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Processo de Regularização da Ilha


Meu reino por quilombo

por Maurício Barros de Castro

FONTE: www.no.com.br
DATA: 02/01/2001

A presença da Marinha nas terras da Ilha da Marambaia, no Rio de Janeiro, está sendo posta em cheque. O Ministério Público Federal enviou na quarta-feira, dia 25, um ofício à Fundação Palmares solicitando um laudo antropológico sobre a população que vive nesta reserva. Cerca de cem famílias de pescadores vivem na paradisíaca ilha, a uma hora e meia do Rio, vivem uma tensa relação com a Marinha, que desde os anos 70 usa o local para treinamento. Cinco destas famílias estão se defendendo na Justiça de processos de reintegração de posse movidos pela Marinha. No dia 17 de julho, contou a história de dona Sebastiana Henriqueta de Lima, que aos 83 anos pode ter de deixar a casa onde viveu toda a vida. A Marinha considera que a velha casa de alvenaria construída por dona Sebastiana é patrimônio da União.

Semana passada, dona Sebastiana e os outros quatro moradores processados podem ganhar novas esperanças com a ação do Ministério Público. A iniciativa do MP se baseia no artigo número 68 da Constituição, que prevê que comunidades remanescentes de quilombos têm direito às terra que habitam. "Há indícios de que houve quilombo naquela região, por isso estamos provocando o órgão federal a elaborar um laudo antropológico", diz o procurador regional dos direitos do cidadão, Daniel Sarmiento. Se a Fundação Palmares, que é o braço do governo federal para atuação nos remanescentes de quilombos, confirmar a suposição do procurador e de historiadores, a Marinha vai perder qualquer fiapo de justificativa para sua ações. Segundo a Constituição, a terra que os descendentes dos quilombolas ocupam deve ser reconhecida como "a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos".

Antes mesmo da reportagem a procuradoria já tinha tomado conhecimento dos conflitos na Marambaia através de um relatório da ong KOINONIA, que assessora comunidades negras rurais. Trata-se de um trabalho de pesquisa com relatos dos moradores da ilha que remetem ao tempo da escravidão. Parece certo que os moradores da Marambaia são descendentes diretos de escravos parece certo. A tradição oral do povoado conta que eles teriam se estabelecido ali no tempo em que a Ilha era propriedade do Comendador Breves, um grande negociante de negros.

As memórias atraíram até a atenção de pesquisadores como o antropólogo Roberto Kant de Lima, coordenador do Núcleo Fluminense de Pesquisa (Nufep), da Universidade Federal Fluminense. Acostumado a trabalhar com comunidades de pescadores no litoral brasileiro, ele descobriu a Marambaia através de um aluno, que começou a estudar um grupo de pescadores na Ilha,. "Depois ficamos sabendo que ali residiam descendentes de escravos".

Figura conhecida na Marambaia, o antropólogo lamenta as normas que a Marinha impõe aos moradores. "Há certas regras que limitam a reprodução social dessas pessoas lá. Eles não podem construir novas casas, elas têm que permanecer sempre do mesmo tamanho. Embora se entenda que ali é uma área estratégica, sabe-se também que já havia uma população vivendo ali desde o século passado, e essa população tem os seus direitos", avalia.

Exilada na casa da filha na Pavuna, onde foi morar para fugir dos oficiais de justiça, Dona Sebastiana pode demorar a ter paz na sua casinha na Marambaia. Edir Freitas de Paula, que trabalha na equipe técnica da Coordenação Nacional de Comunidades Remanescentes de Quilombo, setor da Fundação Palmares, explica que o processo é demorado. Em 1999, a instituição já tinha recebido um pedido de laudo sobre a Ilha, feito pelo padre Milton da Silva Fonteli, da Arquidiocese de Itaguaí. Mas o cronograma estabelecido pela Comissão Nacional de Articulação de Comunidades colocou o caso da Marambaia no fim de uma longa fila. "Existem cerca de duzentas comunidades na frente dela", conta Edir de Freitas. A técnica ainda explica que não há como prever uma data para que o trabalho de elaboração do laudo seja concluído.

Ainda assim pesquisadores da Fundação Palmares já estiveram na Ilha para elaborar um relatório de atividades.Embora já tenha identificado e reconhecido 743 comunidades remanescentes de quilombos, a instituição titulou apenas uma no estado do Rio de Janeiro, a de Campo de Santana, no Município de Quati. Aos moradores da Marambaia resta uma longa espera e uma intensa batalha judicial.


Incra-rj inicia trabalhos para assentar 146 famílias
na Ilha de Marambaia

FONTE: Incra
DATA: 05/11/2004

A Superintendência Regional do Incra, no Rio, iniciou hoje, 4, na Ilha de Marambaia, um trabalho de medição topográfica e avaliação do Projeto Quilombolas no local.

Segundo o gestor do projeto, Celso Souza Silva, a meta é de assentar 146 famílias quilombolas numa área estimada em 400 hectares.

O Incra já tem em mãos laudos e processo da Fundação Cultural Palmares para o desenvolvimento e consecução do projeto.


Crime ambiental e erro histórico

FONTE: O GLOBO
DATA: 25/02/2005

Um dos patrimônios ambientais do Estado do Rio de Janeiro é a Restinga da Marambaia, preservada graças à presença das Forças Armadas. O primeiro grande trecho é controlado pelo Exército, uma faixa intermediária pela Aeronáutica e a parte final pela Marinha. Esta última é um complexo de praias, ilhas e montes que constituem uma das poucas pérolas preservadas de nosso litoral. Lá, a Marinha mantém um de seus centros de adestramento e consegue manter o equilíbrio entre suas atividades de treinamento de pessoal - em especial fuzileiros navais - a preservação da área - ambiental e historicamente - e o apoio à população local remanescente. Esta área de marinha é chamada Ilha da Marambaia.
No século XIX, um dos maiores negociantes de escravos usou a Ilha da Marambaia para recepção de negros vindos da África, recuperação física dos mesmos, cinicamente conhecida na época como engorda, e revenda. Ainda se pode ver ali uma senzala remanescente com suas paredes de pedra preservadas, hoje adaptada para ser um hotel oficial de trânsito. Décadas mais tarde, o presidente Getúlio Vargas transformou a área num equipamento social onde jovens em situação de exclusão social aprendiam técnicas de pesca. Construiu os prédios para as aulas, os dormitórios para os alunos, uma igreja e casas para a direção, sendo que uma delas era ocupada por ele mesmo, o que até hoje mexe com a imaginação da população.

