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KOINONIA

Memórias Fotográficas

Intercâmbio de povos de terreiro de Salvador com quilombolas do Baixo Sul da Bahia


Por Thiago Ansel. Edição e revisão: Ana Gualberto e Natasha Arsenio
 
14/09/2016

O que as comunidades quilombolas e as de terreiro têm em comum? Foi esta a pergunta que estimulou o intercâmbio entre povos de terreiro de Salvador e quilombolas do Baixo Sul da Bahia, entre os dias 21 e 23 de novembro de 2014, na cidade de Camamu (BA).

Existem mais de 4 mil comunidades quilombolas no Brasil. Só a Bahia concentra aproximadamente 25% delas. Camamú é um município do Baixo Sul do estado, com 35 mil habitantes, mais da metade deles vivendo em áreas rurais. Sua população negra é seis vezes maior que a branca – característica diretamente relacionada à herança do período de escravidão no local. Lá, há 35 km do centro da cidade, fica comunidade quilombola do Barroso, onde vivem cerca de 200 famílias.

Durante um dia inteiro no Barroso, 30 jovens e adultos de 11 terreiros da Região Metropolitana de Salvador, puderam trocar conhecimento e experiências com os quilombolas a respeito de como têm se organizado para lutar por seus direitos (entre eles o de posse sobre as terras que ocupam) e descobrir o que de fato compartilham com os remanescentes de quilombo.

A assessora de KOINONIA, Ana Gualberto, falou sobre os objetivos do intercâmbio. “Organizamos essa atividade porque sabemos que a partir daí - do encontro mesmo - surgem idéias, propostas, em geral, coisas inovadoras e assim transformações vão acontecendo. São momentos que fazem com que todos nós pensemos, de forma muito espontânea, como podemos ser mais atores sociais”, explica.

No vocabulário das políticas públicas, quilombos e terreiros ocupam a mesma categoria: a de “Povos e Comunidades Tradicionais”. Desta forma, a atividade busca estimular articulações destes dois grupos para a construção de formas conjuntas de lutar pela garantia de seus direitos, como o da regularização fundiária, decorrente do racismo ambiental que vêm impactando essas comunidades, seja no contexto rural ou urbano.

“Além das origens comuns, fica muito claro que mesmo em contextos diferentes - nós de terreiro, nas cidades, e os quilombolas, no campo - fomos perdendo os espaços que ocupamos devido a questão histórica da expulsão contínua dos negros dos territórios”, observou Neci Neves, do Terreiro Torrun Gunan, no subúrbio de Salvador.

Em grande parte dessa imersão na cultura quilombola, quem guiou o povo de terreiro foi a líder comunitária local, Ana Célia Pereira. Ela contou a história do quilombo – formado por escravizados fugidos de um engenho próximo -, principalmente a partir do fortalecimento da agroecologia entre os moradores da comunidade.

“A cultura do cacau predominante nessa região durante muito tempo foi expulsando aqueles que trabalhavam com mandioca. Até que veio a praga da vassoura de bruxa e afastou os grandes fazendeiros. Isso fez com que os pequenos, que se uniram num momento de crise, crescessem. O que foi praga para uns, para nós foi o que permitiu permanecer na terra”, conta.

A comunidade tem tanta preocupação com sua história que construiu um centro de memória no quilombo, com objetos, fotografias e documentos. Ana Célia planeja agora produzir um documentário sobre a memória quilombola na região.

Carol Araujo, da Rede de Juventude de Terreiros de Salvador, falou do misto de surpresa e inspiração que significou a vivência no quilombo. “Me surpreendeu encontrar um centro de memória tão estruturado. Nem a maioria de nós, em nossas comunidades, localizadas em áreas urbanas, tem o costume de pensar em preservar nossa memória dessa maneira”, destacou.

Na volta a Salvador, os participantes do intercâmbio se comprometeram a compartilhar a experiência com suas respectivas comunidades. Muitos deles, inclusive, trouxeram na bagagem ideias para novas atividades já em parceria com os quilombolas do Barroso.

 

 

Intercâmbio de povos de terreiro de Salvador com quilombolas do Baixo Sul da Bahia

 

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