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60º ANIVERSÁRIO DE ORGANIZAÇÃO DO CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS
Ano 3 - Nº 12
Setembro de 2008
Publicação Virtual de KOINONIA (ISSN 1981-1810)
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Idéias para repensar o Ecumenismo
Por: Ivone Gebara

A raiz da palavra ecumenismo vem do grego oikia, casa ou nossa casa, numa linguagem mais familiar. A esta raiz se acrescenta o sufixo ismo. Em geral, apesar das críticas que fazemos aos ismos, por causa dos possíveis exageros que podem conter, eles indicam que há algo que precisa ser melhorado na casa humana ou no mundo de nossas relações. Por isso falamos de socialismo, de internacionalismo, de nacionalismo, de feminismo para indicar que precisamos estar alertas ao caráter social das relações humanas nos seus diferentes aspectos.

A palavra ecumenismo passou a ter no século XX um caráter mais religioso indicando que a fé religiosa como fenômeno humano estava passando por um intenso conflito de exclusões recíprocas. Cada religião insistia no seu caráter de única verdadeira e a partir daí, fazia seu proselitismo na tentativa de eliminar as outras, consideradas como falsas ou como concorrentes. Este comportamento acabou gerando mais e mais divisões entre os grupos humanos. Tanto no passado quanto no presente as guerras de religião, os crimes de intolerância contra as pessoas em nome de uma pretensa fidelidade a uma fé religiosa se tornaram moeda corrente em diferentes lugares do mundo. Por isso, os iniciadores do movimento ecumênico insistiam na urgência do diálogo inter-religioso como caminho de respeito as nossas diferenças e de possibilidade de lutar pela dignidade do planeta e de nossa humanidade comum. Este combate continua ainda mais atual no mundo de hoje.

A pergunta que fazemos neste século XXI é, de novo, em relação à causa de nossa vulnerabilidade e conflitividade religiosa. Em outras palavras, poderíamos nos perguntar por que as crenças religiosas tornam-se motivo de disputa, de divisão e de conflitos, muitas vezes, sanguinários? Por que atacamos a fé do outro para impor a nossa?  Por que tornamos a religião mais uma fonte de violência?

Muitas pessoas acreditam que os conflitos religiosos nada mais são do que conflitos políticos. O motivo religioso seria uma espécie de disfarce ou álibi utilizado com a finalidade de não mostrar as reais razões do conflito. Entretanto, a meu ver, esta resposta responde e não responde à pergunta formulada. Responde, porque de fato a história nos ensinou que os conflitos religiosos escondem questões políticas e econômicas. E não responde, porque permanece de pé a questão do como e do por que as religiões, que deveriam servir para a nossa edificação, na realidade servem muitas vezes para a nossa destruição.
Lanço uma hipótese como convite ao pensamento. Pergunto-me se o ataque às crenças de alguém ou às crenças de um grupo não se assemelham ao ataque às bases de sustentação de uma casa ou aos alicerces de uma oikia comum? Sustentamos e organizamos nossas vidas a partir de crenças comuns, de mitos, de símbolos, de ritos, de tradições.

As crenças que temos sobre as coisas da vida cotidiana e que dão sentido ao conjunto de nossa vida são uma forma de aposta que fazemos em relação a nossa existência. As crenças são a expressão do jeito como quero viver ou como acredito que deveria ser a minha vida, tanto no singular quanto no plural.
Assim, destruir a fé de alguém é destruir suas seguranças, suas convicções, sua expressão cultural naquilo que lhe dá segurança, razão de viver e lutar. Assim, por exemplo, a religião colonial na Ameríndia destruiu grande parte das religiões indígenas e, em seguida, destruiu muito das religiões africanas para impor-se como única verdade. A destruição das crenças pode começar, por um lado, a levar-nos a desconfiar de nossas convicções e a suspeitar da herança recebida em relação a uma tradição religiosa. Mas, por outro lado, pode igualmente acirrar ou fortalecer estas mesmas convicções, a tal ponto, que o outro que me ataca torna-se meu inimigo.

De repente, um inimigo nasce em mim e eu nasci como inimigo do outro. Nossa semelhança humana em vez de nos aproximar nos separa. O outro deixa de ser meu próximo ou meu semelhante para tornar-se meu inimigo.