Este conjunto foi abandonado progressivamente, as terras foram parcialmente invadidas, começando assim um processo de deterioração. A partir de 1970, a Marinha assumiu a área por cessão patrimonial da União, iniciando um trabalho de preservação, recuperação e adaptação das instalações, que passaram a abrigar o centro especial de treinamento. A tradição dos presidentes da República visitarem o local e conhecerem este patrimônio natural, além de sua história, foi mantida. Anos depois, esta área foi declarada Área de Preservação Ambiental (APA). Por outro lado, esta ocupação auxilia a patrulha do mar e evita a aproximação de navios que poderiam descarregar contrabando e drogas.

Surpreendentemente, no Diário Oficial da União de 21 de novembro de 2003, o presidente da República publicou o decreto 4.887, de 20 de novembro de 2003, no qual define as condições da Ilha da Marambaia - enquanto sede de quilombos - e estabelece direitos sobre o solo. Certamente assessorado por visões gráficas equivocadas e distantes da realidade, o decreto supõe que na área teriam existido quilombos e que, com isso, os descendentes dos quilombolas hoje teriam direitos sobre o solo. Em primeiro lugar, é um erro supor que teriam existido quilombos numa área como aquela, com as características comerciais citadas, e onde a impossível mobilidade e a arriscada proximidade certamente impediriam que as fugas produzissem quilombos.

O que nos diz o decreto é algo no mínimo ingênuo. Garante aos descendentes dos hipotéticos quilombolas o controle do solo. E, como identificá-los não seria tarefa simples, afirma no caput do artigo 2º e em seu parágrafo 1º que esta identificação será feita por "auto-atribuição", ou seja: quem se disser descendente dos hipotéticos quilombos terá imediatamente direito à terra que teria pertencido a seus ancestrais. Nenhuma análise maior se exige além da autodeclaração. É evidente que o método utilizado abre espaço para um sem-número de alegações e para o parcelamento completo da Ilha da Marambaia.
Imaginava-se que após este decreto viria algum tipo de regulamentação que prevenisse os inevitáveis excessos. Mas o artigo 13 do decreto 4.887/2003, em seu caput e parágrafo 2º, atribui ao Incra a tarefa de considerar desapropriadas as áreas que pertenceriam aos descendentes autodeclarados dos quilombolas.

O mais espantoso disso tudo é que o Incra já está na Ilha da Marambaia fazendo a demarcação e se preparando para a desapropriação liminar da área de controle da Marinha. As primeiras observações indicam que, quando muito, restará à Marinha 15% da área. A APA existente se transformará inicialmente em área residencial precária de economia informal, vinculada à pesca artesanal. E, depois... a experiência de áreas próximas é suficiente para sinalizar o que ocorrerá.

É fato que existem no STF argüições de inconstitucionalidade do decreto 4.887/2003. Mas um erro grave como esse, cometido pela assessoria do presidente da República, deveria ser evitado por ato do próprio presidente, cancelando o decreto. Assim como outros presidentes, o presidente Lula poderia visitar o local, passar um fim de semana lá, ver e ouvir, conhecer e avaliar, e por fim evitar que em seu passivo fique um ato de tamanha predação contra o patrimônio histórico e natural do Estado do Rio de Janeiro. Tenho certeza de que uma visita de S. Excia. será suficiente para impedir um erro cujas conseqüências são irremediáveis.

CESAR MAIA é prefeito do Rio.


Marinha proíbe Incra de entrar em reserva no Rio

FONTE: Redação Terra
DATA: 26/02/2005

Técnicos do Instituto Nacional da Reforma Agrária (Incra) estão proibidos pela Marinha de visitar a Ilha da Marambaia, que faz parte da reserva ecológica da Restinga, no Rio de Janeiro.

Segundo informações do jornal O Globo, os técnicos estão proibidos de visitar a área desde o carnaval, e as visitas são a etapa final no trabalho de concessão de terras a famílias de descendentes de escravos que ocupam terras na região desde o século XIX.

O prefeito César Maia (PFL) diz temer a degradação da ilha, uma reserva de vegetação de restinga no litoral do Estado que é Área de Proteção Ambiental. Ele diz que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria revogar o decreto que estabelece direitos sobre a terra do local.

A procuradora Fabiana Rodrigues diz que, na verdade, não há razão para discussão, já que tanto os moradores quanto a Marinha estão de acordo sobre a necessidade de preservação do local. Além disso, os descendentes de escravos, cujo direito às terras ficou garantido depois de uma ação de 2002 que provou que a área foi habitada por quilombolas, já ocupam a região há mais de cem anos.

O Incra reitera que seu trabalho apenas legalizaria a situação das famílias que já estão estabelecidas no local. Como a regularização fundiária se dá através de uma titularidade coletiva, os descendentes de escravos também não poderão vender os terrenos ou casas.


Proibição de acesso de técnicos do órgão
impede demarcação das terras ocupadas
por descendentes de escravos

FONTE: O GLOBO
DATA: 26/02/2005

Estão suspensas pela Marinha, desde o carnaval, as visitas de técnicos do Incra à Ilha da Marambaia, que faz parte da Restinga, para a demarcação das terras dos descendentes dos quilombolas. Esta é a etapa que falta para concluir o trabalho de concessão de titularidade coletiva da terra às famílias de descendentes de escravos, que desde o século XIX ocupam terras na região. Segundo o gestor do Programa de Igualdade, Gênero e Etnia do Incra, Celso Souza Silva, o comandante do centro de adestramento da Marinha disse ter recebido ordens superiores para não permitir a entrada dos técnicos.

Em artigo publicado ontem no GLOBO, o prefeito Cesar Maia afirma temer a degradação ambiental da ilha, a partir da demarcação do solo. A Marambaia é um paraíso ecológico, Área de Proteção Ambiental (APA) e uma das últimas reservas de vegetação de restinga do litoral fluminense. Segundo o prefeito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria cancelar o decreto 4.887, que estabelece direitos sobre o solo, sob o risco de ver a destruição do patrimônio histórico e natural do Rio.

- A demarcação abrange integralmente a APA e vai propiciar uma ocupação desordenada provocada pela alegação de uma descendência auto-atribuída e numa área em que a existência de quilombo é mera hipótese não comprovada. - disse o prefeito.

