n
Apresentação Introdução Cronologia Notícias Memorial Marambaia Relatórios KOINONIA Textos Mapas Arte Quilombola
 

Notícias >
Visões sobre o Conflito


Pescadores pedem socorro na ilha

FONTE: Jornal da Província
SEM DATA

Vereador o que está acontecendo com os pescadores da ilha da Marambaia?

A maioria dos municípios de Mangaratiba tem ciência de que os pescadores e as famílias que vivem na ilha da Marambaia estão lá bem antes da Marinha chegar, muitos chegam a ser descendentes de escravos, inclusive minta avó viveu na ilha 80 anos, meu pai nasceu lá.

A Marinha está querendo expulsar estes pescadores que já construíram suas famílias, casas, vivem da pesca e querem coloca-los ninguém sabe onde.

O que a Câmara Municipal vai fazer?

Em função desses acontecimentos a Câmara Municipal de Mangaratiba vem pedindo informações ao Ministério Público Federal, estamos convidando o Comandante do CADIM para prestar esclarecimentos a esta casa que é a casa do povo, para podermos tomar algumas medidas como seguir com uma Ação Cívil Pública, ou uma GPI, e que se crie uma comissão de investigação para não deixar a Marinha retirar os pescadores de suas casas na ilha da Marambaia.

Mas a ilha é uma área militar?

Sabemos que a ilha é uma área militar, agora só queremos saber há onde é que os pescadores prejudicam alguma ação da marinha no local, muito pelo contrário os pescadores sempre tiveram uma convivência harmoniosa com a Marinha, nunca desrespeitaram e sem contar que são pessoas muito humildes.

Concordamos até que a Marinha desde que chegou a ilha, não permita mais nenhuma Invasão, agora de retirar os pescadores de suas casas, suas redes, suas canoas tudo o que conseguiram com muito sacrifício ao longo de suas vidas, não podemos concordar, a Marinha é um órgão, instituído para proteger o cidadão, não paira gerar ameaças, o que se vê hoje nitidamente é medo nos olhos dos pescadores, porque desde que muitos nasceram foram criados, constituíram suas famílias, seus filhos que lá estudam, a sua sobrevivência é retirada da ilha através da pesca. Fica aqui uma pergunta vão retirar eles da ilha e colocar a onde? Na favela de Sepetiba!

Sem contar que nem a Prefeitura Municipal nem a Câmara foram consultadas, não houve uma troca de opiniões para discutir o problema, a Marinha tinha que pelo menos ter dado uma satisfação ao Poder Público, por isso é que estamos convocando o Comandante da Marambaia, para prestar esclarecimentos a esta casa, porque nós não sabemos o que será feito com essa gente, e nós somos responsáveis temos que nos preocupar com o bem estar e o destino dos nossos cidadãos.

Quais são as medidas que a Câmara Municipal vai adotar?

O Vereador Kabeça através da Presidência da Câmara, já pediu ao Ministério Público Federal cópia dos processos que foram feitos contra os pescadores, inclusive os mesmos tiveram perda de prazos, nós achamos que houve má fé da Marinha e até mesmo da justiça, porque soubemos que muitas das ações foram julgadas a revelia, e se analisarmos bem o fato veremos que se trata de uma gente que não tem muita instrução, não entende da Lei, não tem condições de pagar um advogado, então achamos que foi feito uma covardia pela Marinha brasileira, inclusive eu gostaria que o jornal publicasse o que vou dizer agora - Hoje eu tenho vergonha de ter nascido no dia 13 de Dezembro -Dia do Marinheiro - por causa dessa ação que está sendo movida contra os pesca-dores. eu que era uma pessoa tão feliz com minha data de nascimento, hoje se eu pudesse mudaria minha data no cartório, por conta do que a Marinha vem fazendo com os pescadores do nosso Município, que é uma grande covardia.

Outro detalhe, vamos fazer um levantamento de área, fotografia aérea e se ficar.


Paraíso proibido

Militares e ecologistas se unem para preservar uma das mais exuberantes reservas naturais do País

por Hélio Contreiras e fotos de Pedro Agilson

FONTE: Revista Isto É
DATA: 26/11/1996

Quem sobrevoa o litoral sul do Rio de Janeiro certamente já reparou uma estreita faixa de terra, entre o Oceano Atlântico e a Baía de Sepetiba, que se prolonga por 42 quilômetros, com praias em toda a sua extensão. O que poucos sabem é que ali está situado um dos últimos paraísos ecológicos da Mata Atlântica: a Ilha da Marambaia. A 90 quilômetros do centro do Rio, há 110 anos a ilha era escala obrigatória para os navios negreiros que vinham para o Sul do Brasil. Hoje, ela é um dos raros lugares do planeta onde podem ser vistos pássaros silvestres quase em extinção, como o gavião-pombo, além de macaco-prego, tatu, capivara e a borboleta capitão do mato, com seu azul forte. Em Marambaia, até o popular sabiá, pássaro que entrou na literatura brasileira com o poema Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, é diferente. Chamado de sabiá-da-praia, ele é maior que o sabiá-da-mata - comum nas montanhas de Minas, em Goiás, Brasília e na Bahia - e que o sabiá-laranjeira, figura carimbada no cenário ecológico do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, Goiás, Norte e Nordeste. Observar essas espécies, porém, é privilégio de poucos. Atualmente, cerca de 400 nativos residem na Ilha de Marambaia, onde funciona um centro de adestramento da Marinha. Além dos militares e dos moradores, ninguém mais tem autorização para entrar na ilha.

O futuro deste paraíso, porém, ainda é uma incógnita. Alguns políticos fluminenses periodicamente insistem em defender a exploração da ilha pela indústria do turismo e lutam para que o acesso às lindas praias não seja restrito. Para evitar que isso aconteça, o biólogo Roberto de Xerez, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, idealizou um convênio com a Marinha visando a preservação da ilha para pesquisas e pretende transformar Marambaia em área de preservação ambiental. O convênio, assinado em setembro, é o primeiro passo para isso. "A presença da Marinha em Marambaia tem sido decisiva para a preservação da Mata Atlântica", diz Xerez. "Mas a ilha precisa ser declarada oficialmente como reserva ecológica e o acesso a ela deve continuar a ser restrito." Na Marambaia há uma aliança implícita entre ecologistas e militares. O comandante do Centro de Adestramento da Marambaia, capitão-de-mar-e-guerra Carlos Alberto Beda de Oliveira, e seu imediato, capitão-de-fragata Eduardo Tibúrcio, também defendem a preservação da ilha e acreditam que isso só pode ser concretizado se o acesso a suas praias continuar proibido. Ao contrário do que fazem em Alcatrazes (SP), os militares não usam a ilha para operações que possam provocar danos à fauna e à flora e até recolhem pedaços de papel ou de plástico eventualmente encontrados nas areias.

