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RELIGIÃO E SAÚDE
Ano 4 - Nº 16
Junho 2009
Publicação Virtual de KOINONIA (ISSN 1981-1810)
_Artigo
 
POR QUE 30 ANOS DE TEMPO E PRESENÇA?
Por: Paulo Ayres Mattos

Desde que Gutenberg revolucionou a arte da impressão -- por volta de 1450, quando produziu o primeiro livro publicado usando a técnica dos tipos móveis --, a imprensa escrita passou a fazer parte da agenda cultural dos movimentos de qualquer natureza inconformados com a maneira como o mundo está organizado. Não foi à toa que a Bíblia, o primeiro livro impresso por Gutenberg, se tornou a principal ferramenta da Reforma Protestante, um dos influentes movimentos que levaram o mundo ocidental à modernidade dos últimos cinco séculos. Assim, desde então, religiosos, filósofos, economistas, historiadores e outros produtores de bens intelectuais não têm desprezado o uso da imprensa escrita como principal meio para difusão de suas ideias. Mesmo a erupção exacerbada dos meios eletrônicos de comunicação nas últimas décadas, preconizada por Marshall McLuhan como o fim da Galáxia de Gutenberg, não tem sido capaz de desalojar ainda em nossos dias o incomensurável poder da imprensa escrita como instrumento da formação ideológica, como bem argumenta Umberto Eco no seu excelente texto “Da Internet a Gutenberg”. E os grandes grupos financeiros transnacionais que exploram avidamente o negócio livreiro em escala mundial enchem nossas livrarias com uma catadupa de obras que no fundo não fazem mais do que propagandear o “western way of life”; e não deve surpreender-nos que a popularidade da James Bond nunca caiu de moda. Mas o que vale para tais interesses também vale para aqueles que a eles se opõem. É o “toma lá, dá cá” da antiga luta dos contrários que ajuda contraditória e errantemente a roda da história a continuar girando -- ainda que muitas vezes ao de invés de ir para frente pareça ir para trás, para os lados, para baixo ou para lugar nenhum.

Foi em um desses momentos de perplexidade, quando tudo parecia ir ladeira abaixo, quando insana e violenta repressão abateu-se sobre a sociedade brasileira, após as agruras que o golpe militar impôs sobre homens e mulheres que, a partir de seu compromisso com o “Princípio Protestante”, tinham se colocado na luta pelas reformas de base preconizadas como necessárias para a construção de uma sociedade brasileira mais justa, resolveram criar um boletim que desafiasse a censura repressora imposta pela ditadura sobre toda a imprensa brasileira.

Ao longo da década de 1950, setores do protestantismo brasileiro -- inspirados pela mesma teologia que acabou por levar Dietrich Bonhoeffer a ser martirizado pela Gestapo poucos dias antes da libertação pelo exército soviético do campo de concentração onde se achava preso por ter participado do complô contra Hitler -- tinham pouco a pouco levado a Confederação Evangélica do Brasil (CEB) a organizar o seu Setor (Departamento) de Responsabilidade Social das Igrejas (SRSI) com o objetivo de ajudar as igrejas evangélicas brasileiras a perceberem sua responsabilidade diante do “processo revolucionário brasileiro”. É claro que a loucura golpista que tomou conta dos setores reacionários da sociedade brasileira, principalmente dos segmentos militares que haviam sido treinados na infame doutrina da segurança nacional formulada na mal-fadada Escola das Américas do Panamá (hoje funcionando nos Estados Unidos), mantida pelo governo americano, deitaram também sua mão violenta sobre a Confederação Evangélica do Brasil, inclusive com a prisão e tortura dos líderes do SRSI.  Em apoio à “nova ordem”, os setores conservadores das igrejas membros da CEB, agindo como o braço religioso da repressão militar, além de abandonarem à sina da ditadura seus irmãos e irmãs, desmantelaram o SRSI.