De acordo com a procuradora Fabiana Rodrigues, graças a uma ação civil pública que data de 2002, foi comprovado que a área foi habitada por quilombolas, o que garante aos descendentes dos escravos o direito à terra. Por se tratar de uma titularidade coletiva, seus ocupantes não poderão vender os terrenos ou casas.

- A Constituição manda entregar o terreno aos descendentes. Não há riscos de degradação ambiental, pois a área demarcada já está ocupada há mais de cem anos. Além do mais, há um consenso entre moradores e a Marinha pela preservação do local. Não há polêmica, mas sim uma manifestação política para impedir a posse da área - disse a procuradora Fabiana Rodrigues.

Segundo a tesoureira da Associação de Moradores da Marambaia, Joeci Eugênia, atualmente moram na ilha 115 famílias. Outras 42 famílias, que atualmente moram fora, também terão direito a um terreno.

- Era gente que teve de sair porque não tinha mais como morar numa casa só com outras sete famílias. Todos os moradores vivem da pesca artesanal e preservam o local - disse Joeci, que desde que casou há dez anos vive na casa do tio do marido.

Ministra diz que artigo contém incorreções

O Incra garantiu que somente as famílias remanescentes de escravos terão direito à regularização fundiária. Através de sua assessoria, a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Promoção e Igualdade Racial, disse que o artigo de Cesar Maia contém uma série de pontos obscuros e incorreções. Segundo ela, o governo federal se manifestará sobre o assunto, em breve.

OPINIÃO > Vale tudo
CONDIZENTE COM os tempos que vivemos, em nome da justiça social pode-se degradar um área de proteção ambiental na Restinga da Marambaia. E por decreto presidencial.

REGIÃO DE desembarque de escravos, a Marambaia teria abrigado um quilombo (onde se escondiam negros foragidos). O decreto distribui terras para descendentes dos quilombolas, a título de indenização histórica.

ANTES DE se questionar a possibilidade da existência de um quilombo tão próximo da senzala, a questão é discutir a justificativa para se abrir as portas da Restinga à favelização.

COMO EM nome do social tudo parece possível, cabe alertar que há registro de quilombos no Leblon.


Incra barrado na Marambaia

Técnicos esperam aval da Marinha para demarcar ilha

FONTE: Jornal do Brasil
DATA: 26/02/2005

Os moradores da Vila de Marambaia, que tentam regularizar a posse de suas casas na Justiça, aguardam um consenso entre o Incra e a Marinha a respeito do cumprimento do decreto presidencial 4.887, de 20 de novembro de 2003. O decreto regulamenta a demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes do quilombo da Vila de Marambaia, e determina que o Incra faça a demarcação. Mas os funcionários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária estão impedidos de entrar na ilha - a área fica sob o controle da Marinha, que suspendeu a autorização dada aos funcionários do órgão.

Celso Souza Silva, gestor do Programa de Promoção de Igualdade, Gênero, Raça e Etnia do Incra no Rio, informa que o mapeamento da área foi iniciado em 19 de novembro, mas que o trabalho está suspenso desde 3 de fevereiro, quando a Marinha impediu o embarque da equipe para a ilha alegando que a autorização foi suspensa.

- Sem a autorização, não temos como chegar à ilha, porque o barco é da Marinha - explica Celso.

De acordo com o gestor, a superintendência regional do Incra prepara um relatório para encaminhar à sede do instituto em Brasília, ao mesmo tempo em que aguarda nova autorização para retomar o trabalho.

O prefeito Cesar Maia, que esteve na ilha na semana passada, defende que o decreto seja cancelado, pelo fato de a ilha ser uma Área de Proteção Ambiental (APA).

- A ocupação desordenada e a saída da Marinha na ilha podem ter desdobramentos graves. Tenho certeza de que, se for lá, o presidente Lula vai entender que os termos do decreto que assinou são inadequados - afirma Cesar.

Dionato de Lima Eugênio, 63 anos, presidente da Associação de Moradores da Vila de Marambaia, contesta:

- Não queremos que a Marinha deixe a ilha, temos uma boa convivência. Só queremos o que é nosso por direito, nossas casas, nossa vila. Não somos invasores. Estamos aqui desde a época das nossas bisavós.

Segundo Dionato, que nasceu e sempre viveu na ilha, moram na vila 534 pessoas, a maioria descendente de escravos - a vila teve origem com africanos que eram submetidos a regime de engorda na ilha, antes de serem vendidos.

Até o fechamento desta edição, o Serviço de Relações Públicas da Marinha não havia respondido ao JB.


Carta-resposta para César Maia

FONTE: ARQIMAR (texto publicado no Observatório Quilombola)
DATA: 01/03/2005

Carta-resposta dos quilombolas da Ilha da Marambaia ao artigo de César Maia, prefeito da cidade do Rio de Janeiro, publicado no jornal O Globo no dia 25 de fevereiro de 2005

Prefeito César Maia, nós, os remanescentes de quilombo da Ilha da Marambaia, localizada no município de Mangaratiba, gostaríamos de expressar aqui nesta carta a nossa triste surpresa quando lemos na sexta-feira passada seu artigo a respeito desta Ilha e de nós, moradores.

Prefeito César Maia, não tivemos contato nenhum com o senhor durante sua visita à Ilha. Pelo contrário, fomos impedidos de conhecê-lo pelo comando da Marinha enquanto a barca, único transporte autorizado a atracar na Ilha, transportava o senhor. O Senhor provavelmente não percebeu que muitos de nós estávamos dentro da barca porque fomos obrigados pelos militares a permanecer no porão durante mais de duas horas, até que o senhor embarcasse em Itacuruçá e desembarcasse na Ilha. Senhor prefeito, este momento da sua visita à Ilha nos fez lembrar mais uma vez quem somos e de onde viemos: somos descendentes diretos dos escravos que vieram nos porões dos barcos do grande traficante e fazendeiro Breves aqui para a Ilha da Marambaia. Somos quilombolas, porque resistimos àquelas violências e continuaremos resistindo às atuais.

Prefeito César Maia, acreditamos que foi a falta d de contato conosco e com nossa realidade que levou aos enganos do seu artigo. Para que estes enganos não se repitam e se multipliquem, principalmente para que eles não se tornem uma covarde mentira, que repetida muitas vezes se transforma em realidade aos olhos de quem não nos conhece, lhe oferecemos aqui algumas informações sobre a ilha e sobre nós.