Os que moram no paraíso não admitem a possibilidade de sair dali, embora na ilha não exista sequer supermercado. Descendentes de escravos, esses moradores ainda sobrevivem da pesca artesanal e mantêm o hábito de visitar a capela de Nossa Senhora das Dores, erguida em 1940, numa época em que a ilha ainda abrigava alguns cafezais. Teodorina Alves de Lima, 77 anos, é a mais antiga moradora da ilha. Ela nasceu lá e nunca residiu em outro lugar. Sua mãe, Rosa, falecida há cerca de 50 anos, foi levada à Marambaia no século passado por um navio negreiro, sendo libertada só com a decretação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888. Na época, a ilha era usada para a triagem dos escravos. Os que tinham saúde, bom físico e dentes em bom estado eram logo separados para ser vendidos a preços mais altos. "Minha mãe me dizia que o trabalho escravo afetou sua saúde", diz Teodorina. Ela lembra que sua mãe lhe contava que, por ser escrava, além de ser mal-tratada, nem sequer tinha direito a alimentação adequada, e por isso enfraqueceu. A senzala, onde a mãe de Teodorina passou boa parte da vida, permanece construída na ilha. Viúva, Teodorina recebe R$ 112 como aposentada do Fundo Rural. "Aqui eu vivo com esse dinheiro. Em outro lugar acho que não daria", diz. "Na ilha, um ajuda o outro e não falta nada para ninguém."

Outro descendente de escravo e que também nasceu na ilha é Caetano Silva, 76 anos. Defronte a seu barraco, ele diz que sempre recorreu à pesca para garantir sua alimentação. "Hoje, penso apenas em tentar viver mais alguns anos", diz o pescador. No passado, porém, esses habitantes do paraíso ecológico queriam melhorar o padrão de vida. Ercília Silva, 67 anos, mulher do pescador, costuma recordar o período em que mais alimentou o sonho de dias melhores. "Nos anos 40, fui empregada do presidente Getúlio Vargas, quando ele tinha uma casa na Marambaia." Fala-se na ilha que a casa do ditador do Estado Novo era usada por ele para encontros fortuitos com amigas. Mas Ercília faz uma ressalva: "Dona Darcy Vargas, a mulher do presidente, estava sempre lá." A casa, na verdade, pertence ao governo federal, mas os moradores não têm lembrança de que outros presidentes a tenham utilizado. Hoje, ela é ocupada pela Marinha.

A ilha também foi usada, na década de 70, como esconderijo de perseguidos políticos. Muitos dos que eram procurados pela repressão fugiam para Marambaia. "Os fugitivos políticos eram vistos com desconfiança, não falavam com quase ninguém e nunca se ficava sabendo de onde eles tinham vindo", recorda Ercília. "Mas eles não faziam mal a ninguém. Não sabiam pescar e se limitavam a pedir apenas um prato de comida."


Dossiê sobre tentativa de expulsão de moradores

FONTE: Revista Paratodos. n.3
DATA: 1998

Foi entregue pelo ex-prefeito Emil de Castro ao presidente em exercício do PDT-RJ, ex-deputado federal Carlos Lupi, 1º Suplente de Senador na Chapa de Saturnino Braga, um dossiê sobre a tentativa de expulsão dos moradores da Ilha da Marambaia, por determinação do alto do presidente FHC. A questão deverá ser discutida com o candidato a governador Garotinho, uma vez que a Ilha da Marambaia pertence ao Estado do Rio. O líder do PT, na região Mariano Moreira, também levará um dossiê sobre o assunto ao candidato Lula e outras lideranças nacionais do partido, visando uma providência urgente, a fim de impedir essa decisão infeliz.


Marinha expulsa moradores do paraíso

Moradores da Ilha da Marambaia brigam para não perder casas para militares que alegam deterioração do patrimônio público

por Maurício Barros de Castro

FONTE: Jornal do Brasil
DATA: 18/07/2001

O paraíso não é para todos, nem mesmo para quem nasceu nele. É a lição que se tira da história de D. Sebastiana Henriqueta de Lima. Passou toda a sua vida morando na Ilha da Marambaia, um sítio ecológico onde o presidente Fernando Henrique gosta de passar as férias. Agora, aos 83 anos, a velha senhora corre o risco de ter que deixar o lugar porque perdeu um processo de reintegração de posse, iniciado pela Marinha há quatro anos. Além disso, foi acusada de deteriorar o patrimônio público, que, no caso, é a própria casa de alvenaria que ela construiu.

Como perdeu a ação, além de não poder voltar para a Ilha, ela ainda vai ter que indenizar a União por "danos ao patrimônio público" e arcar com as custas judiciais. Diante de tudo isso, D. Sebastiana não resistiu e teve que ser internada, com pressão alta, num hospital. Depois de ter alta, foi esperar os recursos contra a ação na casa da filha, na Pavuna, na Zona Norte. "Eu quero voltar pra lá, nasci lá, me criei lá, tive dez filhos, criei porco, criei galinha, trabalhei na roça, carreguei mandioca, lenha, tudo na cabeça", diz saudosa.

Hoje, resta às cem famílias que vivem na ilha o sustento dos mares. Não é mais permitido fazer roçado na Ilha, assim como não é permitido erguer novas construções. Uma medida que, se preserva a beleza do lugar, contribui para tornar mais tensas as relações entre a Marinha e os moradores, quase todos pescadores humildes, na maioria descendentes de escravos que viveram ali há gerações.

