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_Monitoramento_ _Contextos
Locais
Comunidade
de Conceição das Crioulas (PE)
Situando os conflitos
no sertão pernambucano
Por Vânia Fialho
Ao observar a divisão política de Pernambuco,
encontramos a denominação de Conceição
das Crioulas para um distrito do município de
Salgueiro, alto sertão do estado.
Tal
designação também corresponde a
uma localidade, uma pequena vila, o centro de circulação
de uma série de "sítios" vizinhos.
Além da sua importância para o fluxo dos
habitantes da região, Conceição
das Crioulas é a sede da mobilização
e articulação de 16 desses sítios
pelo reconhecimento de sua comunidade como quilombola.
Sua
população, majoritariamente negra, vem
se projetando nacional e internacionalmente e, no âmbito
do Estado brasileiro, tem se mostrado um ícone
do processo de reconhecimento étnico e territorial
inaugurado com o Artigo 68 do Ato das Disposições
Constitucionais Provisórias (ADCT) da Constituição
Federal de 1988.
Para
chegar lá, corta-se todo o estado de Pernambuco
seguindo pela rodovia BR 232 até a cidade de
Salgueiro. São mais 17 quilômetros pela
BR 116 em direção à cidade de Petrolina
até acessarmos uma estrada de terra à
esquerda. São aproximadamente 42 km, depois que
deixamos a rodovia federal, em meio à caatinga
- vegetação composta por árvores
de pequeno e médio porte em que predominam o
juazeiro, a baraúna, a jurema preta, a arueira,
a quixabeira, o mameleiro, o espinheiro, a faveleira,
o caroá, a macambira e o mucunã - até
que, de repente, no meio de uma paisagem acinzentada,
nos deparamos com um arruado que nos leva ao centro
do povoado de Conceição das Crioulas.
São 550 quilômetros desde a cidade de Recife.
A
população de Conceição das
Crioulas está estimada em 3800 habitantes (AQCC,
2004), distribuídos em 16 núcleos populacionais
denominados "sítios". Os sítios
estão espalhados pelo território hoje
identificado como de "remanescentes de quilombos"
e apresentam certa heterogeneidade em relação
à concentração populacional, mobilização
política e assistência por parte dos órgãos
governamentais.
O
povoado de Conceição das Crioulas é
o que oferece as melhores condições daquela
região e representa o ponto de apoio para sua
população em relação a serviços
e transporte. Os demais sítios se articulam por
intermédio de suas associações
de moradores. Geralmente, cada sítio possui a
sua, mas também pode haver uma representação
que reúna dois ou três sítios, dependendo
da proximidade entre eles ou do número de habitantes.
A
congregação das dez associações
existentes se dá por meio da Associação
Quilombola de Conceição das Crioulas (AQCC).
Criada em 2000, tinha inicialmente a finalidade de receber
a titulação da terra de Conceição
das Crioulas. Hoje, constitui uma importante organização
para a mobilização política dessa
população; é reconhecida como a
entidade de representação máxima
da comunidade e promove a articulação
de suas ações, de maneira explícita,
com o fortalecimento da identidade étnica e cultural
e da luta pela causa quilombola.
A
Chegada das Crioulas
As
narrativas sobre a origem dessa comunidade apontam o
início do século XIX, mais precisamente
o ano de 1808, como período da chegada de seis
crioulas à região. Não há
um consenso quanto ao lugar de onde vieram essas mulheres
nem sobre as razões que motivaram o seu deslocamento.
Existem algumas referências que indicam o local
denominado Panelas ou Panelas D'Água como sendo
o de origem das mesmas, e o nome de um negro, capitão
Antônio de Sá, que teria servido de 'guia'
para as crioulas, mas é unânime a idéia
de que não chegaram na condição
de escravas. Arrendaram uma área à qual
atribuem três léguas em quadra, que foram
pagando com o trabalho da produção e fiação
do algodão que vendiam em Flores, um município
que fica nas proximidades. Referem-se a esse período
como 'Período do Rei'. Com o terreno quitado,
elas ganharam o direito de adquirirem o título
de suas terras. Em torno dessa trajetória das
crioulas e das estratégias para se instalarem
e garantirem a sobrevivência de seus descendentes
é que se assenta o orgulho da comunidade de Conceição.