Prefeito César Maia, a Ilha da Marambaia, como o senhor mesmo chama a atenção, é um importante patrimônio ambiental do Estado do Rio de Janeiro. Porém, não são nossas famílias, que moram há mais de 150 anos na Ilha, que degradam o meio ambiente. Se fosse assim, a Ilha não existiria mais. Não fomos nós que criamos os vários lixões a céu aberto que existem hoje na ilha, sem nenhum tipo de tratamento; não somos nós que realizamos treinamentos de artilharia com munição real, durante as noites, violando a paz de nossos lares, assustando nossas crianças e afastando pássaros e animais; não somos nós que explodimos bombas no fundo da baía da ilha, berçário de peixes e camarões; não somos nós que realizamos disparos de canhões do alto mar contra as pedras da ilha, afastando várias espécies marinhas e colocando em risco os barcos de nossos pescadores.

Mas, prefeito César Maia, não é apenas a natureza que sofre com a ocupação da Ilha da Marambaia pela Marinha. Nós, moradores da Ilha, também sofremos com todas as proibições que a administração militar nos impõe e que violam nossos direitos básicos. A energia elétrica nos é negada, impedindo que possamos desenvolver nossa produção. Nossa correspondência é constantemente violada. Nosso direito de ir e vir é limitado porque estamos submetidos ao transporte militar para a ilha, que não leva em conta nossas necessidades e tem seus horários alterados constantemente, sem aviso. Por isso, no caso de urgências, temos que levar nossos doentes em pequenas e demoradas canoas até o continente. Por isso, nossos filhos não podem assistir regularmente às aulas, já que os horários da barca não são compatíveis com o horário escolar. Nosso direito à moradia é violado porque não nos permitem reformar nossas antigas casas, algumas ainda de pau-a-pique, nem construir novas para nossos filhos que crescem e se casam. Já houve caso em que a construção de um banheiro levou à expulsão de uma família da ilha. Essas proibições são uma tática para nos fazer desistir de nosso direito à terra e nos expulsar aos poucos da Ilha, como já aconteceu com muitos de nossos parentes.

Prefeito César Maia, nós, os moradores da Ilha, tiramos nosso sustento da pesca artesanal, a que menos agride o meio ambiente. Agressores são os barcos industriais, que invadem as águas próximas da Baía de Mangaratiba sem nenhum controle, e que com suas redes de arrasto arrasam nossos peixes e com suas pás extraem criminosamente nossos mexilhões.
Nós, prefeito, comunidade quilombola da Ilha da Marambaia, não somos uma hipótese. Somos, sim, as testemunhas de nossa própria remanescência.

Mangaratiba, 28 de fevereiro de 2005.

ARQIMAR - Associação de Remanescentes de Quilombo da Ilha da Marambaia
Fundada em 2003


Esse Cesar...

FONTE: Tribuna da Imprensa
DATA: 02/03/2005

A comunidade da Ilha de Marambaia não gostou nada do artigo do prefeito Cesar Maia, no qual questionou o direito dos moradores de receber titulação das terras.
Por isso, a Associação de Remanescentes de Quilombo da Ilha da Marambaia esclarece que o direito às terras foi conquistado por estar enquadrada no Artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias, da Constituição. Que prevê a titulação das terras aos remanescentes dos quilombos.


Comunidade quilombola contesta artigo de César Maia

por Bruno Weiss

FONTE: Manchete Socioambiental
DATA:03/03/2005

A titulação e homologação da ilha de Marambaia, no litoral sul fluminense, como sede de Quilombo pelo governo federal, foi alvo de um ataque do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (PFL). Por meio de artigo publicado no jornal O Globo, no último dia 25 de fevereiro, Maia questiona a ascendência dos moradores da ilha e defende que o território permaneça sob controle da Marinha. Nesta segunda-feira 28, a Associação de Remanescentes de Quilombo da Ilha da Marambaia (ARQIMAR) divulgou uma carta rebatendo os argumentos expostos pelo prefeito carioca.

A ilha de Marambaia é considerada Área de Preservação Ambiental (APA) e é habitada por mais de 120 famílias. Esta comunidade espera pelo cumprimento do Decreto nº 4.887, publicado em 21 de novembro de 2003 no Diário Oficial, que regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos.

No final de julho do ano passado, o Partido da Frente Liberal (PFL) apresentou uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a anulação do Decreto e de seu efeitos legais. Em outubro, o Instituto Socioambiental e outras entidades da sociedade civil entraram com um pedido de participação no julgamento da ADIN, para defender o Decreto, na qualidade de "amicus curiae" (amigos da causa).
Saiba mais.

A ilha de Marambaia foi utilizada até meados do século XIX como ponto de chegada de escravos africanos, que permaneciam lá sob regime de engorda antes de serem negociados. Existe ainda hoje uma senzala na ilha. Com a publicação do Decreto, o trabalho de demarcação ficou à cargo do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Desde o começo de fevereiro, porém, os técnicos do Incra estão impedidos de acessar a ilha pela Marinha, responsável desde os anos 70 pelo controle e uso da ilha. Na carta divulgada esta semana, a Arqimar relata as pressões promovidas por membros da Marinha no sentido de expulsar as famílias da ilha, como a proibição de melhorias nas habitações da comunidade e o cerceamento do transporte ao continente.

Em seu artigo, intitulado "Crime ambiental e erro histórico", Cesar Maia questiona a ascendência da comunidade ao dizer que "é um erro supor que teriam existido quilombos numa área como aquela, com as características comerciais citadas, e onde a impossível mobilidade e a arriscada proximidade certamente impediriam que as fugas produzissem quilombos".

Um relatório técnico-científico realizado por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenado pelo antropólogo José Maurício Arruti, formado pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, contudo, levanta uma série de evidências genealógicas e históricas que demonstra a relação direta e indireta de parentesco entre os ilhéus da Marambaia com os antigos escravos.


Comunidade Negra da Ilha da Marambaia:
Erros Conceituais como Instrumentos de Exclusão

Texto de Célia Ravera, Presidente do ITERJ, sobre os erros contidos no artigo do César Maia

FONTE: E-mail de Maria Betânia (Procuradoria da República no Estado do Rio de Janeiro)
DATA: 03/03/2005

Em artigo assinado por César Maia, Prefeito do Rio, sob o título" Crime Ambiental é erro histórico", publicado pelo Jornal O GLOBO, em sua edição de 25 de fevereiro deste ano, questiona-se o direito ao reconhecimento de domínio à população negra residente na ilha da Marambaia no litoral de Mangaratiba em uma área considerada de segurança nacional e controlada por militares. Como registra o artigo, era neste local que o "Breves" - senhor do café e do tráfico de escravos no Rio de Janeiro do século XIX, mantInha seus escravos para "engorda" antes de serem vendidos para outras fazendas.