Acesso _ O acesso a Marambaia é proibido aos civis. Há apenas uma maneira das pessoas de fora conhecerem a ilha onde nasceu D. Sebastiana: entrar como convidado de um dos moradores. Isso significa que o nome da pessoa deve constar na lista que um militar confere no porto. Depois disso é que se pode ingressar na barca de metal que a Marinha coloca à disposição para fazer a travessia ao longo da Baía de Sepetiba. O ponto de partida é Itacuruçá, uma pequena e calma cidade onde os pescadores colorem o mar com seus barcos e alguns poucos turistas costumam visitar. Distrito de Mangaratiba, o lugar fica a cerca de uma hora e meia do Rio de Janeiro.
Na barca não há vestígios de preocupação com conforto. Não há assentos ao ar livre e os que existem, uns bancos de madeira, ficam no porão. A viagem dura uma hora e os passageiros acomodam-se como podem, espalhados pelo convés, conversando para matar o tempo. Ao longe, já se desenham os contornos da Marambaia. O que se destaca, assim que a costa fica mais visível, são duas palavras gigantescas, marcando com cal o verde das montanhas: FUZILEIROS NAVAIS.

A embarcação atraca na Praia do Cadim, batizada por ser a sede do Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia, o comando local da Marinha. É ali que estão as melhores residências, predominantemente habitadas por militares, todas de alvenaria e bem pintadas. Na maior delas, com ar-condicionado, mora o comandante. É nela que se hospeda o presidente Fernando Henrique.

Caminhada _ Para chega à casa de D. Sebastiana, que fica na Praia do Sítio, é preciso caminhar por uns quarenta minutos pelas areias brancas, quase sempre desertas, banhadas pelas águas calmas e azuis da Baía de Sepetiba. É o tempo aproximado que leva para, atravessar a pé as praias Suja, do José e do Caju. "Aqui é tudo ao contrário, a Praia Suja é limpa, a do Caju não tem fruta e o José ninguém sabe quem é", conta, divertido, Marcílio Lima, um filho da Marambaia que, como a maioria dos que nasceram na ilha, é herdeiro da escravidão. A marca desse tempo está numa placa, na Praia do Cadim, que indica a Estrada da Senzala.

O cenário selvagem, que se estende por uma restinga vizinha, tem uma rica vegetação, ornamentada por figueiras, orquídeas e bromélia, e uma população de tamanduás, pacas e guaxinins. Em alguns lugares, é preciso ter cuidado porque o Exército e a Aeronáutica, que também tem campos de treinamento na região, usam as áreas mais isoladas para fazer testes militares. A bateria de tiros pode ser ouvida na Praia do Sítio, garantem os moradores, que costumam ser avisados pelos militares para manter distância da área de provas.

No percurso para a Praia do Sítio, algumas casas vão surgindo no caminho. As construções simples costumam ficar dentro da mata, ninguém mora na praia propriamente dita. A trilha passa pela casa de Seu Joel da Rosa Lima, o mais antigo morador do lugar, com 83 anos. "Era para as terras serem nossas. O Breves deixou pra gente, mas não assinou nada, foi só de boca, então...". O velho pescador, sentado na soleira de sua casa, deixa a conclusão da frase ao soprar do vento.

Escravos _ A pessoa a quem se refere seu Joel é o comendador Joaquim José de Souza Breves, dono dos escravos e das terras da Marambaia no século 19. Era ele quem recebia os negros vindos da África, abatidos pela viagem, e os fortalecia para serem vendidos para o trabalho escravo. Com a abolição, a Marambaia deixou de ser uma estação de engorda e foi vendida, em 1905, para a Marinha. Esta, no entanto, só veio a ocupar definitivamente a ilha no início da década de 70. Antes, o lugar chegou a ter uma escola de pesca, que incluía o ensino básico, e uma fábrica de gelo e sardinha, financiadas pela Fundação Cristo Redentor, uma iniciativa da era Vargas que permaneceu na ilha por mais de trinta anos. Na ilha, atualmente, há penas uma escola primária e uma mercearia na Praia do Cadim, o único lugar que possui energia elétrica, vinda de um gerador.
A chegada da Marinha trouxe novas regras. Ao mesmo tempo que não permite que nenhuma nova construção seja erguida, a instituição também condena casas consideradas abandonadas, em mau estado de conservação. "Nós não podemos melhorar nossa casa para dar mais conforto à nossa família e aos visitantes", conta João Paulo Lima, pescador e irmão de Marcílio, explicando porque muitos dos nativos têm deixado a ilha em busca de oportunidades na cidade. Ele não se ufana com a preferência do presidente pelo lugar onde nasceu. "Como posso sentir orgulho se não posso nem chegar perto dele?", pergunta. O pescador conta que, nas primeiras vezes em que Fernando Henrique esteve na ilha, a vigilância era severa. Os moradores eram escoltados quando iam e voltavam da Praia do Cadim.

Fora às férias presidenciais, os dias transcorrem calmamente, no cotidiano dos afazeres domésticos e da pesca. Como não podem mais plantar alimentos para subsistência, os pescadores aproveitam a ida para Itacuruçá, onde vendem peixe e compram mantimentos. Apenas três crianças das que moram nas redondezas da Praia do Sítio enfrentam a caminhada até a Praia do Cadim para estudar na escola primária. Neste lugar costumam acontecer eventos comunitários, como festas juninas. Nos dias de santos importantes, como São Pedro, padroeiro dos pescadores, a procissão é no mar, numa romaria de barcos que parte da Marambaia e percorre as ilhas vizinhas. Um ritual que não é compartilhado pelos freqüentadores da Igreja Evangélica que foi inaugurada na Marambaia.

Casas simples _ A casa de D. Sebastiana fica incrustada na mata. Trata-se de uma construção simples, de tijolos crus, com uma varanda amontoada de objetos, e portas e janelas fechadas na ausência da dona. Devido à idade, D. Sebastiana passou a ter necessidade de acompanhamento médico, que não existe na ilha. Por isso as saídas da Marambaia para tratar-se na cidade, onde moram seus filhos, se tornaram mais constantes. "Quando melhorar eu volto, fico lá, durmo sozinha, sou acostumada a ficar lá".

Os argumentos da Advocacia- Geral da União não reconhecem o direito de terra do nativo. Nas palavras do representante judicial da União, Mauro Chaves Reis, "a Sra. Sebastiana, por mera liberalidade do Centro de Administração da Ilha da Marambaia, reside em imóvel público". O advogado ainda acrescenta que "durante uma das inspeções realizadas pelo Centro de Administração da Marinha, foi constatado que o imóvel não está sendo ocupado pela Sra. Sebastiana, encontrando o mesmo em estado de abandono". Esta seria a justificativa para o pedido de ressarcimento por "danos ao patrimônio público".