Dessas crioulas, as gerações atuais, principalmente
as mulheres, teriam herdado o tom bravio e a determinação.
Defendendo
a memória das Crioulas
Situado
numa região de histórica confluência
de indígenas, negros e de toda a sorte de categorias
que colocavam em risco a ordem colonial vigente durante
séculos, o território de Conceição
das Crioulas foi identificado em 1998 e titulado pela
Fundação Cultural Palmares em 2000, com
aproximadamente 17 mil hectares. Hoje, essa área
quilombola é vizinha da Terra indígena
Atikum, homologada por Decreto Presidencial em 1996.
A
reorganização do espaço agrário
da região, com a recente afirmação
de uma forma legal de apropriação coletiva
das terras quilombolas, se desenrolou, como seria de
se esperar, carregada de problemas e conflitos. A indefinição
do processo de regularização fundiária,
só normatizado entre novembro de 2003 e março
de 2004, proporcionou uma situação de
insegurança, em que as ameaças por parte
dos ocupantes das terras das Crioulas se intensificaram.
Os
conflitos podiam ser percebidos desde o período
de identificação do território
quilombola, tendo como destaque naquele momento a dicotomia
'quilombolas' versus 'fazendeiros'. Foram identificados
16 imóveis incidentes, porém, como o procedimento
inicial não previa o levantamento fundiário,
as informações eram imprecisas tanto em
relação à dimensão dos imóveis
quanto às suas porções que se sobrepõem
às terras das Crioulas.
No
entanto, o protagonismo político do núcleo
de Conceição das Crioulas na região,
que vinha sendo bem demarcado no plano político-partidário,
acabou por se refletir no contexto da regularização
das terras quilombolas. Em 2000, Givânia Maria
da Silva, liderança quilombola, se candidatou
a uma vaga na Câmara de Vereadores do município
de Salgueiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Já
Maria Irene Erussa, a Bebé, moradora do sítio
Rodeador - um dos que integram a terra quilombola -,
se candidata pelo Partido da Frente Liberal (PFL). Apenas
Givânia é eleita e reeleita em 2004.
A
ação de Bebé centrava-se na idéia
de fortalecer uma oposição ao projeto
quilombola, defendendo a necessidade de extensão
dos limites da Terra Atikum. Isso resultaria na incorporação
de alguns dos sítios - entre eles, o que ela
mesma reside - situados na região limítrofe
entre a Terra Indígena e a Terra de Remanescentes
de Quilombos.
O
destaque a Bebé se dá pelo fato desta
vir liderando esse movimento de redefinição
dos limites das terras Atikum e das Crioulas, com o
fim de promover a mudança de categorias administrativas
dos sítios denominados Massapê, Rodeador
e Paus Brancos para 'aldeias indígenas'. Tal
alteração propiciaria à população
dessas localidades o mesmo tratamento dispensado aos
índios. Portanto, sendo assim reconhecidos, os
habitantes desses sítios passariam a ter acesso
a serviços diferenciados de saúde e de
educação.
É
preciso ressaltar que os projetos políticos dessas
duas personagens não se encontram atrelados diretamente
aos anseios quilombolas e indígenas, nem devem
ser assim entendidos. Givânia entra no cenário
político a partir de sua articulação
com o sindicato rural e a luta popular, opondo-se à
estrutura conservadora de controle político e
fundiário da região. Por outro lado, Bebé
se vinculou ao PFL, cujos princípios estão
vinculados à perpetuação do status
quo e cujos representantes já constituíam
oposição a Givânia.
Bebé
já esteve articulada com o movimento quilombola
e com o movimento de professores indígenas, mas,
como foi afastada de ambos, procura agora sua legitimação
via Conselho Distrital de Saúde Indígena.
As
tensões vêm, por conseguinte, passando
por um processo de complexificação e se
estruturando a partir de diferentes perspectivas, mas
que se encontram profundamente interligadas e podem
ser identificadas por meio de:
- enfrentamentos
entre quilombolas e fazendeiros;
-
disputas político;
- partidárias
nas eleições municipais;
-
tentativas de acesso ao sistema de assistência
nas áreas de educação e saúde;
-
mecanismos de manipulação do sistema
previdenciário.
Na
rearrumação que se deu na região
com o reconhecimento oficial do território quilombola,
as disputas acima citadas têm sido encobertas
pela dicotomia: 'indígena' versus 'quilombola'.
