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Cronologia

A presente cronologia apresenta os principais acontecimentos envolvendo a Ilha da Marambaia desde junho de 1804 a maio de 2005.


Data
Evento
1804 (junho) Nasce Joaquim José de Souza Breves.
1846-1847 O comendador ocupa o cargo de deputado da Assembléia Provincial
1850 Aprovada a lei de terras, marco dos esforços estatais para discriminar entre as terras públicas e as privadas.
1856 (fevereiro) Joaquim José Breves fez constar no livro de registro de terra da Paróquia de Itacuruçá: "Declaro que sou proprietário da Ilha da Marambaia, cujos terrenos são cultivados, compreendendo nos seus limites a restinga e o mangue de Guaratiba até a divisa do canal e também são acessórias à mesma Ilha as três pequenas ilhas fronteiras denominada Saracura, Bernardo, Papagaio." Na Marambaia ele mantinha duas fazendas, uma delas dedicada à "quarentena" dos recém-chegados da África. No mesmo ano é feito um flagrante policial na Ilha da Marambaia, o que gera um processo judicial acusando o comendador de crime de contrabando de africanos.
1860 O comendador encerra suas atividades na Câmara e no juizado e assume a função de "capitalista" (referente à atividade financeira e creditaria). Neste mesmo ano o comendador Breves desloca suas atividades como fazendeiro do município de São João do Príncipe para o de fazendeiro e capitalista em Mangaratiba em função da estrada aberta entre São João Marcos e Mangaratiba.
1889 (setembro) Morre o comendador Joaquim José de Souza Breves e a fazenda entra em decadência. Pouco antes de morrer, segundo memória do grupo de moradores, o comendador Breves promete doar a Ilha da Marambaia para as famílias de seus escravos, mas essa doação nunca seria formalizada em documento.
1891 (outubro) Dona Isabel de Moraes Breves, viúva e herdeira da Ilha, vende a Marambaia à Companhia Promotora de Indústrias e Melhoramentos.
1896 (novembro) Por liquidação forçada, a Companhia transferiu a propriedade ao Banco da República do Brasil, por noventa e cinco réis.
1905 (maio) A União, através da Fazenda Nacional, adquire a Marambaia do Banco da República do Brasil.
1908 (junho) A Marinha do Brasil instala na Ilha a Escola de Aprendiz de Marinheiros do Estado do Rio de Janeiro.
1910 (junho) A Escola de Aprendiz de Marinheiros é transferida para Campos (RJ).
1924 (fevereiro) A Ilha é posta à disposição da Diretoria de Portos e Costa, com a finalidade de ali instalar uma colônia de pescadores e uma escola de curso primário e profissional de pesca.
1927 Instalação da Fundação Cristo Redentor na Ilha da Marambaia.
1931 A Confederação Geral de Pescadores do Brasil funda, na Ilha, a sede da Colônia de Pescadores Z-23.
1933 (janeiro) A Ilha passa a ser área restrita para a instalação de um polígono de tiro do Comando de Artilharia de Costa do Exército, continuando sob jurisdição da Marinha.
1939 O presidente Getúlio Vargas dá um despacho favorável à doação da Ilha da Marambaia para o Abrigo Cristo Redentor construir uma escola profissional de pesca, a Escola Técnica Darcy Vargas.
1940 Visando elevar o nível do pescador brasileiro com preparo técnico, a Escola Darcy Vargas é ampliada, incluindo capela, clausura para as religiosas, hospital, farmácia, lavanderia, padaria, estaleiro, fábrica de gelo, fábrica de rede de pesca, fábrica de sardinha e de filé de cação prensados, assim como são implementadas a horticultura e a pecuária para abastecimento dos operários e técnicos que, nesse ano, eram cerca de 150 indivíduos.
1943 Com o decreto Lei 5760 de 1943, o Presidente Getúlio Vargas transfere ao Patrimônio Nacional todos os bens pertencentes ao Abrigo Cristo Redentor, criando a Fundação Abrigo Cristo Redentor. Conforme certidão do livro de terras, os bens que são reincorporados ao patrimônio da União são os que estão descritos no processo protocolado no Ministério da Fazenda sob o número 35.751/70 e 1.306/70 - RJ.
1955 A estrutura montada na Ilha da Marambaia entra em decadência.
1971 (fevereiro/maio) É autorizada a reincorporação da Ilha à União, com todos os bens móveis e imóveis da Escola Técnica Darcy Vargas da Fundação Abrigo Cristo Redentor, e a administração da Ilha retorna para o Ministério da Marinha, que reativa a Prefeitura Militar do campo da Marambaia, instalando no local uma base de adestramento. A comunidade começa, então, a viver sob o impacto de nova dinâmica, repleta de restrições impostas pela Marinha, que proíbe os moradores de construir novas casas para seus filhos recém-casados, de reformar ou ampliar as já existentes.
1981 (fevereiro) É inaugurado o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia.
1988 A União inicia ações de reintegração de posse contra moradores da comunidade, algumas delas resultando na expulsão de famílias e derrubada de casas.
1989 Primeiras tentativas de organização comunitária, que levam à organização da Associação de Moradores e Amigos da Ilha da Marambaia (Amadim), com o apoio de três vereadores e um advogado do município de Mangaratiba.
1997 A Marinha intensifica seu movimento no sentido da retirada dos moradores e entra com várias ações de reintegração de posse contra pescadores residentes na Ilha, alegando invasão e ocupação indevidas de terras da Ilha da Marambaia.
1998 Com a intensificação das ordens de despejo e destruição de casas, reiniciam-se as tentativas de organização dos moradores. De um lado, elas levam à criação da Vitória - Associação para o Desenvolvimento Socioeconômico Cultural da Ilha da Marambaia, composta exclusivamente por evangélicos. De outro, levam a reuniões na pastoral social da igreja católica de Mangaratiba, que resultam em um abaixo-assinado, denúncias à imprensa, cartas às autoridades e, finalmente, num dossiê que seria entregue à Fundação Cultural Palmares (FCP).