A advogada de D. Sebastiana, Fernanda Maria da Costa Vieira, sai em sua defesa. "O simples fato da D.Sebastiana se ausentar por motivos de saúde não justifica o argumento de abandono". Ela também vê outros "furos" nas argumentações do advogado. "Para se propor reintegração de posse é preciso ter a posse. Quem vem exercendo a posse naquela área são as famílias que lá residem antes mesmo da Marinha chegar. A alegação de que D. Sebastiana não conservou o imóvel gerando prejuízos para o patrimônio público também não prospera, porque basta dar uma olhada na casa para perceber que é uma morada humilde, e não depredada".

Recesso _ O recesso de julho trouxe boas notícias para a D. Sebastiana. A advogada de defesa conseguiu, no início desta semana, que o pedido de reintegração de posse fosse suspenso. "A decisão temporária foi da desembargadora Maria Helena Cisne, que está respondendo pelo presidente do tribunal. Ao saber da idade de D. Sebastiana e do seu estado de saúde, ela achou mais cauteloso suspender a reintegração". Finalmente livre para voltar para a Ilha da Marambaia, D. Sebastiana não pode comemorar completamente. Quando o recesso acabar, no início de agosto, a guerra contra a Marinha continua.


Uma comunidade ameaçada na Marambaia

Ministério Público denuncia a Marinha por querer expulsar na ilha 90 famílias de descendentes de escravos

por Antônio Werneck

FONTE: O GLOBO
DATA: 17/03/2001

O barraco de bambu e barro não tem luz, mas todas as noites uma mistura de cores ilumina a curiosidade do pescador Valmir Firmo Mariano, de 56 anos. O feixe de luz sai de uma minúscula televisão que só funciona por estar ligada a uma bateria de Fusca. È a única forma que o pescador, sua mulher, Paulina, e o filho David, de 10 anos, encontram para fugir da escuridão. As imagens não são perfeitas e ás vezes não passam de borrado na tela miúda, mas Valmir - que nasceu e foi criado na Ilha Marambaia - não quer trocar de vida:

- O que acontece lá fora não me interessa muito. Minha vida é o mar, a pesca. Televisão é só para iluminar o barraco - diz ele.

Valmir e outras 90 famílias têm outras preocupações atualmente. Estão com a "sobrevivência sob grave risco!, como afirmaram procuradores do Ministério Público Federal do Rio em denúncia encaminhado ao juiz federal de Angra dos Reis contra a Marinha, que quer expulsar os moradores da Ilha de Marambaia, no município do Mangaratiba.

Ilha é freqüentada por Fernando Henrique

Paraíso ecológico que passou a ser conhecido ao vira o balneário oficial freqüentado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, a ilha - localizada a uma hora de Itacuruça (do Centro do Rio até lá são 80 quilômetros de carro), a duas horas de Angra do Reis e a três da Barra de Guaratiba - é ocupada por negros como Valmir, descendentes de escravos.

- Minha avó foi trazida no laço da África para ser escravizada aqui na Marambaia - afirma o pescador.

Alegando tratar-se de área militar a Marinha te recorrido à Justiça em ações de despejo contra os moradores. Também passou a restringir a vida dos pescadores, que já não podem pescar em determinadas áreas, construir casas ou simplesmente reforma-las sem autorização. Nem mesmo uma tradição dos moradores, de manter seus terrenos cultivos de subsistência, tem sido permitida.

- Meus avós e meus pais viveram aqui. Eu criei meus filhos e agora os netos. Para eu vou se sair daqui? E quem pesca, o que vai fazer quando sair? Morar numa favela do Rio? - pergunta Eugênia Barcelos, de 63 anos.

MP quer identificação de descendentes de escravos

A denúncia do Ministério Público do Rio está sendo feita numa ação civil pública assinada pelos procuradores Daniel Sarmento e Mônica Campos de Ré. Além de pedir à Justiça que ações de despejos da Marinha cessem imediatamente, os dois procuradores querem que a Fundação Cultural dos Palmares - que "não vem agindo com a devida presteza, agravando a situação dramática vivenciada pelos presumíveis quilombolas" - inicie imediatamente a identificação dos descendentes de escravos. Os procuradores querem ainda que a fundação, um órgão federal, faça a delimitação, a demarcação, a titulação e o registro imobiliário das terras ocupadas pela comunidade negra da Ilha de Marambaia.

Os procuradores também querem o retorno às suas antigas casas dos moradores integrantes da comunidade negra que foram despejados por medidas judiciais. Além disso, exigem que a Marinha tolere "que os moradores da comunidade em questão mantenham o seu tradicional estilo de vida, não cercando seu direito de cultivar roças nas áreas ocupadas, reformar ou ampliar suas casas ou ainda construir, no interior das suas terras, novas casas para seus descendentes".

Os primeiro habitantes da Ilha de Marambaia forma escravos trazidos da África em navios negreiros. No século XIX, os negros que sobreviviam às viagens em condições subumanas eram levados para a ilha para se recuperarem e depois serem vendidos (alguns, no entanto, eram forçados a trabalhar nas fazendas locais). As terras e os escravos eram de propriedade do comendador Joaquim José de Souza Breves. Seugendo um estudo do antropólogo Fábio Reis Mota, da Universidade Federal Fluminense (UFF), os negros só passaram a ocupar as terras após a morte de Breves, em 1889. Em parte devido ao abandono da ilha por seus parentes, que viviam em dificuldades financeiras.

Algumas moradores contam que ouviram dos avós que, em um de suas últimas viagens à ilha, o comendador Breves teria doado verbalmente cada uma das praias aos seus antigos escravos. Segundo o estudo do antropólogo da UFF, a ilha se enquadra, de forma absolutamente coerente, na caracterização sociológica das chamadas terras de preto: "domínios doados, entregues ou adquiridos, com ou sem formação jurídica, por famílias de escravos".

Antropólogo: famílias são remanescentes de quilombo

O antropólogo José Maurício Andion Arruti, que coordena o Projeto Egbé - Territórios Negros, para estudar comunidades remanescentes de quilombos nos estados do Rio e Espírito Santo, também garante que as famílias que vivem na Ilha de Marambaia são remanescente de quilombo.

