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de Alcântara (MA)
Os Militares e a "estratégia colonial"
Por Flávia Moura
Alcântara é uma cidade do nordeste brasileiro,
localizada no Estado do Maranhão, a 22 km por
mar da capital São Luís, e fundada em
1616.
Segundo dados oficiais do IBGE, o município possui
21.291 habitantes, sendo 5.665 na zona urbana e 15.626
na zona rural.
Alcântara foi reconhecida em 1948 como Cidade
Monumento Nacional em consideração a seu
expressivo patrimônio arquitetônico colonial,
embora boa parte esteja em ruínas.
São
importantes, também, suas festas populares -
a festa do Divino Espírito Santo, que atrai milhares
de turistas à cidade todos os anos; a Festa de
São Benedito, igualmente importante, realizada
em Alcântara por integrantes de remanescentes
de quilombos do interior; e uma infinidade de outras
festas de santos padroeiros, realizadas nos povoados.
Durante o período colonial, Alcântara recebeu
grande contingente de escravos africanos que, juntamente
com os remanescentes dos grupos indígenas, passaram
a constituir grandes territórios étnicos
a partir da retirada de ordens religiosas e de proprietários
de fazendas de algodão e de engenhos de açúcar.
Uma
característica desse campesinato que se forma,
desde finais do século XVIII, é o usufruto
coletivo dos recursos da natureza, baseado na identidade
étnica desses grupos, caracterizando distintas
territorialidades, como as terras de preto, as terras
de santíssimo, as terras de caboclo, as terras
de santo, as terras da pobreza.
Esses povoados estão relacionados entre si, caracterizando
um sistema que os torna interdependentes, tendo cada
um se especializado na produção de embarcações,
de pescado, de cerâmica, de farinha e de outros
produtos.
Em 1980, o governo do Estado do Maranhão editou
o Decreto 7820, de 27 de outubro, declarando de utilidade
pública para fins de desapropriação
uma área de 52 mil hectares para implantação
do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA),
expropriando aproximadamente duas mil famílias
de camponeses.
Dessas famílias expropriadas, 112 delas, residentes
em 10 povoados, foram remanejadas de julho a dezembro
de 1986 para cinco das chamadas agrovilas - Espera,
Ponta Seca, Pepital, Cajueiro e Só Assim. Entre
novembro e dezembro de 1987, foram transferidas mais
200 famílias de 22 povoados, assentadas em duas
agrovilas - Marudá e Peru.
Durante o governo Collor, novo decreto ampliou a área
em mais 10 mil hectares, abrangendo mais de 50% da área
da cidade.
Dentre as justificativas para implantação
do CLA em Alcântara, estava a localização
geográfica privilegiada do município que,
segundo os militares, possibilitaria colocar artefatos
espaciais em órbita com uma economia de combustível
de até 25%, devido a sua posição
em relação à linha do equador e
ao mar. Sabemos hoje que as justificativas encobriam,
na realidade, o pressuposto oficial de que Alcântara
seria um "vazio demográfico".
Para proceder à relocação das famílias,
os militares montaram uma equipe chefiada por um veterinário.
Além disso, encaminharam um grupo de jovens alcantarenses,
em sua maioria negros, filhos de camponeses, para São
José dos Campos (SP), onde receberam treinamento
para auxiliar no processo de deslocamentos.
Segundo a antropóloga e coordenadora do Grupo
de Estudos Rurais e Urbanos (Gerur), ligado à
Universidade Federal do Maranhão (UFMA), professora
Maristela de Paula Andrade, a estratégia era
cooptar pessoas do próprio lugar, acenando-lhes
com a possibilidade de seguirem a carreira militar,
e, com isso, facilitar a retirada das famílias.
Depois de oito anos, todos esses jovens soldados foram
dispensados.
As famílias não deixaram pacificamente
seus locais de moradia e trabalho. Houve manifestações
de vários tipos. Em 1985, os moradores fizeram
barricadas para recepcionar os ministros militares em
Alcântara. Exigiam principalmente terra e também
a reposição de suas condições
de existência em seus povoados centenários.
Nessa época, houve, inclusive, um acordo assinado
em cartório, segundo o qual os militares prometiam
toda assistência necessária aos relocados
para que estes pudessem produzir nas novas terras.
O presidente era então José Sarney. Não
só nenhuma das cláusulas do acordo foi
cumprida, como o Ministro da Reforma Agrária,
juntamente com o Ministro da Aeronáutica e o
Presidente da República, assinou decreto baixando
o módulo rural de 35 para 15 hectares na área
desapropriada para a implantação do CLA.
Com isso, Alcântara hoje é uma das únicas
cidades brasileiras que apresenta dois módulos
rurais - um na área do CLA e outro no restante
do município.
Desde a transferência das famílias em 1986,
o CLA não providenciou as escrituras para os
moradores das agrovilas. Com medo de se fixarem na terra
e depois serem "expulsos", muitos moradores
de Alcântara acabaram migrando para a periferia
de São Luís.
Durante uma audiência pública no Tribunal
de Justiça do Maranhão, ocorrida em novembro
de 2003, foi assinado um protocolo de intenções
entre representantes da base, do poder público
municipal e demais entidades, com o objetivo de regulamentar
a documentação das famílias. Até
hoje, não há andamento no caso.
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