O Prefeito questiona o Decreto Federal 4.887 de 20 de novembro de 2003, que define as condições dos territórios para serem caracterizados como áreas quilombolas, contestando, deste modo, o direito sobre o território das comunidades negras que residem em Marambaia há mais de 100 anos.

A primeira objeção a este Decreto refere-se ao auto reconhecimento por parte da comunidade de sua condição de quilombolas, qualificando como ingênuo esta atribuição porque "... quem se disser descendentes de hipotéticos quilombos terá imediatamente direito às terras que teriam pertencido aos seus ancestrais".

Sem entrar em considerações sobre o direito ao auto reconhecimento, cabe registrar que o Prefeito ignora a existência de um Laudo antropológico sobre a comunidade de Marambaia, de cerca de 350 páginas, elaborado em parceria pelo Núcleo de Referência Agrária, Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas, ambos da UFF e a ONG KOINONIA, com a colaboração do departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Segundo este laudo, os atuais moradores contam que, pouco antes de morrer, o "Breves" teria deixado toda a ilha para os ex-escravos que ainda permaneciam nela. Não existem documentos que comprovem esta doação, mais esta atitude do "Breves" encontra correspondência com uma prática documentada historicamente em todo o território fluminense do século XIX, em que os fazendeiros doavam terras a ex-escravos, pouco antes e depois da abolição da escravatura. Assim fez o irmão do Comendador, que sacramentou em seu inventário a doação das fazendas das famílias aos ancestrais dos atuais moradores da comunidade de Bracuhy, em Angra dos Reis, também em processo de reconhecimento como remanescentes de quilombos, e Santana em Quatis.

A pesquisa histórico-documental efetuada permite caracterizar a comunidade pela forma de apropriação coletiva da terra, pela homogeneidade de traços culturais e ideológicos, consolidados historicamente pela existência de dois blocos de parentesco, a estruturação sócio-política dos qrupos, que respondiam a um chefe por núcleo que a sua vez, reunidos em uma espécie de conselho, integrado pelos representantes dos grupos, deviam responder a autoridade de alguns comissários, que representavam os moradores das ilhas frente às autoridades do continente. O relatório antropológico também aponta evidências sobre como os ilhéus de Marambaia descendem, direta ou indiretamente, de famílias de escravos de duas fazendas da família Breves (e mesmo de fazendas anteriores a estas), tendo estabelecido uma posse plena e pacífica sobre a Ilha logo após a morte do Comendador Breves, em 1889, e do abandono da Ilha por parte de sua família.

Desta forma, a comunidade da ilha de Marambaia se enquadra na caracterização sociológica apresentada por Almeida (1989),* "terras de preto": regime próprio de uso do território, autonomia econômica pela pesca artesanal, normas específicas instituídas e acatadas de maneira consensual pelos grupos familiares que compõem uma unidade social.
Para o espírito da legislação sobre quilombos também à "terra de pretos" é outorgado o direito à legitimação do território ocupado. Para o Senhor Prefeito, entretanto, a comunidade da Marambaia não teria direito ao reconhecimento da
legitimidade da ocupação do território que ocupa, porque a "arriscada proximidade impediriam que as fugas produzissem quilombos".

Esta afirmação envolve outro notório equívoco, já que desconhece o direito de reconhecimento das comunidades que consolidaram durante várias gerações o "...esforço inaudito de auto-reconstrução no fluxo do seu processo de
desfazimento", como observa o saudoso Darcy Ribeiro.

No triste período da política escravista os africanos foram impedidos de agruparem-se segundo suas etnias e grupos lingüísticos de origem, e dispersos por plantações, por engenhos e por minas, as famílias perderam a possibilidade de comunicar-se entre si. A forma solidária de vida social e produtiva protagonizada por estas comunidades negras, como os ocupantes da Ilha da Marambaia, participa historicamente do chamado de liberdade proclamado pelos quilombos: é uma luta de preservação cultural e dignificação do homem que ganha a grandeza de rebeldia legítima.

È preciso, também, registrar que a área que a comunidade reivindica resulta em uma proposta que contempla a permanência da Marinha na Ilha, havendo selecionado - e assim consta no Laudo Antropológico - o território vital à sua sobrevivência e segurança.
Voltando ao artigo do Prefeito César Maia: o crime ambiental a que se refere o título da matéria é premonição de que a legalização das terras quilombolas provocará o crescimento da ocupação desordenada com a conseqüente agressão ao meio ambiente, hoje protegido pela presença das Forças Armadas.

É fato que, como diz o Prefeito estamos considerando uma Área de Proteção Ambiental (APA) com complexo de praias, ilhas e montes de inusitada beleza, aos que se chega só por barco. O poder do Estado para coibir atividades que a lei condena e a situação geográfica do local - acesso exclusivo por via marítima - permite afirmar que é possível manter a preservação ambiental mediante termos de ajuste de condutas e normas específicas para regulamentar o acesso a área, sem comprometer a livre circulação dos moradores. Lembramos, neste sentido, a Ilha de Fernando de Noronha.

Estas reflexões as faço por julgá-las pertinentes ao propósito do Instituto Estadual
de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro - ITERJ que incorpora em seu programa o reconhecimento de domínio das áreas tradicionalmente ocupadas pelos afro-descendentes como intervenção estratégica na preservação da identidade sócio-cultural dessas comunidades.


Preconceito

por Fábio Reis Mota(antropólogo)

FONTE: O GLOBO
DATA: 05/03/2005

O Brasil é o país dos contrastes. Temos nos últimos anos passado por formidáveis transformações. Ao mesmo tempo, assistimos quotidianamente a ações de desconsideração aos direitos fundamentais de determinadas camadas de nossa sociedade. Um caso notório é a recente polêmica envolvendo o reconhecimento da comunidade remanescente de quilombos da Ilha da Marambaia. O processo de reconhecimento da comunidade da Marambaia como quilombo se iniciou em 1999. Momento em que a população local vinha sendo impelida a sair de suas casas por conta de ações de reintegração de posse impetradas pela Marinha e a Advocacia Geral da União, com a alegação de tratar-se de "ocupações irregulares".