- A Fundação Palmares, no me entender, não tem estado presente na forma devida; e a Marinha faz um jogo muito duro, simplesmente classificando a comunidade como invasora - disse antropólogo.

Para o coordenador do projeto Egbé, a Marinha tem usado como instrumento para desalojar as famílias trâmites judiciais que os moradores desconhecem.

- A Marinha tem agido como grileiro como qualquer proprietário de terra. A Marinha é União e a União reconhece (pela Constituição de 1988) o direito dos descendentes de integrantes de quilombo à propriedade da terra - disse Arruti.

Marinha assumiu administração em 1971

A Marinha assumiu a administração da ilha em 1971. Atualmente, mantém uma base dos fuzileiros navais no local. Em 1939, foi inaugurada na ilha uma tradicional escola de pesca: a Darci Vargas. A escola foi fechada quando a ilha passou para as mãos da Marinha.

- A nossa situação passou a mudar a partir da administração da Marinha. Alguns moradores tiveram suas casas derrubadas; outros foram proibidos de ocupa-las; e agora há boatos de que todos serão retirados - lembrou o pescador João Paulo de Lima, de 37 anos, casado com Carmem e pai de um filho excepcional.

Os relatos sobre o movimentado comércio de escravos estão por todos os lados. Como atesta Felipe José dos Santos, de 71 anos:

- Meu ano era capitão do mato. Caçava escravos fugidos - disse Felipe.


Uma ilha cercada de 15 praias paradisíacas

por Antônio Werneck

FONTE: O GLOBO
DATA: 17/03/2001

Habitantes vivem da pesca

Eugênia Barcelos, quatro filhos e quatro netos, nasceu na Praia do Sítio, onde está vivendo boa parte dos moradores descendentes de escravos. Ali onde criou seus filhos, também morava, seus pais e os avós.

- A gente, quanto ficava cansado de morar numa casa, mudava para outra, mas nunca saímos da Praia do Sítio - lembrou Eugênia.

Todos na ilha vivem da pesca. A comunidade negra ocupou a Praia do Sítio, também conhecia como a Praia dos Pretos. O lugar fica a cerca de 500 metros da base dos fuzileiros navais, na Praia Suja, onde o presidente Fernando Henrique costuma ficar hospedado.

- Queremos que a Marinha providencie melhoras na ilha. Não temos luz e sequer um telefone. Os que a Telemar instalou aqui estão quebrados há três meses - lembrou Paulina Santana, de 65 anos, mulher do pescador Valmir Firmo.

Para chegar à Ilha da Marambaia, o visitante tem que seguir de carro até Iracuruçá, conseguir uma autorização da Marinha e pegar uma barca usada pelos moradores.

A ilha tem 15 praias com águas cristalinas e ótimas para mergulhar. Uma brincadeira que David da Silva Mattos, de 10 anos, filho de criação do pescador Valmir Firmo, não dispensa:

- Quando eu tinha 8 anos já nadava tudo isso aí - lembra o menino


Ocupação irregular de terreno da União na Ilha da Marambaia

Capitão-de-Mar-e-Guerra
Diretor

FONTE: Antonio Carlos Fonteles Juaçaba
DATA: 03/04/2002

Com o propósito de informar corretamente aos cidadãos brasileiros, especialmente, aos militares e servidores civis da Marinha do Brasil a respeito desse assunto que, ultimamente, vem sendo abordado na mídia, participo o seguinte:

A origem da questão pode ser atribuída ao fato de, algumas das 89 famílias habitantes da Ilha da Marambaia, estarem infringindo os termos de autorização de uso, que haviam firmado com a Marinha do Brasil (MB). Assim, a MB se viu obrigada a ingressar em juízo visando à reintegração de posse, de modo a defender os legítimos interesses da União.

O descumprimento desse termo de autorização tem-se pautado por irregularidades, tais como: edificação de novas construções, uso com finalidade comercial de imóveis residenciais, sublocações, abandono das residências por motivo de mudança para o continente etc.

O desenrolar dos processos já mostra que decisões têm sido proferidas favoravelmente à União/MB, inclusive em 2ª instância, conforme Acórdão transitado em julgado no TRF/2ª Região.

Noutra ponta da questão, parecer emitido pela Fundação Cultural Palmares alinha que a comunidade residente na ilha constitui um grupo étnico similar ao de uma comunidade remanescente de quilombo. Sobre este aspecto, o Procurador Regional da República, Luis Cláudio Pereira Leivas, da Procuradoria Regional da República/2ª Região, após analisá-lo, recomendou o arquivamento do processo pertinente, visto constituir-se em tentativa de " favorecer esbulhadores, favelizando área de bem público, prejudicando atividades inerentes à defesa nacional e danificando o meio-ambiente", tendo em conta o aumento populacional que insinua.

O intuito da Fundação Cultural Palmares, em qualificar a comunidade da Ilha da Marambaia como remanescente de quilombo, prende-se à tentativa de enquadrá-la, numa generalização indevida, ao descrito no art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) da CF/88, qual seja: aos descendentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.

O ponto conflitante encontra-se em definir apropriadamente, e com correção, o que seja "remanescentes de quilombo". Sem dúvida, a conceituação pautada na historiografia, isto é: "casa ou lugar no mato onde se refugiam os escravos fugidos" parece ser a definição apropriada. Caracterizações fundadas em argumentações antropológicas ou sociológicas não detêm o consenso, não sendo, portanto, uma definição legal.

O fato é que em nenhum momento existiram quilombos na Marambaia, uma vez que a Ilha da Marambaia pertencia ao Comendador Joaquim José de Souza Breves, o Barão do Café, que mantinha, no local, a maior fazenda e entreposto para o tráfico de negros africanos, chegando a abrigar 6.000 escravos que, após um período de quarentena, eram enviados às fazendas cafeeiras do Estado do Rio de Janeiro.
Importante destacar que a conformação da ilha, em função de sua reduzida dimensão e pela presença de elevações de pequeno porte, constitui, ainda hoje, um verdadeiro "beco sem saída". Logo, seria impossível que escravos fugidos nela estabelecessem um acampamento fortificado, ou seja, um quilombo, pois seriam facilmente capturados.