No fundo, o inimigo, ou aquele que se torna meu inimigo, me revela aquilo que não quero ser ou aquilo que me ameaça na sua forma de ser. O inimigo tira a minha segurança, abala minhas raízes, arranca fora dos altares meus deuses e impõe outros. O inimigo revela muitas vezes uma força superior à minha e, talvez, seus ídolos mais dourados do que os meus e seus templos mais suntuosos do que os meus me provocam o desejo de ser parte deles ou de possuí-los. De inimigo ameaçador passo a invejá-lo e querer ter a sua força e assim passar para o seu lado. Vendo-me a seu poder e à sua sedução, converto-me aos seus deuses, dobro-me a sua vontade que se torna também a minha. Quando meus deuses são vencidos em mim é porque me tornei parte do outro lado. Mudo de campo de batalha, mudo de identidade, esqueço de minhas origens e de meus antigos amores. Torno-me amigo de quem era meu inimigo e passo a ter outros inimigos e outros amigos. Esta é, em parte, a historia das mutações humanas!

De repente, muito de repente, um velho texto presente no Evangelho de Jesus me vem à lembrança: ‘Amai aos vossos inimigos’… Como amá-los? Por que amá-los se querem tirar-me a vida? Não seria esta mais uma das varias afirmações insustentáveis do Evangelho de Jesus? Não seria este mais um dos impossíveis conselhos que se podem ler nestes textos antigos?

Se destruirmos o inimigo destruiremos o outro, a outra, pensamos com freqüência. Ficaríamos livres dos que nos atrapalha a vida. Poderíamos reinar em paz... Mas, quem é o outro senão eu mesma diferente? Sou o outro do outro assim como o outro é o outro de mim mesma? Não é jogo de palavras mas, é exercício de pensamento, de lógica cotidiana, de bom senso.
O inimigo é o outro do qual sou inimiga e eu, por minha vez, torno-me inimiga do outro. Há um jogo de amigos e inimigos que acontece em nós e fora de nós no cotidiano de nossa existência.

Do inimigo queremos distância, porque nos revela outros costumes e outras crenças ou porque revela algo tenebroso sobre nós mesmos. O inimigo pode ser aquela parte de nós que queremos apagar, eliminar, não deixar aparecer, porque é nossa imagem diferente, aquela que não queremos que apareça em nossa humanidade comum.

O caminho de minha hipótese de reflexão é tão complexo quanto cada um de nós diante do outro. Mas, vale explorá-lo um pouco mais para perceber a infinidade de meandros que se abrem.

A lógica presente ou a lógica que comanda a inimizade religiosa é a da exclusão recíproca para que apenas algo considerado como a verdade sobreviva. Na exclusão recíproca se crê que apenas um lado pode e deve viver. Os outros devem desaparecer porque são demais, porque atrapalham minha soberania ou minha pretensa hegemonia ou a manifestação da verdade que estou defendendo.

Por estas e muitas outras razões o ecumenismo no século XXI deveria superar as formas pelas quais expressamos nossas crenças particulares. Deveria abrir-se para o respeito àqueles que crêem ou simplesmente que são artesãos da arte de crer na construção do ser humano plural numa terra plural e ao mesmo tempo única. O movimento ecumênico deveria ajudar os artistas que somos, artistas na construção de sentidos, a respeitar uns aos outros sem, no entanto, afirmar-se como a verdade de um grupo sobre o outro. Se uma crença quiser se sobrepor à outra, ou eliminá-la por concorrência desleal, tornará nossa oikia comum frágil e violenta. E, então, ela não se sustentará e desabará como as pedras de uma construção mal feita. Se as crenças religiosas não abandonarem o projeto imperialista proselitista das muitas Torres de Babel de nosso tempo serão apenas instrumentos de ódio e destruição.

Amai os vossos inimigos resta como um insistente convite para repensar sempre de novo as nossas convicções e as nossa relações. Quem é meu amigo? E meu inimigo? A partir de que e de quem nos fazemos amigos ou inimigos?

Ivone Gebara.

Setembro 2008.