A Comissão Pastoral da Terra elaborou um dossiê contendo material histórico a respeito da situação dos moradores da Ilha. No final de 1999, este dossiê foi enviado à Fundação Cultural Palmares, órgão federal, à época, responsável pela aplicação do artigo 68 dos Atos de Disposição Constitucional Transitórios da Constituição Federal, que reconhece a titularidade das terras aos remanescentes de quilombos.

O que os moradores da Ilha almejam é o acesso a sua terra para moradia e cultivo de pequenas roças e a possibilidade de pescarem com suas pequenas embarcações. Assim como previsto pelo decreto 4.887 /03 - o qual não se refere especificamente à Marambaia,mas ao processo de reconhecimento e titulação de quilombos em território brasileiro - em área de segurança nacional o uso do solo deve ser perfeitamente compatível com os interesses do Estado.

Ademais, a titulação, assim como previsto no decreto, é necessariamente coletiva, pró-indiviso e com cláusulas de inalienabilidade e impenhorabilidade, assegurando a preservação do patrimônio histórico, cultural e social da Ilha da Marambaia.

Sendo assim, não estamos tratando de ocupação irregular, nem de um conceito de quilombo frigorificado pela lei e pelo imaginário social, ou mesmo de um processo de favelização de um patrimônio ambiental (visão mítica que propriamente concebe a natureza como elemento intocado e contemplativo, ou seja lá o que isso venha caracterizar!), mas uma área de uma comunidade centenária que às custas de muita mobilização conseguiu ao menos uma mínima visibilidade e garantia de um direito constitucional em um espaço público informado por muitas visões e posições desinformadas, por vezes preconceituosas que,surpreendentemente, reproduzem uma velha forma de tratar os direitos de alguns em direito de não ter direito.


Tema em Discussão: Dívida Social

FONTE: O GLOBO
DATA: 05/03/2005

Limites

Um artigo do prefeito Cesar Maia publicado no GLOBO sobre o risco de ocupação de uma das regiões litorâneas mais preservadas da cidade, a Restinga da Marambaia, coloca em questão a validade de atos do poder público baseados em princípios como o de "justiça social" e "reparação histórica".

Com a chegada ao poder do PT, e com ele de representantes de grupos sociais organizados, esses princípios passaram a justificar atos no mínimo polêmicos. É o caso das cotas raciais para privilegiar negros e pardos no acesso ao ensino superior, medida que revoga a base de qualquer sistema de ensino: a meritocracia.

No caso da Marambaia, trata-se da demarcação de terras, sob controle da Marinha, para serem distribuídas a descendentes de quilombolas - em nome da tal reparação histórica.

A região foi importante entreposto de escravos, e ali teria existido um quilombo, nome dado ao local onde se escondiam escravos foragidos. A polêmica é, em síntese, se vale a pena a sociedade pagar o preço do risco da ocupação desordenada - leia-se, favelização -
daquela área em troca dessa suposta reparação. O assunto merece reflexão.

"Dívida social" é um termo cunhado ainda no regime militar para designar o resultado da carência histórica de políticas públicas a favor da população carente.

Com a redemocratização chegou a hora do resgate dessa dívida. Que se tornou mais premente com o governo Lula.

Mas reconhecer as carências não pode significar desconhecer a necessidade de se avaliar, sob todos os ângulos, cada solução dada para o alegado pagamento dessa dívida.


Crime Ambiental e Erro Histórico

Nota sobre a campanha política contra a regularização das terras da comunidade da Ilha da Marambaia e o decreto 4887

por José Maurício Arruti - Coordenador do Observatório Quilombola

FONTE: Observatório Quilombola
DATA: 08/03/2005


A Ilha da Marambaia fica localizada no litoral de Mangaratiba (RJ), em uma área considerada de segurança nacional e controlada por militares. Só se chega a ela por meio de barco da Marinha, com autorização prévia.

Era na Ilha da Marambaia que o "Breves" - senhor do café e do tráfico de escravos no Rio de Janeiro do século XIX - mantinha seus escravos para "engorda" antes de serem vendidos para outras fazendas. Os moradores da ilha contam que, pouco antes de morrer, "Breves" teria deixado toda ilha para os ex-escravos que ainda permaneciam nela, sendo os atuais moradores descendentes diretos destes.

Mas como essa doação foi feita "só de boca", a família Breves não cumpriu o compromisso assumido pelo antigo proprietário e vendeu as terras da ilha para a União (Companhia Promotora de Indústrias e Melhoramentos). Ainda assim, as famílias negras permaneceram ali em posse pacífica até 1939. Nesse ano, a Escola de Pesca Darcy Vargas instalou-se na ilha, inaugurando um período de grande prosperidade. A partir de 1971, porém, depois de fechada a escola, a ilha passou à administração militar da Marinha e a comunidade começou a viver um período de mudanças drásticas.

Segundo relatos dos moradores, a implantação dos serviços da Marinha na Ilha fez com que eles fossem proibidos de continuar cultivando suas roças de subsistência, de construir casas para os filhos ou mesmo de reformar ou ampliar as já existentes, e perdessem os serviços públicos antes oferecidos, sem nenhum tipo de compensação por tais perdas, além de serem submetidos a uma pressão psicológica constante, como uma forma de expulsão "branca". A partir de 1998, esse método foi complementado pelas ações judiciais de Reintegração de Posse, que a Marinha move contra os moradores alegando que estes seriam invasores da área. Sem apoio jurídico e, na sua maior parte, não alfabetizados, os condenados foram sendo expulsos.

A Diocese de Itaguaí, por meio da Pastoral Rural, montou um primeiro dossiê sobre a situação daquelas famílias em 1998 e o enviou para várias autoridades. Uma advogada da Fundação Cultural Palmares tentou conhecer a situação pessoalmente, mas foi impedida de ter acesso ao grupo pela Marinha. Rapidamente o assunto voltou ao silêncio e o processo de expulsão dos moradores foi retomado.

Com base em informações técnicas fornecidas por pesquisadores que trabalhavam na Ilha da Marambaia, o Ministério Público Federal - MPF moveu uma Ação Civil Pública contra a Marinha de Guerra e a Fundação Cultural Palmares - FCP, exigindo da primeira a suspensão das ações (físicas e jurídicas) contra os moradores da ilha e da segunda, a realização dos estudos necessários à verificação da aplicabilidade do artigo constitucional 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias - ADCT à comunidade da Marambaia.

