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Cafundá Astrogilda - RJ

História:

A comunidade remanescente de quilombo de Cafundá Astrogilda está localizada no bairro de Vargem Grande, na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro. A formação histórica do território remonta ao período da colonização e da escravidão, quando a região integrava grandes propriedades rurais voltadas à exploração agrícola. Essas terras estiveram associadas a Gonçalo Correia de Sá, importante membro da elite colonial fluminense entre o final do século XVI e o início do século XVII, período marcado pela consolidação do domínio português e pela intensificação do uso de mão de obra africana escravizada. Posteriormente, ainda no século XVII, as terras foram doadas à sua filha Vitória de Sá, inserindo-se no padrão de transmissão patrimonial familiar característico da elite colonial. Desde esse período inicial, o território passou a ser estruturado a partir de relações desiguais de poder, trabalho compulsório e ocupação forçada da população negra escravizada, elementos fundamentais para a compreensão da formação social da comunidade.

Após a morte de Vitória de Sá, ainda no período colonial, as terras passaram a ser administradas e posteriormente fracionadas por monges beneditinos, resultando em três grandes porções territoriais, entre as quais se encontrava a área conhecida como Vargem Grande. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, o território foi profundamente marcado pela exploração sistemática de mão de obra escravizada, sobretudo no cultivo do café, atividade que estruturou a economia regional e intensificou a presença de pessoas africanas e afrodescendentes submetidas à escravidão. A partir de 1871, com a promulgação da Lei do Ventre Livre e a concessão pontual de alforrias, algumas pessoas negras libertas passaram a construir estratégias de permanência no local. Essas famílias optaram por permanecer no território, desenvolvendo práticas de agricultura de subsistência, cultivo de alimentos e redes de solidariedade, estabelecendo vínculos profundos com a terra que seriam transmitidos às gerações seguintes.

Com a abolição formal da escravidão, em 1888, as terras da região foram vendidas ao Banco de Crédito Móvel, instituição que atuou no final do século XIX no financiamento de propriedades e empreendimentos urbanos e rurais. Sem qualquer política de reparação ou reconhecimento do direito à posse das famílias negras que tradicionalmente ocupavam o território, os ex-escravizados e seus descendentes foram submetidos a um processo profundamente desigual. Muitas dessas famílias foram obrigadas a recomprar as terras onde já viviam, por meio de créditos concedidos pelo próprio banco, frequentemente em condições desfavoráveis. Esse mecanismo produziu um ciclo recorrente de endividamento e instabilidade, configurando uma situação típica de insegurança fundiária no pós-abolição brasileiro, na qual a liberdade formal não foi acompanhada de acesso à terra, direitos ou cidadania plena.

Por volta de 1936, Dona Astrogilda, figura central na memória coletiva da comunidade, fundou o Centro Espírita Pai Tertuliano, que passou a desempenhar papel fundamental no cotidiano local. O centro oferecia não apenas assistência espiritual, mas também apoio social, acolhimento e orientação às famílias da região, funcionando como espaço de cuidado em um contexto marcado por exclusão e precariedade de políticas públicas. Suas atividades se estenderam até a década de 1960, consolidando-se como importante referência de sociabilidade comunitária. A atuação de Dona Astrogilda reafirma a centralidade da liderança feminina negra na organização do território, na transmissão de saberes e na manutenção das redes de solidariedade. A religiosidade, nesse contexto, constituiu-se como elemento estruturante da identidade coletiva e da resistência cultural da comunidade.

Em 1974, o território tradicional da comunidade passou a ser sobreposto pelo Parque Estadual da Pedra Branca, criado pelo Decreto nº 2.377, de 28 de junho de 1974, no contexto da expansão das políticas ambientais no Rio de Janeiro. A implantação da unidade de conservação deu início a novos e intensos conflitos territoriais, incluindo a proibição inicial das práticas agrícolas tradicionais desenvolvidas há gerações pelas famílias quilombolas. Essas restrições impactaram diretamente os modos de vida da comunidade, ameaçando sua reprodução social e cultural. A partir de 2009, após mobilização dos moradores e articulação com instituições públicas e organizações da sociedade civil, representantes da comunidade passaram a integrar o conselho consultivo do parque. Esse processo contribuiu para a elaboração do Plano de Manejo do Parque Estadual da Pedra Branca, publicado em 2012, ampliando os espaços de diálogo e reconhecimento do uso tradicional do território.