Em 1889, após a abolição da escravatura, com o falecimento do Comendador, a fazenda, abandonada e longe da civilização, entrou em decadência, iniciando-se, assim, a cadeia sucessória da posse dessas terras.

Em 1905, aquele território foi integrado ao patrimônio da União, atendendo à solicitação formulada pelo Ministério da Marinha para a instalação de uma Escola de Aprendizes-Marinheiros, que lá funcionou até 1910.
Em 1931, sob orientação da Marinha, a Confederação dos Pescadores do Brasil fundou a colônia Z 23, mais tarde Escola Técnica "Darcy Vargas" (Escola de Pesca), a qual foi desativada em 1971. No local permaneceram somente alguns funcionários da extinta Escola, os quais constituíram o núcleo da atual comunidade que habita a ilha, juntamente com supostos descendentes dos empregados da antiga fazenda São Joaquim, que teriam permanecido na área mesmo após a transferência da posse da Ilha da Marambaia para a União.
A partir de 1971, foi instalado na ilha o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (CADIM), unidade do Corpo de Fuzileiros Navais que contribui para o aprestamento de Forças Navais e de Fuzileiros Navais, por meio da formação de marinheiros-recrutas e do apoio aos adestramento nela desenvolvidos.

Atualmente, a ilha serve de base para a realização de exercícios de operações anfíbias, constituindo-se, praticamente, na única opção possível na região do Estado do Rio de Janeiro para a condução de adestramento dessa natureza e de tiro com munição real.

O Ministério Público Federal/RJ (MPF/RJ) ajuizou uma Ação Civil Pública (ACP) em face da União Federal/MB e da Fundação Cultural Palmares, argumentando que a população negra da ilha é constituída por "remanescentes das comunidades dos quilombos", visando à concessão dos direitos constitucionais decorrentes. No tocante à MB, o MPF/RJ levanta na ACP a preocupação de que a sobrevivência da comunidade étnica está em grave risco, em razão das medidas que têm sido executadas pela Marinha no sentido de retirar seus integrantes das terras que ocupam na ilha. No que tange a Fundação Cultural Palmares, o MPF/RJ argüi a falta da devida presteza em reconhecer e emitir o título definitivo de propriedade, referente às terras ocupadas por remanescentes de quilombos.

A MB tem adotado medidas que visam a impedir a derrubada aleatória de vegetação que cause danos ao meio ambiente, bem como a construção de novas residências ou a ampliação das mesmas, mantendo o acordo nos termos de autorização de uso, a fim de resguardar o patrimônio público.

Sob o aspecto ambiental, vale ressaltar que o Decreto nº 9.802/87, do Governo do Estado do Rio de Janeiro, cria a Área de Proteção Ambiental (APA) de Mangaratiba, nela incluindo áreas da Ilha de Marambaia acima da cota de 100m. Registre-se que nenhuma das edificações residenciais encontra-se situada a mais de 40m. Em uma ação conjunta, a Marinha e o Departamento de Botânica da UFRural/RJ desenvolvem diversas pesquisas para a obtenção de conhecimento a ser utilizado na busca de soluções para um convívio harmonioso entre o homem e a natureza.

Deve-se registrar que o CADIM vem propiciando à comunidade da ilha, gratuitamente, atendimento médico-odontológico e transporte para o continente, além do fornecimento de cestas básicas e peças de vestuário, como parte das ações cívico-sociais da Marinha.

À vista do exposto, é leviana a afirmação de desrespeito, por parte da Marinha do Brasil, aos direitos de cidadania dos residentes da Ilha da Marambaia.





Câmara e Marinha selam acordo

FONTE: O GRITO
DATA: 20/05/2002

Na quarta-feira, 12 de junho, reuniram-se representantes da Marinha (Comando da Ilha da Maramabia) - Vice-Almirante Tosta, Capitão de Corveta Guilherme; Capitão de Corveta Guilherme; Capitão de mar Guerra Djair, e Capitão de mar e Guerra Newton; e a mesa diretora da Câmara Municipal de Mangaratiba - Presidente Gilmar Abrahão da Silva (Kabeça); vice-presidente Waldir Domingos da Costa Leste (Dico); e José Carlos de Medeiros. A Reunião realizou-se na Praia de Muriqui, no quiosque do vereador Kabeça, onde foi servida uma peixada de alto nível, numa descontração entre autoridades que trataram de tema de tão alta relevância: a segurança e permanência dos pescadores da Ilha da Marambaia.

Nos encontros anteriores, pelo interesse das partes em dar uma solução justa e digna ao problema, já se poderia prever esse desfecho feliz.

Depois das conversas e da peixada, todos numa Van da Marinha, percorreram a Praia de Muriqui, observando as belezas da orla.

A reportagem do jornal O Grito, presente ao evento, fez questão de ouvir a palavra do vereador Kabeça que pode, então, dar melhores esclarecimentos, na ocasião selando o acordo, definitivo, com as duas partes satisfeitas, Câmara e Marinha.

O Grito - Vereador, os pescadores já poderão ficar tranqüilos e em segurança?

Kabeça - Finalmente o acordo foi selado entre a Câmara Municipal de Mangaratiba e a Marinha: os pescadores vão permanecer na Ilha da Marambaia e a Marinha; os pescadores vão permanecer na Ilha da Marambaia. Inclusive os pescadores que têm ações na justiça. Essas ações forma paradas.

O Grito - Este almoço foi realizado com a finalidade de selar o acordo de convivência dos pescadores com a Marinha na Marambaia?

Kabeça - Exatamente. È também uma maneira de estreitar os laços de amizade entre a Câmara e o Comando da Marambaia. Aqui, numa conversa elevada e descontraída, tratou-se dos problemas dos pescadores que estavam inseguros em suas casas, devido a boatos desencontrados. Tratamos dos seus problemas, em alto nível, com o maior interesse social para que a harmonia, entre as partes interessadas reinasse na Marambaia.

Os pescadores, agora já poderão dormir tranqüilos por ninguém irá mexer com eles.

O Grito - Quando esta luta teve início?

Kabeça - Tudo começou em 1998, com reclamações dos pescadores que temiam ser expulsos da Marambaia, pela Marinha. De lá para cá, tivemos vários encontros: na Ilha da Marambaia, em Mangaratiba; na Ilha das Cobras, no Rio; e finalmente este que finalmente selou o bom acordo para as duas partes.