Em decorrência disso, a FCP nos encomendou a realização do laudo antropológico, que foi realizado por uma extensa e qualificada equipe de pesquisadores ligados a diferentes universidades. O laudo (um volume de cerca de 350 folhas, montado em parceria por KOINONIA, pelo Núcleo de Referência Agrária e pelo Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas, ambos da UFF, e com a colaboração do Departamento de História da UFRRJ) foi entregue à Fundação Palmares em dezembro de 2003 e ao Ministério de Desenvolvimento Agrário, INCRA, SEPPIR e MPF (RJ e 6a. Câmara de Brasília) no início de 2004. O relatório produzido levantou claras evidências de que os ilhéus da Marambaia descendem, direta ou indiretamente, de famílias de escravos de duas fazendas da família Breves (e mesmo de fazendas anteriores a estas), tendo estabelecido uma posse plena e pacífica sobre a Ilha logo após a morte do Comendador Breves, em 1889, e do abandono da Ilha por parte de sua família.

Os processos da Marinha, que têm levado à expulsão dos moradores da área, coincidem justamente com o momento de maior popularidade do tema das "comunidades remanescentes de quilombos", e se acirraram depois das primeiras iniciativas da Diocese de Itaguaí na defesa daquelas famílias, pautada em tal argumentação. De forma coerente, tais processos são cuidadosa e trabalhosamente fragmentados em processos individuais, distribuídos por diferentes varas, como forma de impedir que o caráter coletivo do conflito se manifeste. No entanto, uma leitura em conjunto dos processos aos quais pudemos ter acesso não deixa dúvidas sobre tratar-se de uma ação que incide sobre uma coletividade: o mesmo autor, o mesmo objeto e as mesmas argumentações, tendo por réus pessoas que vivem sob as mesmas condições, fazendo parte de um grupo social estreitamente tecido por relações de parentesco e de memória. Qualquer argumentação jurídica que se sustente em particularidades relativas a um ou outro caso em pauta tem por objetivo, em primeiro lugar, obscurecer a natureza coletiva do conflito instaurado pelas ações práticas e judiciais da Marinha.

Por isso, o artigo Crime ambiental e erro histórico (Jornal O Globo, 25.02. 2005), assinado pelo prefeito César Maia, causa estranheza e grande preocupação, uma vez que constitui uma peça repleta de confusões e omissões. Aproveitamos a oportunidade da publicação desse texto para alertar a população e os movimentos sociais sobre a campanha que tal peça jornalística articula, assim como para oferecer alguns esclarecimentos. A seguir procuraremos comentar cada um dos tópicos que o prefeito do Rio de Janeiro levanta contra a presença dos moradores na Ilha.

Degradação Ambiental

O primeiro argumento do prefeito para a manutenção exclusiva da Marinha na Ilha da Marambaia é o de que a ilha constitui uma importante área de preservação da diversidade biológica e do patrimônio histórico graças à presença das forças armadas, que teriam conseguido um equilíbrio entre treinos militares e preservação ambiental e patrimonial.
Como documenta uma matéria jornalística publicada no mesmo jornal, no dia seguinte à publicação do artigo do prefeito, sob o título "Rajadas e explosões num paraíso preservado" (O Globo, 26.02.2005, p.XX), os treinamentos militares são, na verdade, a maior ameaça ao patrimônio natural da Ilha.

Um efeito importante dos treinamentos militares são as constantes derrubadas de árvores e as queimadas na mata atlântica, para abrir passagens para os tanques de guerra ou em função dos combates simulados. Mas caberia acrescentar que tal ameaça paira não só sobre espécies exóticas, nativas da restinga, mas também sobre o patrimônio histórico e arqueológico, assim como sobre a população residente.

As ruínas das fazendas dos Breves existentes ali, incluindo uma capela do século XIX, que era freqüentada e preservada pelos ilhéus, foram destruídas nesses treinamentos. O mesmo tende a acontecer com as ruínas das senzalas. Uma delas, que a administração militar diz preservar, na realidade foi profundamente modificada, sem qualquer consulta ou autorização do IPHAN, para abrigar um hotel.

Os combates colocam em risco também, ainda que isso pareça menos relevante às autoridades, a vida dos pescadores e a integridade de suas casas. Além de acidentes envolvendo minas terrestres espalhadas pela ilha, há casos de casas atingidas por "balas (de canhão) perdidas" e são numerosos os relatos sobre quintais e roças destruídas pelas topas em treinamento.

Por tudo isso e buscando uma solução negociada, a comunidade definiu sua demanda territorial (por meio do laudo antropológico) reivindicando a posse sobre algo em torno de 40% da Ilha e não os 75% de que fala o prefeito. Sua reivindicação prevê, portanto, a manutenção da Marinha na Ilha, mas restrita às atuais instalações militares e aos trechos já altamente impactados por seus treinamentos. O que lhes importa é a garantia de autonomia sobre as áreas que sempre lhe foram de uso comum e que ainda têm condições ambientais de voltarem a ser. Não são os moradores que degradam e pretendem exclusividade.

Quilombos e auto-atribuição

Outro argumento do prefeito é o de que o decreto presidencial 4887, que desde novembro de 2003 regulamenta a aplicação do artigo 68 das ADCT da Constituição Federal, estaria sustentado em visões equivocadas e distantes da realidade, tanto por atribuir aquelas terras aos ilhéus da Marambaia quanto por privilegiar a auto-atribuição como critério de reconhecimento de indivíduos como remanescentes de quilombos.

Nesse ponto o prefeito confunde debates e manipula a desinformação do público mais amplo sobre o assunto. Ele usa um conceito equivocado de "remanescentes de quilombos"e sobrepõe os debates sobre a Marambaia e sobre o decreto presidencial como se fossem um só.

Os debates travados entre movimento social, parlamentares e acadêmicos desde 1992 chegaram a um consenso, ainda mal conhecido pelo público mais amplo, em torno da ressemantização do termo quilombos, no contexto do artigo constitucional. Se na historiografia o quilombo era a designação atribuída a um grupo de escravos fugidos e se na mitologia criada em torno do tema, isso remete a uma comunidade tipicamente africana, isso não se aplica ao conteúdo do artigo 68. Este artigo lança mão desta figura histórica e ideológica, por meio da expressão "remanescentes de quilombos", para contemplar aquelas comunidades que, tendo ligaçôes históricas com a população africana escravisada no Brasil, se mantiveram realtivamente distintas dos outros setores da sociedade brasileira por perseverarem uma determinada organização social, sustentata no parentesco, na memória e na posse de um território comum.

