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Locais
Comunidade
de Cangume (SP)
Regularização
como modalidade de expropriação
Por José Maurício Arruti
"Cangume" é o nome de um bairro rural
do município de Itaóca, Vale do Ribeira,
quase na fronteira do Estado de São Paulo com
o Paraná. Hoje, a comunidade que deu origem ao
bairro e mantém o seu nome é formada por
37 famílias negras, que somam cerca de 150 moradores
permanentes. Descendem de três troncos principais:
os Monteiro, os Gonçalves e os Maciel de Pontes,
que se misturaram em uma intrincada rede de parentesco
por meio do constante casamento entre primos. Todos,
sem exceção, são kardecistas e
freqüentam, de uma a quatro vezes por semana, o
Centro Espírita Fé em Deus, fundado pela
comunidade ainda na década de 30. O centro tem
um longo histórico de serviços de cura
prestados a pessoas dos bairros e municípios
vizinhos, tendo se tornado uma referência.
A
população vive sobre uma terra comum,
o "patrimônio do Cangume", de apenas
37 ha, onde mantém minúsculas hortas cercadas
e alguma criação solta, de porcos e cabras.
Em função das pouquíssimas terras,
os moradores do Cangume trabalham como diaristas para
os fazendeiros vizinhos, recebendo remuneração
que chega a ser até 50% menor que a dos trabalhadores
dos outros bairros. Essa é a manifestação
mais concreta da discriminação que recai
sobre o grupo, apesar do destaque que ele vem alcançando
com o reconhecimento informal dos poderes municipais
de sua condição de remanescentes de quilombos.
Até
a década de 60, o Cangume tinha cerca do dobro
do número de famílias e pouco mais de
1.300 ha. Eram lavradores principalmente de milho, feijão,
arroz e mandioca, possuindo pequenas criações
de porcos, cabras e galinhas. Seu artesanato era feito
de cipó, palha, taboa, taquara e barro, e produziam
praticamente tudo de que necessitavam, somente recorrendo
ao parco mercado regional para a compra de pouquíssimos
gêneros, tais como o sal. O gado e o dinheiro
eram praticamente inexistentes no bairro.
O
avanço econômico sobre o Vale do Ribeira,
iniciado na década de 40 com base na extração
de minério, levou à abertura de estradas
e, conseqüentemente, a uma rápida valorização
das terras da região. Os primeiros fazendeiros
de gado chegam ao bairro em meados da década
de 50, começando a alterar o padrão local
de pequenos apossamentos familiares. Na década
seguinte, uma grande Ação Discriminatória
levou à regularização fundiária
de vários municípios, inclusive Apiahi,
a que Itaóca ainda era subordinado, atingindo
o Cangume.
Paradoxo:
a regularização fundiária como
modo de expropriação
Assim,
em 1968, as posses dos moradores do Cangume, que eram
trabalhadas de forma coletiva, com base na solidariedade
entre famílias extensas que se revezavam sobre
terras de uso comum, foram fragmentadas em cerca de
80 glebas individuais. Esse fato, reproduzido por toda
a região, deu origem a um feroz mercado de terras,
do qual a população local, alheia à
lógica de mercado e, em especial, à do
mercado de terras, não tinha condições
de avaliar as implicações. De forma apenas
aparentemente paradoxal, a regularização
das terras do Cangume foi o maior instrumento de sua
expropriação territorial. Em um curtíssimo
período de anos, todas as glebas individuais,
por necessidade de sobrevivência dos moradores
ou por forte pressão dos próprios fazendeiros
já instalados, criadores de gado vindos de Minas
Gerais e do Paraná, foram vendidas. Restaram
apenas duas glebas familiares e uma que, por decisão
dos próprios moradores, foi titulada (ainda que
não registrada em cartório) "em comum",
conhecida como "patrimônio do Cangume"
e responsável pela manutenção da
comunidade como tal.
A
perda de todas as terras em um período tão
curto de anos levou a uma forte migração
do Cangume. Muitas famílias deslocaram-se para
Tatuí, município da região administrativa
de Sorocaba, em busca de trabalho nas plantações
de tomate. Lá foi formada uma extensão
do bairro original, com um número semelhante
de famílias, que ainda buscam perpetuar seus
laços de solidariedade pela reprodução
dos laços de vizinhança e pela manutenção
da sua religiosidade kardecista. A existência
desse núcleo avançado tornou-se fundamental
para a manutenção da comunidade do Cangume,
por servir de válvula de escape para a pressão
demográfica do grupo e para as aspirações
dos mais jovens, sem que com isso haja uma definitiva
dispersão social.
Finalmente,
no final da década de 90, o contato com outras
comunidades do Vale do Ribeira já mobilizadas
em torno da luta contra as barragens planejadas para
a região e pelo seu reconhecimento como comunidades
remanescentes de quilombos despertou no grupo a sugestão
de que fossem passíveis do mesmo reconhecimento.
Reforçava essa sugestão o fato de existir
um largo senso comum no município de Itaóca
sobre o fato do grupo ser, de fato, remanescente de
um antigo quilombo, que teria tido origem na fuga das
minas de ouro de Apiaí. De fato, pouco depois
da emancipação de Itaóca como município,
a administração empossada em 1997 passou
a dedicar uma atenção especial ao grupo,
por meio de projetos que já o descrevem como
remanescentes de quilombos. Isto, somado às visitas
de representantes da comunidade de Ivaporunduva, acompanhados
de agentes da pastoral católica, potencializou
as famílias do Cangume no desejo de reaverem
as terras do bairro, que eles consideram lhes terem
sido tomadas de forma imprópria, na totalidade
das vezes compradas por valores irrisórios.
As
primeiras demandas do grupo formam apresentadas aos
funcionários do Itesp em 1999, tendo de esperar
até o início do ano de 2002 para que uma
equipe do departamento de Arrecadação
e Projetos visitasse o bairro, dando início ao
processo administrativo de reconhecimento oficial. Nesse
meio tempo, o grupo organizou sua primeira Associação
de Moradores e iniciou o processo de discussões
internas em torno da memória sobre suas origens
e sobre os limites do território a ser reivindicado.
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por José Maurício Arruti
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