Nesse contexto, tais categorias identitárias
devem ser entendidas como legalmente instituídas,
às quais estão relacionadas prerrogativas
específicas. E é exatamente no plano do
direito e das competências administrativas que
as contendas vão se instalar.
A
preocupação com essas categorias não
se dá apenas por uma questão teórico-conceitual,
mas também porque reduzir a problemática
fundiária vivenciada na região à
disputa entre 'indígenas' e 'quilombolas' não
possibilita o entendimento da mesma. O mais grave é
que esse tem sido o argumento recorrente utilizado pelos
meios de comunicação e por instâncias
diferenciadas do poder público para explicar
os conflitos existentes.
Políticas
de identidade no sertão pernambucano
Para
entendermos o contexto dos conflitos hoje configurados,
é necessário visualizar que a região
que compreende os municípios de Floresta, Carnaubeira
da Penha, Mirandiba, além de outros que compõem
a região do semi-árido pernambucano, foi
palco de um intenso fluxo migratório entre os
séculos XVII e XIX e dessa forma acabou por abrigar
populações indígenas e negras que
adentravam lá para fugir das frentes de expansão
da cultura da cana e do gado.
A
região da Serra do Umã, próxima
às terras de Conceição das Crioulas,
foi uma dessas áreas e há séculos
abriga etnias diferentes, que têm mantido entre
si relações de cooperação
e parentesco e que hoje se identificam como os Atikum.
A
Terra Indígena Atikum e a Terra de Conceição
das Crioulas têm uma linha limítrofe em
comum. Além da definição dos limites
territoriais, do ponto de vista das políticas
públicas, trata-se de definir as categorias jurídicas
- de indígenas e quilombolas -, às quais
são atribuídos direitos diferenciados.
Durante
a realização da identificação
da terra quilombola de Conceição das Crioulas
(1998), já se salientava que os limites entre
a identidade indígena e quilombola nem sempre
se mostravam tão claros. Trata-se de uma região,
principalmente no trecho limítrofe entre as duas
áreas, em que numa mesma família há
membros que se identificam como indígenas e outros
como quilombolas, e essa relação não
vinha se apresentando como conflituosa.
Ao
considerar as dimensões das áreas indígenas
e quilombolas, os relatos indicam que as terras iam
muito além do que hoje é demarcado. Mas,
ao considerar o contexto atual da região, as
definições dos limites territoriais correspondem
aos espaços que podem dar sustentação
econômica e simbólica à existência
dos Atikum e da população de Conceição
das Crioulas.
Apesar
da política partidária ter deflagrado,
em 2000, um processo de demandas identitárias
diferentes do que vinha se colocando, há necessidade
de se atentar para outros fatores que compõem
o contexto Atikum/Crioulas:
- Não há uma política de assistência
específica para a população quilombola,
o que faz com que as terras de Conceição
das Crioulas continuem, mesmo depois de sua titulação,
sob o controle dos fazendeiros, ao contrário
do que ocorre na Terra Indígena Atikum, posto
que, no momento, os índios reivindicam a liberação
dos recursos para a indenização das
benfeitorias dos imóveis incidentes e já
existe todo um corpo normativo que lhes garante acesso
a programas diferenciados na área de saúde
e de educação;
-
O atendimento da Fundação Nacional de
Saúde (Funasa), dirigido especificamente para
os indígenas, tem constituído um elemento
de disputa e um instrumento de manipulação
da identidade étnica entre alguns sítios,
como os de Massapê, Rodeador e Paus Brancos;
-
Há certa recorrência por parte da população
em geral a representantes Atikum e ao Posto Indígena
para a solicitação de atestado da identidade
indígena (declaração formal da
Funai, cuja responsabilidade é, geralmente,
compartilhada com alguma liderança indígena,
que também assina o documento), a fim de assegurar
a concessão de aposentadoria pelo INSS, já
que aos índios são garantidos todos
os direitos de qualquer beneficiário da Previdência
Social.
Além disso,
a região em que se encontram esses dois territórios
é conhecida pelo plantio de maconha, que, constituindo
uma prática ilegal, acaba por estruturar uma
rede de poder paralelo, difícil de transpor,
devido às ameaças dos que controlam as
plantações.
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