Carolina, mortos envenenados pelo referido
fazendeiro, que ficou com a área deles para pagar
dois frascos de veneno que lhes vendeu como se fossem
medicamentos; a de Aristeu João do Sacramento,
que teve que entregá-la em troca de dívidas
no comércio do mesmo fazendeiro; e a área
adquirida em 1892 pelo próprio Benvindo, que
em 1974 foi expropriada sob a violência da polícia
por causa de uma dívida que Jorge Benvindo (filho
caçula de Benvindo) teria na farmácia
do referido fazendeiro.
Os herdeiros de Benvindo relatam que seu ancestral,
um "africano angola", se casou, quando ainda
estava escravizado, com Maria das Neves, uma outra "angola",
que era de "pessoal livre" e que vivia no
Morro do Pelado. Esse casal teve seis filhos. Conforme
verifiquei nos registros cartoriais, o primeiro nasceu
em 1875 e o caçula em 1905. Dizem que os quilombolas,
entre eles Maria das Neves, "viviam fazendo todo
tipo de tecidos" artesanais de cipó, de
cana brava, de taquara e de palhas de bananeira, com
os quais "teciam" suas próprias vestimentas,
cestos, tipiti para fabricação da farinha,
peneira, armadilhas para pesca, etc. Com esse trabalho,
Maria das Neves teria reunido dinheiro para que adquirissem
a primeira área de terra, em 1892. Os filhos
dessa união estabeleceram relações
conjugais com membros de outros agrupamentos negros
que ocupavam áreas de terras nos morros já
referidos, como com os filhos e filhas de João
de Deus Ferreira, de Aristeu João do Sacramento,
de Raimundo de Brito e de um outro agrupamento que empregava
o sobrenome França.
Os
"herdeiros do Benvindo" relatam que na área
adquirida em 1912, que é onde vivem atualmente,
enfrentaram por seis vezes conflitos com "fazendeiros
confrontantes". Entre 1960 e 1987, estes ameaçaram
e realizaram investidas contra a comunidade, conseguindo
tomar faixas no lado sul e leste de suas terras. Segundo
os moradores, até 1984, ainda no decorrer desses
conflitos, os fazendeiros duvidavam que eles pudessem
comprovar a propriedade da terra, visto que seu documento
de compra e venda não era registrado, mas apenas
lavrado em cartório. A partir daí, sob
a assessoria do então advogado do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Santa Leopoldina e atual Defensor
Público Estadual do mesmo município, os
"herdeiros" providenciaram o registro da escritura
da terra em 1985 e passaram a se mobilizar para a criação
da "Associação dos Herdeiros do Benvindo
Pereira dos Anjos", o que veio a ocorrer em 1991.
A administração dessa Associação,
segundo o seu estatuto e conforme observei em campo,
é feita por uma diretoria eleita a cada dois
anos pelo voto dos herdeiros.
Retiro
é um espaço ocupado por 70 famílias
conjugais de herdeiros e configurado pelas relações
sociais de parentesco entre essas mesmas famílias.
Entre as características consideradas peculiares
de Retiro pelos próprios moradores e pelos seus
vizinhos, bem como pela maioria das comunidades dos
quilombos no Brasil, conforme se verifica na literatura
sobre o assunto, estão as uniões conjugais
entre pessoas de sexos opostos consideradas parentes.
Cerca de 40% dessas famílias são constituídas
por cônjuges considerados parentes entre si.
A
maior parte dos moradores oferece sua mão-de-obra
a empregos temporários fora da área; outra
parte trabalha como diarista para grandes e médios
proprietários de terras das proximidades e uma
pequena parte pertence ao quadro de funcionários
da administração pública municipal.
Os que trabalham na terra vivem de atividades produtivas
consideradas tradicionais, como a confecção
de vários tipos de trabalho artesanal, o cultivo
da mandioca para a produção da farinha
e o cultivo de pequenas lavouras de café conilon.
Verifica-se, a partir dos discursos dos moradores, que
suas lutas são travadas ora contra algum problema
ora a favor de alguma reivindicação ou
conquista coletiva local. Entre as diversas dificuldades,
podemos destacar a escassez do espaço e dos meios
de sobrevivência. Com o crescimento populacional,
a situação do abastecimento de água
torna-se cada vez mais crítica. Para os problemas
que o grupo não consegue viabilizar soluções
por si mesmo, surgem as lutas e pleitos frente às
administrações e poderes públicos
municipal, estadual e federal por políticas públicas
na área de educação, saúde,
transportes e meios de sobrevivência. Entretanto,
a principal dessas reivindicações e lutas
é aquela pelo reconhecimento e pela titulação
definitiva da terra, conforme o que determina a legislação
em vigor sobre as terras das comunidades dos quilombos.
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