Tais comunidades, portanto, não são apenas aquelas formadas por meio da fuga, mas também por meio de outros mecanismos, quase sempre variações da forma de apossamento de uma terra coletiva. Nelas o controle dos recursos básicos se dá através de normas específicas instituídas pelo grupo para além do código legal vigente, e acatadas pelos vários grupos familiares que compõem a unidade social.

É neste sentido - repito, acatado pelo movimento social, pela academia e por instâncias jurídicas como o Ministério Público Federal e a Advogacia Geral da União, além do próprio governo Federal - que a Ilha da Marambaia se enquadra, de forma absolutamente coerente, como está extensamente documentado no laudo antropológico que produzimos sobre o grupo, na caracterização sociológica acerca das chamadas "terras de preto", que hoje sustenta a interpretação pacífica do conceito de remanescentes de quilombos.

Favelização

Outro argumento levantado pelo prefeito é o de que o reconhecimento do direito dos ilhéus da Marambaia às terras que ocupam há mais de 150 anos daria origem a um sem número de alegações de direitos que abriria espaço para o parcelamento das terras e a transformação da APA em "área residencial precária" e local de economia informal. Como os editoriais de O Globo traduziram, ao reproduzirem como seus tais argumentos, trata-se do alerta contra a "favelização" da ilha.

Neste ponto, além de disseminarem desinformação, tais opiniões revelam um dramático preconceito contra essa população. Está evidente que o medo de favelizar a ilha corresponde a uma decisão direta e indisfarçada de favelizar a sua população, ao expulsá-la das suas terras para qualquer outra "área residencial precária". Mas o erro fundamental neste ponto, é o de sugerir que a regularização dessas terras daria origem a direitos comerciais sobre elas. Ao contrário, a regularização das terras de remanescentes de quilombos se dá por meio de um título coletivo e indiviso, sobre o qual apenas os atuais moradores e seus descendentes diritos plenos. A regularização como terra quilombola é a maior garantia que tais populações têm de as manterem fora de alcance da especulação imobiliária

Por fim, não parece acidental que o o prefeito tenha feito, como dizíamos, tal confusão entre os debates sobre a Marambaia e sobre o decreto presidencial, sobrepondo-os como se fossem um só. Quando ele aconselha o presidente a não esperar o pronunciamento do STJ sobre a Ação Direta de Inconstitucionalidade que o PFL moveu contra o decreto presidencial, providenciando ele mesmo a anulação do seu decreto, ele fala como homem de partido. Quando confunde esse tema com a questão específica da Marambaia, ele fala como pré-candidato à presidência da República em um movimento de aproximação das Forças Armadas. O patrimônio ambiental não é senão o último argumento, mesmo assim forjado com o custo da falsificação, que o seu discurso, ponto de convergência entre os seus interesses, os interesses da Marinha e do PFL, pode mobilizar contra direitos legítimos e amplamente reconhecidos daquela população.


Quilombos na lista de espera

FONTE: Jornal do Brasil
DATA: 28/03/2005

Órgão federal promete regularizar lotes da Ilha de Marambaia ainda este ano
A Ilha de Marambaia é prioridade na lista de regularização fundiária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas outras três comunidades de descendentes de quilombos também esperam a conclusão do processo de titularidade de posses. Ontem o Jornal do Brasil publicou reportagem sobre a ocupação de Marambaia, em que moradores descendentes de quilombos do século 19 vivem situação precária.

A procuradora geral da Fundação Cultural Palmares, Ana Maria Lima de Oliveira, informou que ainda esta semana será publicado no Diário Oficial da União o termo de cooperação técnica entre a FCP e o Incra, que agilizará o processo de demarcação dos 743 territórios quilombolas no Brasil. Ela explicou que a fundação ficará responsável pelas terras que já foram tituladas e o Incra por aquelas que ainda não foram.

- O Estado brasileiro tem o dever de devolver estas terras aos proprietários - atestou.
Na cidade de Quatis, no Sul fluminense, a comunidade de Santana, composta de 21 famílias, recebeu em 2000 o título de reconhecimento de domínio. Para registrá-lo, contudo, o cartório do município alegou dúvidas em relação aos documentos apresentados.
- É preciso checar se os títulos dos proprietários foram forjados ou se são legítimos, para que o pagamento das indenizações seja correto - diz Ana Maria.

As indenizações às quais Ana Maria se refere serão pagas às pessoas que compraram as terras dos descendentes de escravos. De acordo com ela, o Incra já tem a verba necessária para o procedimento.

A comunidade de Rasa, localizada na periferia do município de Armação de Búzios, teve sua delimitação territorial concluída em 1999. Segundo a ONG KOINONIA, o traçado não inclui todo o bairro da Rasa, mas apenas as famílias descendentes dos escravos que se encontram espalhadas pelo bairro.

No município de São Pedro d'Aldeia, no bairro Botafogo, fica a Fazenda Caveira, composta de 224 famílias. Os habitantes são descendentes dos escravos da antiga Fazenda Campos Novos, sesmaria do século 19. O reconhecimento e a delimitação foram feitos em 1999. Hoje a área demarcada sofre com as atividades ilegais de extração de areia.

- Todas as três comunidades estão à frente na lista por já terem iniciado o processo de regularização judicialmente. Mas os moradores ainda sofrem sem luz, sem saneamento, a maioria é analfabeta e não tem registro de nascimento - diz Ana Maria.

O impasse entre o Incra e a Marinha na Ilha de Marambaia já dura dois meses. Tempo suficiente para que o Incra terminasse o trabalho de delimitação das terras, não fosse a barreira dos militares. O trabalho de demarcação, interrompido quando faltava apenas uma semana para ser concluído, é fundamental para finalizar o processo de entrega da titularidade coletiva das terras à Arquimar (Associação da Comunidade Remanescente de Quilombos da Ilha da Marambaia). Desta forma, as famílias que moram amontoadas na mesma casa construiriam outras e as que foram expulsas pela Marinha - cerca de 40, que vivem hoje em Itacuruçá - poderiam voltar.

- A partir do laudo antropológico recebido, fizemos uma delimitação da área em que as pessoas da comunidade têm casas. O próximo passo seria levar este traçado à Marinha, para que fosse comprovado que o território não faria falta às Forças Armadas. O Incra tem todo interesse em finalizar o processo, já que é política do governo federal regularizar as terras dos quilombos - informou Celso Souza Silva, gestor do Programa de Igualdade, Gênero e Etnia do Incra.



 








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