Mas, “esperando contra toda esperança”, Waldo César, Jether Ramalho, Domício Pereira de Mattos, Carlos Cunha e outros irmãos e irmãs, não esmorecendo diante do revés golpista de abril de 1964, quase um ano depois começam a publicar o Boletim do CEI (Centro Evangélico de Informação), que tinha o propósito de informar ao mundo evangélico sobre o que ia na contramão da “nova ordem”, ainda que muitas vezes de forma cifrada, ao exemplo da literatura apocalíptica. Mas logo a causa e a lógica do ecumenismo militante acabaram por prevalecer: o CEI passou a ser Centro Ecumênico de Informação, pois na mesma barca ecumênica estavam católicos ecumênicos, sob a inspiração do Vaticano II, e, mais, homens e mulheres sem fé que como os crentes lutavam pelos mesmos ideais de liberdade, justiça e paz. O CEI rapidamente, com suas sucintas notícias sobre eventos que dentro e fora do país expressavam a luta por tais ideais, vai tornar-se uma referência para muitos setores das Igrejas Cristãs como alimento para contra-informação e resistência à propaganda da ditadura militar no Brasil e seus comparsas América Latina afora.

O pequeno escritório da Avenida Princesa Isabel foi o local de trabalho do CEI até sua transformação em Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), em 1974. Ali, O CEI foi muito mais que uma publicação “subversiva”, pois sob a liderança dos quatro cavalheiros do Apocalipse, gente como Beatriz Bebiano (católica) e Brenno Schumann (luterano), sob os novos ventos teológicos e pastorais da teologia da libertação, sob a inspiração de ISAL (Igreja e Sociedade na América Latina) e da Conferência Episcopal de Medellín, passaram a desenvolver atividades “semiclandestinas” (“semiclandestinas” porque o escritório funciona como editora, como mencionaremos abaixo) no campo da pastoral e da educação populares junto a dioceses católicas e grupos de igrejas e pessoas evangélicas que buscavam desenvolver práticas evangelizadoras de resistência à ditadura e construção de novas bases para a democracia brasileira. Além disso, o guarda-chuva do CEI veio a ser um espaço para proteção de diversas pessoas vítimas da repressão política, pois, com o apoio do Conselho Mundial de Igrejas, se tornou instrumento para sua retirada do país a fim de salvar suas vidas ameaçadas pela ditadura militar.

É nesse espaço ecumênico, libertário, transgressor, democrático, que foi criada a Editora Tempo e Presença. E aí está o embrião de nossa revista Tempo e Presençaque neste ano comemora seus trinta anos de publicação tanto em forma impressa como digital. Mas, após a criação da Editora, ainda levaria alguns anos para que a revista fosse criada. Antes, sob os ventos da distensão política devido às pressões das forças democráticas dentro e fora do país, bem como pelo começo da débâcle política e econômica do regime militar, com a formulação da “abertura democrática, lenta, segura e gradual”, o CEI, como já mencionado, resolve sair de sua “semiclandestinidade”, para transformar-se em CEDI. Este foi um salto de qualidade que o trabalho realizado naqueles nove anos de trabalho do CEI exigia. E com ele a ampliação do próprio escopo do seu Boletim. Agora acrescido de encartes e de cadernos especiais expande seu projeto editorial e passa a ser uma publicação que vai além da divulgação de notícias anti-sistema, assumindo gradativamente o perfil de uma revista de opinião e reflexão. Em 1979 não houve alternativa a não ser transformar o CEI em Tempo e Presença. Os tempos e os compromissos exigiam. O importante é que Tempo e Presença não foi em hipótese alguma ruptura ou descontinuação com o que se tinha desenvolvido ao longo de quatorze anos. Muito pelo contrário, ao denominarmos a nova publicação Tempo e Presença deixávamos claro que era a manutenção dos mesmos compromissos que nos anos de chumbo nos animavam quando estávamos semiclandestinos no pequeno escritório da Avenida Princesa Isabel. Como no passado continuamos Tempo e Presença. Mais ainda, como bem relembra Magali Cunha em seu literalmente memorável trabalho sobre o CEI, intitulado “Contra todo silenciamento e esquecimento - Memória de uma experiência de contra-informação religiosa” (http://www.eca.usp.br/alaic/Congreso1999/14gt/MagaliNascimento.doc):