Marambaia/RJ
Ação Civil Pública

FONTE: Informativo Territórios Negros. n. 3
DATA: 2002

Em 14/02/2002, o Ministério Público Federal encaminhou à Justiça uma Ação Civil Pública contra a União, com quatro pontos a serem contemplados: o retorno dos moradores já expulsos da ilha; a garantia de não terem as casas destruídas ou danificadas; a permissão de continuar plantando nas áreas que ocupam e a realização de melhorias nas casas. Em resposta a esta ação, em 30 de abril, a juíza Lucy Costa atendeu apenas a dois desses pontos, mas negou o direito de retorno dos moradores já expulsos da ilha e a realização reformas em suas casas. A Justiça aguarda um posicionamento da Fundação Cultural Palmares para uma decisão final. A FCP encaminhou um documento afirmando a importância da liminar ser atendida na íntegra, para evitar a expulsão de outros moradores da Marambaia, enquanto não produz o Laudo Antropológico sobre o grupo. Apesar disso, os moradores continuam sofrendo pressão por parte da Marinha. Na última semana, uma moradora saiu pela manhã para levar seu filho à escola e, ao retornar, sua casa tinha sido lacrada pela Marinha. A moradora retirou o lacre e voltou a ocupar a casa. Ao saber dessa atitude a Marinha marcou uma reunião com os moradores para lhes dar uma falsa informação de que o parecer da juíza, ao proibir o retorno dos moradores expulsos, garantia novas expulsões. O Ministério Público Federal se comprometeu a tomar providências.


Um território - Ilha da Marambaia

FONTE: Informativo Territórios Negros. n. 4
DATA: 2003

Ilha da Marambaia fica localizada no litoral de Mangaratiba (RJ), em uma área considerada de segurança nacional e controlada por militares. Só se chega a ela por meio de barco da Marinha, com autorização prévia. Ao desembarcar nos deparamos com as casas de alvenaria, todas brancas, que se espalham pela extensão da chamada praia do CADIM (Centro de Adestramento da Marinha) onde, desde 1971, residem militares e outros funcionários federais. A leste, em direção à restinga, e a oeste, em direção à ponta da Marambaia, encontramos um cenário diferente. Antigas casas de alvenaria e estuque abrigam uma população de cerca de noventa famílias que descendem, direta ou indiretamente (por meio dos casamentos) de escravos. O "Breves" - senhor do café e do tráfico de escravos no Rio de Janeiro do século XIX, mantinha ali seus escravos para "engorda" antes de serem vendidos para outras fazendas.

Os atuais moradores lembram que, pouco antes de morrer, o "Breves" teria deixado toda ilha para os ex-escravos que ainda permaneciam nela. A cada família ele teria atribuído uma praia, mas essa doação foi "só de boca", como contam. Apesar da família Breves não ter cumprido o compromisso assumido pelo antigo proprietário de transferir a propriedade da Ilha, as famílias negras permaneceram ali em posse pacífica até 1939. Nesse ano, a Escola de Pesca Darci Vargas instalou-se na Marambaia, inaugurando um período de grande prosperidade: "aqui no tempo da Escola tinha de tudo, tinha fábrica de gelo, fábrica para sardinha, a gente tinha escola que profissionalizava a gente", nos conta um senhor de 80 anos.

Tudo mudou quando, em 1971, a escola foi fechada e a ilha entregue ao Ministério da Marinha. A partir dessa data, os moradores da Marambaia começam a viver sob o impacto de uma nova dinâmica social, repleta de restrições que os proíbem de manter roças, construir casas para os filhos recém-casados ou mesmo reformar ou ampliar as já existentes. Finalmente, a partir de 1998, a Marinha entra com diversas ações judiciais de Reintegração de Posse, alegando que os pescadores são invasores de suas terras. Sem apoio jurídico e na sua maior parte não alfabetizados, aqueles que vão sendo citados nesses processos são progressivamente expulsos. Essa foi uma estratégia criada pelo CADIM para que o seu objetivo fosse alcançado sem os custos judiciais e políticos de ter que expulsar toda a comunidade de uma só vez.

A Diocese de Itaguaí, por meio da Pastoral Rural, montou um primeiro dossiê sobre a situação daquelas famílias em 1998 e o enviou para várias autoridades. Entre elas, o presidente da República, que usa a ilha como balneário oficial em feriados prolongados. Nessa época, o assunto ganhou algum destaque na imprensa e uma advogada da Fundação Cultural Palmares tentou conhecer a situação pessoalmente, sem sucesso. Rapidamente, no entanto, o assunto voltou ao silêncio e o processo de expulsão dos moradores foi retomado. Em agosto passado, foi a vez da Dona Sebastiana, de 84 anos, ser expulsa por ter reformado sua casa. Analfabeta, ela tinha tido a autorização "de boca" de um militar administrador da área para a reforma, mas que depois foi desmentida, resultando na ação de despejo. Os senhores mudam, mas seus métodos permanecem semelhantes.


Ilha da Marambaia:
L
uta contra o preconceito e pela terra

Fonte: Informativo Justiça Ambiental. n.2
Data: 11/2003

A Ilha da Marambaia está localizada no litoral sul fluminense, servindo de porta de entrada para a Baía de Sepetiba. Possui belíssimas praias, com águas cristalinas, sendo a maior delas a praia da Restinga da Marambaia, com mais de 40 quilômetros de extensão. A fauna e a flora, com grande diversidade de espécies, completam a beleza do lugar.

Para entendermos o cotidiano da população marambaiense, é necessário que viajemos um pouco no passado em busca de respostas. Nossa história começa em fevereiro de 1856, quando o comendador Breves fez constar no Livro de Registro de Terra da Paróquia de Itacuruçá, a seguinte declaração:
"Declaro que sou proprietário da Ilha da Marambaia, cujos terrenos são cultivados, compreendendo os limites da restinga e o mangue de Guaratiba até a divisa do canal. Também são acessórias à mesma ilha as três pequenas ilhas fronteiras, denominadas Saracura, Bernardo e Papagaio". Ele mantinha duas fazendas na ilha - uma delas era destinada à engorda de escravos e escravas recém-chegados da África, para recuperar suas condições físicas e, em seguida, distribuí-los nas fazendas.