Atualmente, a comunidade de Cafundá Astrogilda mantém práticas agrícolas tradicionais, como o cultivo de banana e caqui, articuladas a iniciativas de valorização cultural, histórica e educativa. Entre essas ações destaca-se o projeto de Turismo Pedagógico, desenvolvido pelos próprios moradores, que promove a educação patrimonial, ambiental e antirracista. Em 2014, a comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, com apoio da ONG Panela de Barro, reconhecendo oficialmente sua identidade étnico-racial. Em 2016, foi iniciado o processo de regularização territorial junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, com base no Decreto nº 4.887/2003, que regulamenta o direito constitucional das comunidades quilombolas à titulação de seus territórios. A trajetória da comunidade expressa a continuidade da luta por terra, memória e justiça histórica no Brasil pós-escravidão. 

 

 

 

 

 

Origem do nome: O nome Cafundá Astrogilda resulta da articulação entre território, memória e liderança comunitária. O termo “Cafundá” é de uso corrente no Sudeste brasileiro para designar áreas afastadas ou situadas em regiões periféricas, remetendo à localização histórica do território em relação aos antigos centros urbanos e às grandes propriedades rurais. Essa denominação também expressa a marginalização espacial imposta às populações negras no período pós-escravidão. Já “Astrogilda” homenageia Dona Astrogilda, liderança feminina central na história da comunidade, reconhecida por sua atuação religiosa, social e comunitária. Fundadora, por volta de 1936, do Centro Espírita Pai Tertuliano, ela desempenhou papel fundamental no acolhimento, na sociabilidade e na coesão do grupo. A adoção de seu nome reafirma a centralidade das mulheres negras, da espiritualidade e da memória coletiva na constituição do território quilombola.

Processo:
  - Certificada

Município / Localização: Rio de Janeiro

Estágio no processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 03/07/2014 - Processo: 01420.013635/2013-11 - Incra - Processo: 54180.000704/2016-14.

Referência:

ABREU, Maurício de Almeida. A evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLANRIO; Zahar, 1987.

ALCANTARA, Tatiana; MARQUES, Amaro. Produção do território e das territorialidades no Quilombo Cafundá Astrogilda (Rio de Janeiro – RJ). 2024.

BRASIL. Decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003. Regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos. Diário Oficial da União, Brasília, 21 nov. 2003.

FRIDMAN, Fania. Donos do Rio em nome do Rei: uma história fundiária da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garamond, 1999.

FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES. Portaria nº 75/2014, de 3 de julho de 2014. Certidão de reconhecimento da Comunidade Remanescente de Quilombo Cafundá Astrogilga (RJ). Diário Oficial da União, Brasília, 2014.

INSTAGRAM. Quilombo Cafundá Astrogilda. Perfil oficial da comunidade.
Disponível em: https://www.instagram.com/. Acesso em: dez. 2025.

MIGLIANI, Felipe. Dia da Consciência Negra: samba e gastronomia no Quilombo Cafundá Astrogilda. Agência Lume, 2024.

NORONHA, Ana Paula. Visita guiada ao Quilombo Cafundá Astrogilda em Vargem Grande. Diário do Rio, Rio de Janeiro, 2024.

OBSERVATÓRIO DAS TERRAS QUILOMBOLAS. Dados de terras quilombolas — Observatório das Terras Quilombolas. Centro de Pesquisa e Iniciativas para os Direitos das Populações (CPISP). Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/observatorio-terras-quilombolas/?terra_nome=&situacao=0&uf%5B%5D=58&ano_de=&ano_ate=&orgao_exp=0. Acesso em: 17 jan. 2026.

RIO DE JANEIRO (Estado). Decreto nº 2.377, de 28 de junho de 1974. Cria o Parque Estadual da Pedra Branca. Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1974.

 

 

Redação: YABETA, Daniela. Quilombo Cafundã Astrogilda (RJ). IN: Atlas do Observatório Quilombola. Observatório Quilombola. KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 07 de janeiro de 2026.

Pesquisas: Caio Lima; Daniela Yabeta; Maria Eduarda Goulart

Mais informações: Daniela Yabeta é professora de História do Brasil no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS - Erechim) - Coordenadora do Observatório de História da Fronteira Sul (OHF-Sul)

Verbete atualizado em 17/01/2026


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