O CEDI procurou descaracterizar a imagem de encerramento do CEI com a divulgação da idéia de ampliação do trabalho. A capa do primeiro exemplar de Tempo e Presença tinha impressa, ao lado do registro do mês – junho –, a numeração 151, que significava a seqüência do último CEI publicado (150, maio de 1979). O editorial daquele primeiro exemplar teve o título “O boletim do CEI virou Tempo e Presença”, e dizia: “... Você tem em suas mãos o nosso novo boletim do CEI: Tempo e Presença. (...) Quatorze anos de CEI e renascemos. E contamos com vocês para que juntos, sejamos Presença de comunhão, denúncia e esperança com os pobres e oprimidos deste nosso Tempo...

Portanto, a transformação do CEI em Tempo e Presença foi o alargamento de nossa tenda ecumênica que nos tempos duros da ditadura teve o tamanho singelo mas, estamos certos, significativo na luta contra o arbítrio em defesa dos direitos humanos, da liberdade e da justiça. Por isso, Tempo e Presença desde os tempos do CEI tem sido acima de tudo a expressão do ecumenismo que tem animado o compromisso de um incontável número de homens e mulheres que, a partir de sua fé e/ou de seu compromisso utópico, buscam a construção do novo mundo onde,  na linguagem bíblica, justiça, paz e integridade da criação possam se encontrar e se beijar. Tempo e Presença em todas as suas páginas, por três décadas, tem deixado claro que este é o seu único compromisso. Cremos sem hesitação que sem tal compromisso Tempo e Presença já teria deixado de existir, pois não tem sido fácil mantê-la ao longo de todo este tempo. Somos gratos a todas as pessoas e organizações, no Brasil e no estrangeiro, que têm permitido que não esmoreçamos em nossa ecumenicidade.

Tem sido a decisão inabalável e incansável, que motivou os quatro cavaleiros do Apocalipse a não deixar prevalecer a maldade que levou as igrejas evangélicas da CEB a desmantelar seu Setor de Responsabilidade Social, que tem mantida viva a chama do ecumenismo solidário. Tal espírito animou e anima todos os que têm sido responsáveis por Tempo e Presença desde sua criação em 1979. Nestes trinta anos de existência, reconhecendo que os tempos são outros, que os desafios têm nova cara, as oportunidades são diversas, e que os perigos, por sua sutileza, são maiores e mais devastadores para toda a humanidade -- mas de maneira particular para os setores mais vulneráveis de nossa sociedade --, continuamos comprometidos com a utopia de sermos “Presença de comunhão, denúncia e esperança com os pobres e oprimidos deste nosso Tempo”.

Para isso, Tempo e Presença tem mantido entre seus colaboradores e colaboradoras, em sua totalidade voluntários, mulheres e homens, de todos os recantos do país, das mais variadas ocupações e especializações, das mais diversas confissões cristãs e religiões, ainda muitos sem qualquer vinculação religiosa, ligados às mais diferentes organizações sociais. Suas contribuições têm tornado Tempo e Presença referência para diferentes áreas e organizações da sociedade civil, como igrejas, movimentos populares, universidades, seminários teológicos, partidos e grupos políticos, que têm encontrado em suas páginas recursos para sua ação na construção de uma sociedade mais justa, livre, democrática e solidária, no compromisso de que “um mundo diferente é possível”. Por isso, “contamos com vocês para que juntos, sejamos Presença de comunhão, denúncia e esperança com os pobres e oprimidos deste nosso Tempo...”

Paulo Ayres Mattos
Presidente da Diretoria de Koinonia Presença Ecumênica e Serviço