1999 (janeiro) A Pastoral de Itaguaí escreve uma carta à FCP denunciando as constantes ameaças de despejo feitas pela Marinha contra as famílias residentes na Ilha e envia cópia de dossiê elaborado pela própria Diocese.
1999 (março/maio) A FCP abre um processo, envia ofício para a Marinha requerendo informações sobre a Ilha e produz um parecer onde afirma: "Ao passar para a jurisdição de Marinha, em 1906, a Ilha já era habitada por várias pessoas, remanescentes de escravos que, vivendo basicamente da pesca, criaram uma comunidade distinta." A presidente da FCP escreve à comunidade informando que em breve estará mandando uma equipe para trabalhar com eles para fins de titulação da área. A equipe nunca chegou à Ilha.
2000 (agosto) A Procuradoria da República do Rio de Janeiro entra em contato com a FCP requerendo providências para o caso. A FCP dá despacho afirmando necessitar de elaboração de um laudo técnico.
2002 (janeiro/fevereiro) O Procurador da República responsável pela pasta dos Direitos do Cidadão no Rio de Janeiro, Daniel Sarmento, solicita ao Projeto Egbé - Territórios Negros um relatório preliminar com dados que começavam a ser levantados sobre a comunidade. Com base nesse relatório preliminar, o Ministério Público Federal (MPF) entra com uma Ação Civil Pública solicitando o reconhecimento da comunidade como remanescentes de quilombo e a interrupção das ações de expulsão da Marinha contra os moradores da ilha, no que é atendido pela juíza de primeira instância.
2002 (abril) A liminar da juíza Lucy Costa atende a três dos quatro pontos solicitados na Ação Civil, ficando o último na dependência de que a Fundação Cultural Palmares se pronuncie sobre o reconhecimento do grupo como comunidade remanescente de quilombo.
2002 (novembro) Moradores da Ilha voltam a se reunir, dando início ao processo de organização de uma associação comunitária.
2002 (dezembro) A Fundação Cultural Palmares retoma o processo aberto em 1989, atendendo a um oficio do MPF, e firma convênio com KOINONIA para a realização do laudo antropológico sobre o grupo.
2003 (fevereiro) É criada a Associação da Comunidade Remanescente de Quilombos da Ilha da Marambaia (ARQIMAR).
2003 (dezembro) O laudo antropológico sobre o grupo, produzido por KOINONIA com a colaboração de dois núcleos de estudos da UFF sob a coordenação de José Maurício Arruti (um volume de cerca de 350 páginas), é finalizado e entregue à Fundação Palmares, com cópia para diversas instâncias oficiais, entre elas o Incra, que depois de 2003 passou a ser o órgão responsável pela regularização das comunidades quilombolas.
2004 (novembro) FCP emite certidão de auto-reconhecimento para a Comunidade da Ilha da Marambaia e o Incra inicia o trabalho de demarcação.
2005 (janeiro) O trabalho de demarcação é interrompido pelo Incra sem maiores esclarecimentos e a diretoria da ARQIMAR vai à sede da Superintendência Regional do órgão para pedir esclarecimentos. Em resposta, a diretoria é informada de que a equipe da instituição estaria de férias, mas que em breve os trabalhos seriam retomados.
2005 (fevereiro) Em um artigo de opinião publicado no jornal O Globo, o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (Crime ambiental e erro histórico) questiona, depois de ter visitado a área a convite dos militares, o reconhecimento dos ilhéus da Marambaia como quilombolas, assim como sugere que tal reconhecimento representaria um desastre ecológico. No dia seguinte, o mesmo jornal publica uma matéria informando que o Incra teria sido proibido de entrar na Ilha para dar continuidade aos trabalhos de demarcação e regularização fundiária. A matéria é acompanhada de um Boxe com a opinião do jornal que repete os argumentos do prefeito. No dia seguinte, a equipe do Programa Egbé Territórios Negros de KOINONIA visita a comunidade a pedido da população para discutir as alternativas de ações contra as declarações do prefeito. Os moradores redigem, então, uma carta-resposta, que é enviada a todos os principais veículos de comunicação, mas é ignorada pela maioria deles.
2005 (março) KOINONIA reúne em sua sede no Rio de Janeiro representantes do Ministério Público Federal; do Ministério Público Estadual; da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH); dos moradores da Ilha da Marambaia, assim como advogados e militantes engajados na causa quilombola, para discutir os desdobramentos do episódio da carta de César Maia, a interrupção dos trabalhos do Incra e a situação da violação dos direitos dos ilhéus em diversos âmbitos.
2005 (maio) Toma posse a nova diretoria da ARQIMAR. No mesmo mês, a comunidade recebe visita de técnicos da Subsecretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais da Seppir da Presidência da República, juntamente com outros órgãos governamentais integrantes do programa Brasil Quilombola (incluindo o Incra), para "conhecerem" a situação. Poucos dias depois, a equipe do Balcão de Direitos, constituído por meio de uma parceria entre KOINONIA e a SEDH, recebe resposta negativa ao ofício em que solicitava a sua entrada na Ilha para dar continuidade aos seus trabalhos, que consistem na promoção de oficinas de capacitação em direitos humanos e cidadania e na promoção da documentação básica de seus moradores.

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