No ano seguinte à Abolição da Escravatura, o comendador morreu e os nossos pais, mães, avós e avôs contam que, numa de suas últimas visitas ao local, ele reuniu os(as) ex-escravos(as), tendo sensibilidade de verbalmente, transferir a posse das praias para eles(as), designando um líder para cada praia. Até hoje, existem sinais desse fato e, dentro dessa lógica, foram respeitados os espaços destinados à agricultura familiar.

Com a Abolição da Escravatura, os problemas que já existiam nas fazendas se agravaram. Não existia mais o poder de coerção que submetia a população escrava aos trabalhos forçados. Com isso, o ciclo do café, que tinha feito a fortuna dos fazendeiros imigrou para São Paulo, aos cuidados de novos imigrantes europeus e européias. Sem alternativas, a esposa do comendador vende Marambaia à Companhia Promotora de Indústrias e Melhoramentos. Naquele momento, começa um longo período de frustrações para o povo morador da ilha. Nenhum projeto consegue vencer as dificuldades e se estabelecer ali de forma duradoura.

Situação Atual

A relação da comunidade com a Marinha vem se estabelecendo de forma conflituosa. Quando a Marinha retornou suas atividades na ilha, a população acha,,a que, no mínimo, seriam mantidos os ganhos obtidos até então, com a Fundação Abrigo do Cristo Redentor. A proposta da Marinha, no entanto, era bem diferente, estava predeterminada a esvaziar totalmente a ilha em um período máximo de 20 anos. Quando perceberam que essa meta não seria atingida, começaram a agir de forma arbitrária contra a população.

Somos um grupo de pessoas excluídas de seus direitos, somos desprovidas de alguns serviços essenciais como: transporte - está diretamente ligado aos interesses da Marinha (não podemos
assumir um compromisso com base no horário da lancha, pois ela só sai de acordo com a necessidade dos militares); energia elétrica - não existe em nossas casas, só há energia elétrica no quartel os(as) professores(as) da escola pública da ilha não conseguem cumprir a carga horária legal em virtude de problemas com o transporte, entre outros; faltam médicos(as) e dentistas; os nossos familiares só podem nos visitar em número de quatro por vez (determinação da Marinha que limita o número de visitantes na ilha); os(as) jovens que concluem a oitava série param de estudar.

Essa é a nossa situação por causa da Marinha. Esperamos que, em futuro próximo, possamos ser ouvidas e respeitadas como parte integrante da e discutir todas as questões que nos envolvem. A intervenção do Ministério Público está sendo fundamental na resolução desse conflito e nos fez
entender que, acima de qualquer coisa, existe a lei e, com base nessa lei, devemos lutar pelos nossos direitos. Assim, fomos nos fortalecendo e criamos a associação de moradores(as). A certeza
de que estávamos bem respaldadas nos permitiu comparecer sem medo ao Seminário Memorial da Marambaia na Procuradoria do Rio de Janeiro.

Hoje, estamos vivenciando uma nova fase, orientada pelos resultados da ação movida contra a União. A determinação da juíza indica que, até a conclusão do processo jurídico que se encontra em
andamento, a Marinha não poderá:

a. adotar qualquer medida no sentido da desocupação de quaisquer casas ocupadas por famílias integrantes da comunidade negra da ilha;

d. destruir ou danificar nenhuma das construções habitadas pela população já referida;

c. impedir o retorno das pessoas da comunidade que foram expulsas, em razão das medidas adotadas pela União Federal;

d. impedir que a população mantenha seu estilo tradicional de vida, plantando roças nas áreas que ocupa, bem como fazendo eventuais obras, reparos e reformas nas suas residências.

Com exceção do item c, todos os outros não foram aceitos pela juíza.

Sabemos que estamos vivendo um período de trégua, mas não há nada que houve um aprendizado muito grande e isso tem nos ajudado a prosseguir lutando, em busca de nossos direitos.

Nós nos envolvemos com vários órgãos e com muitas pessoas, algumas bem-intencionadas, outras nem tanto. Atualmente, nós nos relacionamos com outras comunidades de quilombos, participamos de seminários, discutimos sobre os nossos direitos e estamos, aos poucos, resgatando a nossa auto-estima perdida.


Marinha não permite a realização de trabalho sobre Direitos Humanos na Ilha da Marambaia

Fonte: KOINONIA
Data: 09/05/2005

No dia 04 de maio de 2005, a equipe do Balcão de Direitos de KOINONIA recebeu resposta ao ofício que solicitava a sua entrada na Ilha da Marambaia para a promoção de oficinas de capacitação no tema dos Direitos Humanos e cidadania, assim como para dar início ao trabalho de documentação básica de seus moradores (carteira de identidade, CPF, título de eleitor etc.). O comunicado da Marinha argumentava que: "em virtude da existência de numerosos órgãos e instituições buscando acesso à Ilha da Marambaia, o assunto encontra-se na esfera do Ministério da Defesa ao qual deverá ser dirigida a solicitação em apreço".

Essa não é a primeira vez em que a Marinha vê problemas no fato de que pessoas ou instituições queiram se aproximar da comunidade para oferecer algum tipo de serviço ou apoio, aliás, o próprio processo de demarcação das terras quilombolas vem sendo impedido.

O Balcão de Direitos é um projeto promovido em parceria pela Secretaria Especial de Direitos Humanos (Sedh) e pela ONG KOINONIA e tem como objetivo prestar atendimento jurídico gratuito a três comunidades quilombolas do Estado do Rio de Janeiro: Preto Forro, Alto da Serra e Ilha da Marambaia.

Saiba mais: OQ > Monitoramento > Contexto Locais > Ilha da Marambaia > Apresentação e Informes









Notícias Relacionadas:

1. Visões sobre o Conflito
Pescadores pedem socorro na ilha
Paraíso proibido
Tentativa de expulsão de moradores
Marinha expulsa moradores do paraíso
Uma comunidade ameaçada na Marambaia
Uma ilha cercada de 15 praias paradisíacas
Ocupação irregular de terreno da União
Câmara e Marinha selam acordo
Marambaia/RJ - Ação Civil Pública
Um território - Ilha da Marambaia
Luta contra o preconceito e pela terra
Marinha não permite trabalho sobre Direitos Humanos

2. Cartas de Moradores

3. Processo de Regularização da Ilha

4. Contexto Ambiental da Baía de Sepetiba

5. Documentação

6. Eventos